Sexta-feira, Setembro 23, 2005


Voz na minha garganta: limite raso! Ecoa finitudes, ruídos, tartamudas expressões. Voz no papel - de sonhar: sidera! Cruza as cintilações dos morfemas, lumia astros, planetas, transfigura-se em estrela:

Cântico de Inspiração

Em qualquer superfície gravarei meus verbos: na pele da flor, no tapete do pé, na parede dos céus, nos papiros de Deus. Onde houver branco, pintarei nuvens de versos delirantes. No banco da praça, na bula dos remédios, nos segredos, nos degredos escreverei.

Viajarei terras distantes, renunciarei à solidão para viver nas multidões das frases. Meus oásis desertificarão, meus Saaras levarão enchentes. Percorrerei cada palmo da palavra que me leva até o suspiro ritmado das vírgulas, a pausa silenciosa dos pontos finais. Vates e inspirados trovadores vão se valer de mim; lascivos e harmoniosos, gozarão intensidades. Violada por poetas, gerarei rimas.

À sombra de árvores convertidas em folhas de papel, comporei hinos que não cantarei.

Saciai-vos:



Quinta-feira, Setembro 22, 2005


Eu sei que a aflição, a alegria, bem como outras sensações, são estados provisórios do corpo e do espírito, embora possamos entrever alguma constância no jogo de probabilidades que é estar feliz/triste, eufórico/anestesiado, e por aí vai. Sabemos que fatalmente um ou outro desses estados nos acometerá, ou ambos, tornando o sentir uma dialética. Hoje não me senti dialética, ambígua, cercada por complexidades. O vento soprou certeiro nos meus cabelos, e ele dançou. Foi bem simples e esperado. Foi natural. A menina que eu olhei me olhou. A folha que eu pisei fez barulho de folha pisada. Quando senti frio, fez frio mesmo. Senti dor porque era pra doer. E quando foi hora de sorrir, não hesitei em mostrar os dentes. Revesti os olhos com o brilho que só brilha quando se sorri. Houve silêncio e não foi o íntimo, a rua estava deserta. Tudo o que se deu era o que se afigurava, e não outra coisa. Cheguei a me surpreender com a verossimilhança de um real que me é fantasioso, povoado por essa imaginação febril, e pelo meu jeito meio carente de sempre pedir sonho. Senti a sobriedade do meu momento de vida: caminho, estrada, processo. Sei que não é tão simples conceber o presente como processo. Mas não foi surpreendente me olhar no espelho e me achar com aquela cara que eu não terei daqui a dez anos. E houve paz, uma paz rara por dentro.

Instante-ação. Reação-instinto.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Setembro 14, 2005


Não dissiparei as sombras desse quarto, enquanto espontaneamente me envolverem. Assim, meus sonhos não despertam, dissipando-se eles mesmos na lucidez da vigília. Enquanto houver esse opaco em torno, haverá manta e cama para aquecer, haverá corpo sedento, mera sombra na solidão do mundo. Ah, essa orgia lírica por debaixo das cobertas é o que me salva em minha perdição!

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Então existe o mundo! Vou até a janela e me deparo com: janela, cortina, gota, asfalto... É sempre tão bom poder se surpreender com as mesmas coisas. Nem o novo nessas horas é tão inédito.

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Hoje consegui dormir um pouco, ou melhor, fiz com que esse verbo me fosse útil por umas três horas. Mas logo no começo da madrugada acordei novamente. E foi a luta de quase sempre. Dia não é verbo, então não costuma haver muitas rusgas entre em mim e ele. Eu durmo fácil, fácil. Durmo, por sua vez, já foi conjugado. É, acho que meu problema de insônia é problema de infinitivo nos verbos.

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Estou feliz por esse respeito profundo que invade e glorifica minhas palavras mais bestas. É uma brotação sutil da alma, que não nega o corpo, mas faz dele um trampolim pra atingir a próxima brincadeira.

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As sombras me visitam pela última vez. A luz do sol já acendeu ali fora. Deixe-me aproveitar os últimos segundos dessa iluminação íntima. Que paz e que assombros libertadores! Não, não despojarei destas frases tão nuas a dádiva de se dizerem enquanto simplesmente são.

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É porque Deus voltou. Ou ainda, porque eu voltei com Ele dentro. Tornei a percebê-lo, pressenti-lo. Ações supostas de quem realmente ama. Descobri que Deus é meu filtro no mundo, decantando para mim as melhores percepções. Sim, essa é minha definição de Deus.

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Não há como explicar a necessidade de solidão, ou de companhia. No primeiro caso, o meu caso, é porque tudo absorvo, ao limite insustentável da convivência que me desabita. Depois, é preciso ilha pra me comunicar. A segunda coisa tem que ver com a primeira, é claro, pois doar o próprio silêncio é um admirável ato de caridade, com o outro e consigo mesmo.

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Li, em algum lugar, que se deu de presente a quem muito se amava o seu melhor dia, na falta de um objeto de valor. Bom, na falta do meu melhor dia, eu dou os meus melhores pensamentos, discretamente, porque assim me parece mais bonito.

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E, por fim, se o segundo dia de chuva, nubla-me os bons humores, ao menos a segunda noite em claro, embora me tire a inteligência de existir eficientemente no mundo, nutre-me de inspiração, fazendo de mim esperança de sol.


Bom dia!

Saciai-vos:



Terça-feira, Setembro 13, 2005


Amanheceu chovendo. E eu novamente não dormi. Rotina de vagabundo? Também. Afinal, dessa vez não fui pra faculdade, embora ontem eu tenha conseguido, heroicamente, arrastar-me até lá. Essa é, contudo, muito mais uma rotina do não: não paro de pensar, não durmo, não vou pra faculdade, não gosto do rumo que isso está tomando, não consigo parar de reclamar.
Fico ensaiando um e outro bom humor, só que fraco, canastrão. Coisa de ator que não sabe rir, dar uma boa gargalhada. E como eu dificilmente dou uma boa gargalhada, sorrio amarelo aqui, bocejo acolá, na interminável espera de um próximo coma seguido de uma próxima insônia.
Depois do estio, volto à verborragia de sempre, posso constatar, só que dessa vez com a escolha de temas mais inúteis. Note que chove, não é muito, pelo que se entrevê da janela, mas o suficiente para molhar. Chove por dentro também, mas não por uma ocasional tristeza, é porque chove mesmo - costuma acontecer quando uma alma é lavada, revisada.
O problema é que meu dilúvio pessoal não me encharca; não recebo dos céus a benção simples de um banho ao ar livre. Por enquanto a metáfora do banho não atingiu os sentidos, acho que é isso. Sinal de que essa faxina está só no começo. Seguindo essa mesma lógica, muito escrevo e pouco digo, embora eu queira muito dizer. Mas também quero ser desnecessária, confesso. Assim eu me esqueço um pouco, ou me recrio.
Engraçado que, embora eu não esteja ótima, não estou péssima. Aprendi a arte de não sofrer? Longe disso. Até porque não sofrer nunca não é arte, é apatia. Acho que tal fato se deve às recompensas que venho tendo com essa bagunça interna. Veja só: primeiro, a dor profunda, devassando tudo, fazendo escombros. Isso foi a depressão. Depois veio a lenta, mui gradual e lenta reconstrução íntima. Uma amizade aqui, um desafio acolá, a rotina voltando. Havia passado por limites emocionais e humanos. Aos poucos volto à mediocridade, porque ninguém vive mesmo sem ela, exceto alguns loucos e gênios, todos nós, um pouco dos dois em certas fases da vida. Só que eu não estou louca, embora quase, nem genial. Estou insone.

Saciai-vos:




Nos pés da moça

Sou os pés da moça
Que corre(m)
Sem saber pra onde.
Eu também corro,
Só que inerte,
Sou toda sentimento.
Subo os degraus da Jornada,
Patino nas pistas do Prazer,
Chutando, por acidente,
Um momento decisivo.
Vou, volto
Pra onde nunca fui;
Sinto apertar o couro da vida.
Repito os mesmos passos,
Fujo do que não tem saída.
De labirinto a labirinto,
Solto as tiras da minha mágoa;
Alcançam-me pontes,
Escarpadas, planícies,
Banha-me o rio Lágrima.
Tropeço outra vez no Querer,
Vou trotando, meio trôpega,
Até a próxima saída.
Salto duas,
Três dificuldades.
Meu salto se quebra,
Minha alma se equilibra,
Passeio, enfim,
Pela Terra Firme da Maturidade.

Saciai-vos:



Domingo, Setembro 11, 2005


Da minha imaginação já não se depreendem as mesmas farsas. Tornou-se morno conceber ilusões, pôr em movimento uma obsessão, uma palavra doida, uma vertigem. Aterrissar pela janela é esperado. Fazer dueto com o cantor preferido, não é surpreendente. Tomar sorvete com Deus é casual. Já não me perco por querer me ver com os olhos de quem me ama. Reunir hipoteticamente todos de meu afeto numa mesma casa, para lá envelhecer sem nenhuma angústia ou arrependimento, não me causa a mesma ânsia. Salvar a humanidade virou lugar-comum. Sofrer no decorrer de um suspiro, ou inspirar-me continuamente, são hoje meras recorrências de quem muito cismou.
Eu deveria estar contente com o que a fantasia me criou. Mas é morno, é esperado. Pôr em movimento, fazer, salvar. Eu deveria ser grata por fechar os olhos de dia e sentir o frescor da noite. Fechar os olhos de noite sentindo o clarão do dia. Por inventar razões honradas pra minha timidez, que não é mais do que covardia. Por supor um motivo ousado pras minhas insônias apáticas. Eu deveria ser grata. Era pra eu sorrir profundamente ao pressentir que um afeto novo ronda o túmulo de desejos esquecidos e dedos ociosos. Só que nessa intuição não concebo mais que as mesmas utopias já vividas. E não é tristeza, é um cansaço.
Que ninguém saiba, mas me creio doente, como que curada de magia. Não sei por quanto tempo. O fato é que me sobrevém o peso do irreal. Tantas ilogicidades cometi, que hoje olho o sorriso descarnado e falso de um hipócrita, e não atento mais para a redenção possível de outrora. É como se flores não nascessem mais no meu jardim. Ou pior, elas nascem, mas da repetição constituo no máximo um interesse de cunho científico, não de estupefação atribuída ao divino. Não vejo mais em meus dedos, pétalas, carinhos. Tudo se fixou útil, pragmático, real demais.
Ouso delirar de novo. Meus devaneios, contudo, não me superam. Inicio a viagem, e já retorno, curta é sua duração. Sonhar virou clichê. Escrever, uma rotina, que o vício não fez cessar. Se pretendo, a lucidez desvela minha ambição. Não há enganos. Não há afagos. Se mergulho, resvalo-me para o raso. Quase nada me afoga.

Saciai-vos:



Sábado, Setembro 03, 2005


Intermédios

Sorrir tem algo de hipnótico,
Como também o tem, sofrer.
Partindo desses intermédios,
Tomo para mim que o transe
É viver.


Saciai-vos:



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