Sexta-feira, Novembro 18, 2005


Testemunha de um pôr do sol

Amo as últimas horas da tarde, sobretudo quando é final de Primavera. Sou devota da noite que principia, cheia de brisa, pondo sombra no corpo, refrescando a gente. Adoro quando os raios de sol, já menos eufóricos, dizem-me: "adeus!"; quando eles me pegam de jeito, brincando com a palidez da pele. Se saio às quatro e meia, cinco, seis da tade, invariavelmente presencio a transformação milagrosa do tédio em encantamento. E por mais desesperada ou aflita que eu esteja, sou por um momento feliz. E por mais feliz que eu possa previamente estar, há lugar cativo para esta ventura ancestral. É quando meus antepassados festejam os mistérios do mundo, com seus ritos pagãos. É quando Nix e o Deus do Sol se beijam, na boca da minha pós-modernidade maravilhada.

(Que poder de conversão a natureza exerce sobre mim! Sou regida pela essência desses enigmas, que modifica o cheiro das horas, desloca massas de ar, faz crescer a grama e o mito).

Saciai-vos:



Domingo, Novembro 13, 2005


Da cópula dos sentidos, descendeu a ânsia, brincando de ferver na candeia das artérias. Tremiam que tremiam pensamentos! E o corpo, desapaziguado com a calma, era um desastre no manejo da candura - tanta candura por aqui dentro tudo!.. escorrida numa baba de medo, numa gagueira mansa, suando delicada as mãos, prenha de ternura rota. E a paixão, assim, desavisada de jeito, ia eriçando a penugem das vontades, soprando afetos, afogada em desrazão. E a febre adubada de sonhos ia, de um jeito bobo e bonito, adoentando a realidade. Da vigília pro sono, vezenquando encontrava a paz - que me era arrancada dos campos da emoção: pequeníssima flor, tímida de cheiros e gestos, no triste pendor de colher, colher a si. Todavia, eu nunca me queixei: da paz amputada, da dor nos ossos, do desconcerto nos músculos, desafinando a orquestra do coração. Recusei remédios, cessei com a lucidez do mundo. Sentir virou minha doença, minha poesia.

Saciai-vos:



Quinta-feira, Novembro 10, 2005


Já sentiu saudades do que não viveu? Ou você é daqueles para quem o tempo não cede a deliberações, a condicionais, para quem o instante é o dos acontecimentos presentes, é o segundo vivido em toda intensidade?
Pergunto porque já senti todo tipo de saudade possível: saudades do que vivi - e não vivi. Saudade até pelos outros! Saudades do que viveram - e não viveram. Saudade em todos os tempos e modos. Saudade renitente e obstinada.
Saudades de sentir saudade? Já senti também. Senti quando supostamente não havia por que se lembrar, quando a vida me chamou pro presente de um jeito tão pretensioso, que achei um desperdício ficar cultivando certas lembranças; "coisa de velho", pra ficar no estereótipo, ou de "velho precoce", pra chegar no que muitas vezes sou.
Fiz tantos planos nesses últimos tempos, que ando meio decepcionada comigo mesma, por não concretizar nem um terço do que planejei. A saudade entra aí como contraste, pelo tempo em que sonhar quase bastava; o sonho era, em si mesmo, uma forma de realização. Saudades dos sonhos românticos de pouco tempo atrás, das angústias intermináveis, da melancolia criativa que resistia heroicamente a sua inerente condição de dor, e sonhava com futuros brilhantes, com felicidade plena, com um grande amor.
Não mudou muita coisa desde então. Alguns sonhos resistem, obviamente, outros se renovam, porque não deixei de fazer planos. No entanto, hoje, minha alegria - tão mudanda - tem um q de fúnebre sordidez, porque assassina muitos dos ideais de ontem. A idade avança, na mesma proporção que a cobrança íntima: "É preciso viabilizar, edificar, concretizar", digo pra mim mesma. "É preciso fazer e acontecer", me diz esse mundo louco e competitivo em que vivo.
E o que faço? Listas intermináveis de obrigações não cumpridas, retrospectiva de minhas melhores e piores lembranças. Sintoma de quem sente saudade, é fácil notar. De quem está buscando referências antigas para uma vida que não se fundamenta em seus próprios paradigmas. De quem, por fim, não se encaixa quase em lugar nenhum - e estaria até disposta a tropeçar nas mesmas pedras do caminho, se pudesse voltar a ser a menina que outrora foi (e a que nunca conseguiu ser).

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Sábado, Novembro 05, 2005


Estou à primavera de sensações indóceis. Florações extremas, e no entanto, mudas, só eloqüentes de silêncio e olhar. Discretamente solitária, aguardo pela ventania inconfidente da alma, a fim de que ela cante minhas proezas, revele minhas histórias, as sonhadas e vividas. Minha quietude é de bosques que trazem a urgência dos verdes, revivendo a cada estação, o definitivo da vida. Cresço inesperadamente nessa temporada, feita de noites arrastadas, consumida no ópio de palavras silenciadas pelo medo de morrer de amor. A estrada desses mornos dias é longa demais, a rotina é uma reta que desejo bifurcar porque sonho com curvas de mulher. Sonham as curvas comedidas em mim. Mesmo calando sussurros, palavras, frases inteiras, orquestro-me, alcanço as estrelas dos meus delírios, agigantada por dores e agonias, por ilusões, sóis temporais, secretamente difundida nas minhas entranhas, nas dimensões multiplicadas de meus eus. Minha natureza sabe que, a despeito de quaisquer rios que eu navegue, desembocarei sempre em versos livres; e assim será até que as flores perfumem alegrias e tragédias.

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