Quinta-feira, Julho 09, 2009
Dos sentidos e das recordações
Parte do que se vive, inventa-se. Interpretam-se dor e alegria. O que a gente lembra, ressignifica. Transforma em matéria-prima da transcendência.
Eu excedo meus calendários, nele ensejo imaginações. Enredada no tumulto de horas já extintas, minutos por contar, contradito a angústia e o prazer da lembrança. No labirinto da memória, no sorvedouro da imaginação: o tempo depura na ampulheta a finíssima areia.
Vivo no meu tempo e no de meu sonho. Devir de mesmos novos instantes, lançados ao fosso dos sentidos e das recordações. É lá que persistem as cores das muitas épocas, senil aquarela de tons vazados para o âmbar.
A atmosfera, barroca, adivinha sombras dos lugares em que estive e que inventei. Anacrônica existência. Ocasiões difusas desenham-se na mente.
O saudosismo não move essa marcha, é o vento que espalha em todas as direções, perfumes, gozos, poentes. Descostura caminhos, força eólica de invernos cedidos a vagas melancolias. E no meu lençol, hoje, o cheiro de velhas rotinas.
À minha frente, o futuro, moço devassado de premonições. Dilata o que é conhecido e mágico. Metaforiza-se em natureza.
Porque o tempo, se não é vento, é rio, seus muitos afluentes, descendo, subindo corredeiras, ganhando novos e imprevistos contornos. A cada ano, margeia coisas queridas, que vêm e vão. E a gente, com esse rio dentro, vive, saúda, e diz adeus.
Quanto mais se vive, mais se quer viver, quase que sempre. Teme-se pelo muito [pouco, sempre pouco] que se já viveu. Nascer nos desabilita a eternidade. Precários, aprendemos a notar fatalismos, despedidas. Mais por não sabê-los.
Precoce o sentimento que desde menina se entrevia na avó, sem que em ambas se ousasse ensaiar a partida. Convergidas essas filhas de Cronos, castigadas por grossa camada de rugas, infâncias mortas e ressurreições. Até breve, quem sabe -- arrisco uma tardia separação. Se o ocaso não suscitar a cadência das estrelas, e a poesia da fé não acontecer, talvez até nunca.
Ainda jovem e já tanta partida, quando o sol nem invadiu o fim da manhã. Meu destino, arder nas três gradações de um dia.
Se não houver despedida, porque a vida é soma de ineditismos e reencontros, os olhos, virgens ou cansados, continuarão a destilar nascimentos, divisando imagens antigas, e o deslumbramento das coisas vindas.
Gotas do mar

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Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente em áries. Filha de Marisa e Guilherme, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito...e que faleceu em 1987. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo, que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Vê a vida com cores de sertão. Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros. Ama os pássaros, as borboletas, e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia em que tatuá-la na pele. Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias.Metade dela é corpo, a outra, é palavra. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas. Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de suas finalidades óbvias. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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