Segunda-feira, Outubro 16, 2006


Hoje o dia está lindo. Eu olho pro sol e acho que ele quer me trazer alegria. Me mostra o poder do dourado na pele, as flores que vicejam por sua graça. Eu o enfrento de igual pra igual, em minha soturna palidez. Mas o sol escapa ao meu entendimento, e eu ardo. Simplesmente. Sou agora uma de suas presas, me visto de amarelo. Só imagino o mar que daqui eu não vejo, um azul profundo como os olhos da minha bisavó. O tempo não está para saudades, mas para ações. Ainda assim, uma e outra saudade latejam no meu ser. Queria poder brincar de encantos. Minha magia seria assegurar poesia para as próximas gerações. Eu cuidaria das sementes e das primeiras safras. Uma plantação de vernáculos líricos, estrofes fertilizadas, versos bem nascidos. Todos os dias, poemas seriam concebidos. Meu ofício, comum a outros, continuar a sonhar. Sem medo de arriscar universos fantásticos, e de fugir à verossimilhança. Hoje sonhei com livros sagrados escritos por homens comuns. Sonhei com uma nação justa, com diferenças que eram somadas, mãos que ajudavam outras mãos. Delirei de esperança. Acordei e o dia estava assim, lindo, sorrindo pra mim. Torço para que seja um sinal.

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Quinta-feira, Outubro 05, 2006


Sorrio pra manhã nascedoura. Tenho no rosto o resultado da noite sem sonho. E há tantas chagas nessa olheira secular. Há histórias de caminhos perdidos, de outonos sem testemunhas, e de primaveras só há pouco germinadas. É mistério este doer imaculado, sereno, quase uma conseqüência de viver. É um doer manso, dor de parto, porque cada instante é a vida. E não se traz ao mundo sem dor. É isto, portanto. Estou sempre trazendo ao mundo este eu mesma cheia de emoção. Vivo às vísceras, às vésperas de mim. Sou o que está pra acontecer e o que não serve mais. Sirvo pra sonho, pra paisagem, pra ventania. Sirvo pra poesia. "A poesia é o presente", versejou Ferreira Gullar. A poesia é a minha inteira, de cada sorriso matinal abrindo as cortinas do mundo ao negrume da vaguidão insone. Sou esse eterno metaforizar-me. Sinto esteticamente. Consisto em criar. Minha existência é verbal, os caminhos do meu mundo são flores feitas de palavras. Meus jardins são frases inteiras. E a cada letra que nasce, revivo em mim a certeza etérea que justifica meu viver.

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