Quarta-feira, Dezembro 24, 2008
Na tarde de verão
Caminho pela praça, cotidiano cenário. Quão dourada! Absurda, bela. O tom grandiloqüente revela o momento raro. Pombas sujas aturdidas de sol, céu de um azul arrebatador, algazarra feliz de infância, pula-pula, gangorra. Clichês. Não há clichês. Meus olhos têm a pureza ávida dos de um cego. Eu sou o espanto que ele sente se logra enxergar.
Surpreendida com tanto sol, dou-me conta de que finalmente é verão no Rio de Janeiro. Depois do castigo de muitas chuvas, e um cinza recorrente que desagrada cariocas, que tarde magnífica! Sorvete à boca e menos roupa: a alegria é geral, e há alívio que harmoniza todos ao redor.
A poética dos espaços públicos me enternece nesse fim de tarde, pós-trabalho. Nada exaurida porque não é pra tanto, eu me sento num banco verde, para mais minutos de encantamento. Meu companheiro de banco, um velho de olhar delicado e pele áspera, nem se dá conta de que cheguei. Eu não sei se ele tosse ou o quê, faz um barulho atípico, que por mais atípico que possa vir a ser, nunca ouvi ninguém fazer. Meio que tosse, enquanto acena pros seus conhecidos de praça e tarde, pras crianças que o olham com curiosidade. Quase sorriem. O sol parece ser tudo que lhe sobrou na vida. Não há nisso melancolia ou amargura.
Sob o mesmo sol, tudo o que sobrou da poesia desacontecida em meus dedos. Escrevo uma saudade com palavras de pássaros e meninos, uns versos quase belos, como em: sei da pele que goza o delírio do sol. Saudade misturada à ausência e à falta de tempo, ao pragmatismo de viver que inviabiliza a minha inspiração. Eu deixo pra depois e vou seguindo a jornada dos dias.
Hoje eu não deixo. O calor acorda os instintos, e é com instinto que eu escrevo. O azul do céu diz coisas impossíveis, que eu entendo. Ponho nos olhos a mesma ternura silente dos velhos que eu vejo daqui. Viveram muito, saúdam a quase partida, como quem acaba de chegar. Lambem a vida, vagarosamente, com sorvete e delícia. Tossem, sorriem. Viveram tanto! E têm uns olhos de criança.
Há pouco, tentei dizer tudo quanto foi verso, mas parei. Disse da euforia calada de viver sob o calor de quase quarenta graus, no fim de um ano em que tudo deu certo, e eu me rendi aos perigos da vida. Depois misturei com palavras sentidas e anunciei: acontece o gorjeio da ave na minha emoção. Desisti de dizer porque quis sentir o instante, não o dito, o vivido. As palavras, elas intensificam, mas também escondem.
Amanhã eu faço vinte e sete anos. Escrito assim, por extenso, quase me assusta. Eu sou uma menina ainda! Acho. Eu sou uma mulher crescendo, tímida e feliz. Vinte e sete anos: Isso dá quase dez mil dias. Dez mil dias! Eu não sei o que são dez mil dias. Eu não sei nem o que é um dia!
Amanhã vão me abraçar e dizer coisas bonitas. Eu vou me lembrar dessa tarde, e da Dona Menininha, que assim eu chamo por ausência de nome.
É que Dona Menininha faz aniversário amanhã, como eu. Eu faço vinte e sete, e ela, oitenta e quatro. Isso dá... Desisto de contar. Isso dá uma porção de dias.
Dona Menininha chega com sua roupa de verão, passos de quem não se agüenta. Minha nova companheira de banco de praça vem escoltada por duas moças que não parecem suas filhas. Muito atenciosas, pedem o lado mais à sombra do banco para que tão frágil ser possa se recostar. Mas com esse sol, ninguém escapa.
As moças, que devem ser empregadas da senhora menina, compram-lhe sorvete. Eu ouço música, porque desisti de escrever, capturada pela cena.
Dona Menininha toma um sorvete rosa, e olha o mundo com olhos castanhos e meigos. A imagem é tão bonita quanto o azulzinho do céu, limpo e pregnante. Ela olha o mundo, frágil, dolorida. Chegou aqui dizendo: aaaaaai.
Os instantes passam, percebo que ela já não dói. Distraída da vida, nem se dá conta de que a pele arde. É que a alma, purificada de sol, regozija-se no doce da boca, no encanto dos olhos.
Ainda entremeio uns versos na cabeça, costurando poeira e ternura. Eu olho o amarelo-metáfora-de-sol na camisa de uma criança, e esqueço, por instantes, dos que me ladeiam.
Eis que ouço: amanhã é o aniversário dela. O vendedor de sorvete, igualmente velho e poético, diz alguma coisa com um sotaque não identificado, depois sorri. Olho pro quarteto, sem acreditar muito. Com mesurado espanto, escapa-me: é o meu também!
Adentro à cena, sou personagem. E para o meu espanto, ninguém se espanta, sorriem pra mim, alegremente, como se soubessem o que eu ia dizer. O clima de filme do Almodóvar dá mais cor à tarde: absurdos acontecem, é natural.
No breve desenrolar que se segue, perguntam minha idade e me dão parabéns. Com alegria natural e sincera comentam dos quase oitenta e quatro anos da patroa ou mãe. Capricorniana como eu, Dona Menininha frui seu sorvete com vento, alheia e misteriosa.
Poucos minutos se passam, mas logo me despeço. Carrego ternura até não poder mais. Ela atinge seu ápice cá dentro do peito. Preciso do esforço das pernas, pra sustentarem minha estranha doçura. A travessia pelas ruas de todo dia é lenta, apresso meu passo, não chego. Há um mar que atravesso: encontros, coincidências, passagens.
Minha imaginação, brincalhona e volátil, vem logo acrescentar que há quase três décadas eu e a menina dona nos encontramos numa praça como essa, lá no céu. Combinamos esse breve encontro, e assim como hoje, sorrimos uma pra outra, felizes, e desgovernadas.
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Escrito no final da tarde de ontem, com o despudor da inspiração que anseia tomar corpo. Tomou corpo, um corpo quente, suado, amoroso. Verão que se abriu infinito, sorrindo pra mim. Dedico essas linhas a Dona Menininha, que nunca as lerá, e foi fonte temporária da minha inspiração. Dedico, principalmente, a todos que eu amo, e que me ajudaram a transformar o ano de 2008 num período muito especial da minha vida, cheio de realizações. Obrigada por cada sorriso e cada aposta de felicidade. Brindo a tudo que virá.
Gotas do mar

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Creative Commons.
Carioca
de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida
em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente
em áries.

Filha de Marisa Tostes e Guilherme Daniel, carrega nas veias
menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que
Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito... e que faleceu em 1987.
À
mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira
incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta,
tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo,
que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus.
Sabe-se
ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor,
e também seu pranto Vê a vida com cores de sertão.
Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde,
declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel
de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan
Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros.
Ama os pássaros, as borboletas,
e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia
em que tatuá-la na pele.
Anda querendo ampliar sua bagagem literária
porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e
alheias. Metade dela é corpo, a outra, é palavra.
Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música
preferida é a do momento.
Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo
menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o
que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades
bíblicas.
Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher,
será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não
moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum.
Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança.
Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião.
Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de
suas finalidades óbvias.
É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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