Sexta-feira, Maio 29, 2009
Convalescente
Eu estava deitada, convalescendo; uma gripe muito esquisita, meio amidalite, meio gripe mesmo. Pensava na morte da bezerra, e na minha própria, que há dias tento respirar decentemente - quase sem sucesso - com o nariz que Deus me deu.
Deus também me deu um jeito melancólico e um ar torturado. Mania de enunciar muito estranhamente os meus prazeres, minhas aflições, como se não soubesse diferenciá-los. Acaso nem sei se sei. (Anseio que sim para o bem de minha sanidade. Ainda não me atrevi pelos pantanosos terrenos do masoquismo. Tanto melhor).
Estava deitada convalescendo com o ar torturado e melancólico de sempre, quando, fazendo a primeira coisa útil ou definitivamente inútil do dia estiquei-me longamente que sou em direção ao caderno verde para umas retorcidas e familiares palavras de evasão, despejadas, por ora, sem menor pudor, nesse inverossímil relato – livre, mas escabroso exercício do dizer.
Sem reservas, só com o resto da febre do corpo, nada metafórica, ditei o de mim, sentido e possesso: “Quando nada basta! O amor, o sonho, esse pranto da noite, a infância abstrata na memória, descosturando teus dramas... É que a vida...”.
Estaquei nesse ponto, desordenada como de costume, pensando no caráter desolador de ter no meu corpo vestígios não metafóricos de febre, além de sintomas nada poéticos que o vernáculo também não poetizou: coriza, tosse, dor de garganta.
Afoita que sou! Tão célere escrevi, rabisquei minhas linhas, afrontada com meu afrontamento. Elencar assim, num só e irresponsável jacto, num dia de insólita convalescença, meus termos essenciais: amor, sonho, infância, memória, drama, vida.
Martirizada pela audácia, desacorçoada pela incompletude de palavras que não pensei, mas senti, e assim quase sempre, pela febre sem metáforas, retorci foi o meu lírico pescoço: Tão urdida na trama da vida! Por que assim: tão funda, tão ferida? Quem você pensa que é? Quem foi que te feriu assim para aos vinte e poucos dizer: ’quando nada basta!’? Que afrontamento! Tão penosamente o pranto!
Quem deslocou meus moinhos de vento? Não sei. Quem os inaugurou à moda quixotesca? Tampouco a resposta. “Toda palavra é propícia. Se tem chama, ou se tem drama”, devolvi com a caneta desenhando as letras no papel. Ou seriam os moinhos?
Sabia e sei o fundo disso tudo. Lançada elas vêm, acesas desde o nascedouro. Mas não hoje, num dia vago de doença, não assim: “É que a vida...”. A vida o que? À vida os seus montantes mais vultosos que a sentença não dada! A vida por viver!
Não há possível equilíbrio na relação que estabeleço com meu texto. E às vezes cansa ou assusta a urgência adolescente com que as gaivotas aos meus pés pedem céu. Assusta e cansa sim, dar-lhes sempre e incondicionalmente o pouso mais fundo, partidas para marés nunca exatas.
Porque há dias em que certas palavras devem dormir o seu sonho fecundo, sem urgência. Dormir e convalescer, sem pressa a sua febre menor. Se não vira um pendor que me move a perder o chão. O mesmo chão em que pouso sem motivos esses meus pés de gaivota faminta. Eles partem para tantas vidas, não é? “É que a vida...”.
Não há tolerância para meus desregramentos poéticos. Motivados por enunciações, metalinguagens, dizem-se, à luz do dia, da noite, da morte. Assim eles são. Alucinados relatos das veias, que tossem as minhas falas pouco lúcidas, exasperadas da poesia incauta e virótica que lanço às febres de mim. Em mim.
E sem mais, convalesço. Eu convalesço de existir.
Gotas do mar
Segunda-feira, Maio 25, 2009
Fronteiras
Toco tua matéria com o pudor de um asceta. Obsceno afrontamento. Não obstante diametralmente oposta, persigo-te, musa dos pragmáticos, dos cartesianos. Prolíficos resultados guiam tuas estratégias. Eu abrevio minha selva. Desbasto a rocha, esculpida em nervos lassos. Mas meu cinzel é o grito. Remodelar essa pedra é matar vertigens, auroras que calo pelo abandono de desejos que não me evocas. Teus calendários, justa proporção de números, de estimativas, aturdem o atemporal que há em mim. Ainda assim te busco, desarvorada, mas reverente, talhada em raiva - a raiva que eu te tenho pela não consagração de nossos incompatíveis símbolos -, e mesmo autômata de tua perfeição, faço ritos para te alcançar. Sou das nuvens, dos cios. Carnes me vestem. Por isso, sonho. Não concebo retas; escorro, sinuosa, por arestas que talvez sejam nunca polidas. Inconforme, imprecisa. Avanço a ti, determinada em meu silêncio, mistificada pelo medo, lânguida, aflita. E o que me provocas é o que tateio em tua amorfa matéria: nadas sem rosto. Enquadramentos, perfilhações sem parentesco com o amor. Sinto que também me torno ora indefinida pela vital fronteira que ultrapasso, ferida. Tecnocrática, sangro. Só até que haja escândalo. Colore meu sangue impossíveis promessas.
Gotas do mar
Quinta-feira, Maio 14, 2009
Amálgama
A vida me persegue com seus timbres
Roucas vozes do acontecimento;
Nada me amedronta mais
Que a face intacta das coisas.
Tomo de açoite o banquete das rosas
Oásis de brancura estendem-se
Em escarlates ensandecidos
De-lírios à veia acesa.
Restam desertos
Que o sol, tresloucado
Chama de poemas.
A areia arranha o silêncio do pêlo e sua
Mistura de sal no sentido da pele
Perduram águas.
À sina de mim
Amálgamas vertem suas misturas
Que a pureza dos olhos
Chama pássaros
Circundam o mel do corpo
Venta, na eriçada
Flor do ventre.
Gotas do mar

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Creative Commons.
Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente em áries. Filha de Marisa e Guilherme, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito...e que faleceu em 1987. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo, que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Vê a vida com cores de sertão. Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros. Ama os pássaros, as borboletas, e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia em que tatuá-la na pele. Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias.Metade dela é corpo, a outra, é palavra. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas. Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de suas finalidades óbvias. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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