Sábado, Janeiro 28, 2006


Dos imperativos e do tempo dos desejos

A noite roga que as estrelas brilhem uma última vez. O clamor é tão intenso que a luz eterniza no universo o desejo de todos os poentes. E toda noite as estrelas brilham. Não há mais fim para essa promessa de estrela. Já não há começo. Não mais se pergunta quando ou até quando. (Sempre existiu, sempre existirá). O compromisso se renova a cada geração de astros que cintilam, com a mesma força do sem início. Qual lei divina. Qual arquétipo. Qual dado da natureza. Na obscuridade incognoscível dos céus, os sóis sempre alumiam. No mistério das noites, como nos mistérios do querer, nunca mais cessa de ser última vez.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Janeiro 09, 2006


A cada um cabe suas próprias dores, suas alegrias. Mas, e quando as dores já não nos cabem? A quem culpar? À torpe humanidade? A um fracasso pessoal? Ou a um mundo de vilezas, incongruente, incompatível? Ora, e o que somos perante o mundo, senão incongruentes, incompatíveis? Se fosse tão simples, vileza não rimaria com beleza. Sim, porque semânticas que não se harmonizam, rimam perfeitamente. Depois, riem de nós. Porque realidades que não se equilibram, explicam a dinâmica da vida. Se por um lado a generosidade perdeu eloqüencia no presente, deprimida que também anda, por outro, o mundo sempre pareceu ambíguo, competitivo, cruel. Também formidável, de quando em vez. A quem culpar, então? Por mais que eu transcenda, supere, por mais que eu cresça, serei apenas eu, que sou tão só perspectiva de mundo, múltipla de coisa una. E no entanto, com toda a minha frivolidade, com toda a minha pretensão, com tudo que me faz pequena porque sou só humana, também sou eu o meu mundo, a minha cosmogonia, o meu Deus. Sou na exata medida que sinto, vejo, t(r)emo, me encanto, ardo. Profundamente só. O resto são interpretações, conclusões a que eu chego, suposições de instantes, de olhos, de frases. Por melhor que eu possa vir a ser, por mais que eu venha a edificar, sou um fragmento deste mundo que eu só suponho, um mundo apartado dentro de outro, que sou eu, na minha ilusão - busca eterna - de pertencer. Tal realidade não me constrange, porém. A dor não é a da ilusão, essa todos carregamos. Desespera não ter embarcado todos os meus navios, e estar aqui, a divisá-los, tão náugrafos de mar algum. Pesa não ter dado à meu Quixote os moinhos de vento, e à minha razão, o empirismo. Refaço sempre o caminho da volta, antes de ter convocado as horas do meu tempo a viverem como amantes. Esmoreço de covardia ou de amor? Como saber!? Essa fragilidade de tudo, em tudo, esse medo de sombras e sóis, essa alegria sem eco, essa duração de um meio-sonho triste e roto, essa solidão cheia de invalidez, essa vontade esperança de pertencer! Assim dou contorno aos meus lamentos. Sobrevivo em vastas mortes, sim, porque são inaudíveis minhas dores, por mais que se possa ouvi-las. E minhas lágrimas, enchentes em rios que ninguém nadou.

Saciai-vos:



Licença Creative Commons
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.