Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006
Vida Canibal
Momento decisivo: a câmera dispara o presente, o coração dispara o amor. Me retrata em filtro azul, me espera dentro do mar, quer que eu mergulhe, que vá caçar a pérola. Mas hoje a saudade sangra, chora o existido. Hoje é ontem e amanhã. O que brilha no sorriso da primeira hora, turva na olheira lacrimejar da noite. É o esquecido que se ressente, porque toda novidade assassina. Mesmo que em legítima-defesa. Mesmo que por amor. É um jeito novo de fazer as mesmas coisas. Se olhar no espelho, pousar a mão no rosto enquanto reflete, se ajeitar na cama a espera do sono e da carícia do outro. E apesar de bela, a vida é um trator deslocando antigos caminhos, devorando algumas flores de percurso, sobreviventes, feridas. Porque afinal, é o replantio no solo do meu corpo, na terra de antigos abandonos, de amores esquecidos. Mas voltemos ao presente. Tudo caminha para o que sempre esperei. Então por que os olhos cheios de adeus? É que meu desatino virou discernimento. Meus gritos viraram afagos. Em tudo uma despedida. E eu me despeço. Eu ardo na fogueira do Tempo. Tragédias e devoradoras alegrias? De novo as viverei. Mas choro nesta estação, tanto quanto sorrio e encontro. A criança que pedia infinito, hoje é mulher que pondera, que não tem só utopias, tem metas. Ainda não sei se ela conserva os mesmos mitos, se se lembra de mim, se tem rimas, se fará poesia. Dormirá com a porta fechada ou aberta? Noto, pelo contrair da boca, que a sede de céu persiste. É um bom sinal. Noto, pelos seus olhos, que ainda conserva estados de chuva, que alaga, mas que ainda é sertão em seu nordeste. Sua lua ainda curva de mistérios, pálida e cristalina, num céu púrpuro. O estertor de lágrimas que só o silêncio escuta, permanece assim, indecifrado, surdo. A solidão é um bem e um mal-me-quer eternos. Mas a vida já não é uma ilha. Há pontes, mão com mão. E o coração renova sua batida. Tum. Feliz. Frágil, mas regozijado. Tum. Hoje que ninguém vê, eu beijo o ontem. Tum. O vento descobre lembranças atônitas. Tum. E o futuro me abduz em sua nave hi-tech. A cada passo, o descompasso de marchar pelas avenidas do tempo. Ruas nos meus pés, asas no coração. Uma saudade, um novo afeto. Toma lá, dá cá. Vida devoradora de presentes. Vida canibal. De passados ausentes, de futuros latentes.
Saciai-vos:
Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006
Filamentos
Teço os caminhos em que eu mesma ando
Rasgam-se-me as vestes cerzidas pelo Tempo
Nua, detenho dos véus da Vida
Retalhos de minha cosedura.
Saciai-vos:

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Creative Commons.
Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente em áries. Filha de Marisa e Guilherme, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito...e que faleceu em 1987. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo, que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Vê a vida com cores de sertão. Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros. Ama os pássaros, as borboletas, e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia em que tatuá-la na pele. Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias.Metade dela é corpo, a outra, é palavra. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas. Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de suas finalidades óbvias. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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