Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Quando me faltam asas
Sinto que me morre um pássaro
Quando me faltam asas:
As serpentes estão lá
Se esgueirando pelo chão.
Nos rincões da morte
Nudez, mornos vapores
Não voaram.
Não me cabe contestar o vento
Nem amputar o espanto
De brecar a decolagem.
De repente, a palavra empalha
Empilha nos túmulos
E nos estilingues.
Passaredo engano
Tão só palavra
Paliativa.
Gotas do mar
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Amava
Foi o aspecto das mãos? Ou o verde dos olhos, inesgotável, aclarando a vista pra mulher à sombra da menina?
Ardia, silenciado em espanto. Era dor, ambígua e inaugural, abrindo caminhos pelo sal de lágrimas. Mãos tremiam abandonos, quase em prece, ensinavam o adeus.
Os olhos marejavam mergulhos num mar que derramava. Intacta verdade: amava! Num ventre de menino, nuns olhos verdes e doces, as águas de si cresciam a despeito da dor, do espanto. Crescia, sem remorso pela dor, no que era compensado pela pureza de primeira vez. Outrossim, encanto.
Acenava o adeus. Era um ato solitário, contemplativo, revelador. Havia o prenúncio das delícias que estavam por vir. Mas a pressa em vivê-las atrasava a felicidade. Sentia um nó na garganta, dificultando a respiração. E o tremor das mãos, que não terminavam de dizer: adeus!
Despedia-se. As mãos doíam de um jeito, e os olhos eram mares de furor e delícia. Que torpores!
Dava adeus a um tipo de inocência, certo dom de ignorar que as crianças têm. (Elas ignoram nossa menção ao romance, sempre árduo. No coração de uma criança o amor é matéria prima irmã de suas brincadeiras preferidas. Criança não sabe dos abandonos que a sucederão).
Bem há pouco vivia o panteísmo das crianças, graça de um tudo. Colava seus ouvidos no ouvido do tempo, e escutava a anunciação da vida. Brotava a vida, toda nova. Pouco se lhe dava a solidão de existir: um mundo em si!
Dor pela criança que se ia. Meninice gaiata dava lugar a um sôfrego coração de moço. Contaria as horas pelo descompasso ritmado do peito.
Escreveria depois: os mistérios do amor são mais dogmáticos que quaisquer religiosos dogmas.
Muitas vezes mais doeria, imensa e mansamente, reconhecendo os sintomas dessa dor. Ela não sacia.
Gotas do mar

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Creative Commons.
Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente em áries. Filha de Marisa e Guilherme, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito...e que faleceu em 1987. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo, que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Vê a vida com cores de sertão. Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros. Ama os pássaros, as borboletas, e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia em que tatuá-la na pele. Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias.Metade dela é corpo, a outra, é palavra. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas. Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de suas finalidades óbvias. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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