Segunda-feira, Agosto 29, 2005




Meu armário afetivo está abarrotado de palavras não-ditas. É um guarda-sentimento. Tem emoção pendurada em cabide, tem desejo dobrado, tem interesse amassado no fundo de uma sacola. Se tento abrir suas portas, ele me arremessa covardias, que pra disfarçar, chamo de bom-senso. É que ambos estão na mesma gaveta, e têm quase a mesma cor. E se tem dia que planejo jogar tudo fora, tem noite que eu não durmo, revirando pensamentos guardados. Quando quero me vestir, sei que vou encontrar expectativas gastas, romances que não cabem em mim. O melhor era andar nua, eu sei. Alma não se esconde, ao menos em tese, como um corpo que se guarda atrás de panos intermináveis. Mas o fato é que ela às vezes se encontra tão colada ao corpo, que dele lhe absorve as vergonhas, típicas de vontades recolhidas. A alma não é assim tão pura como se idealiza. Devia andar nua, sim, não por ser desprovida de sexo, quais anjos fictícios, mas porque não reprime contradições. É nosso espelho mais fiel, reflete o que não podemos evitar ou conter - vai ver por isso suas janelas são os olhos. Guardo todos os dias retalhos de minhas descrenças e esperanças. Valorizo cada ilusão que me agasalha, cada verdade que me desnuda. Já não há mais espaço. É tanta lembrança-entulho, quereres que não estreei. Tão egoísta quanto um monopolizador de riquezas, eu não dôo minhas peças. Tão órfã quanto qualquer abandonado, aceito, sem reclamar, o pouco e o muito que me dão.

Saciai-vos:



Sexta-feira, Agosto 19, 2005


A salvação de um banho

Procurei, procurei,
Procurei sem cessar
O texto,
O contexto.
Vaguei, vaguei,
Nos labirintos de V e de Z.
Peregrina do Idioma,
Com meu cajado esferográfico.
Rasguei, risquei,
A folha com minhas palavras.
Achei, achei,
Inspiração na água,
Na ducha,
Na sonoplastia do banho.
No shhhh,
No plaft,
Na delicadeza das formas.
Abri a torneira dos pensamentos.
Escrevi porque senti
A duração do sabonete no corpo,
O perfume morno das costas.
Ri, recorri ao banho,
Me salvei.
Duelei com a água que esfriava
Quando eu me aquecia.
Joguei xampu nos olhos da sílaba.
Nenhum grande tema.
Eis o meu tema.
A pretensão de se tomar um banho,
Enquanto o mundo entorna.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Agosto 10, 2005



Não é que eu chore demais. Minhas lágrimas é que têm mania de grandeza. Crêem-se dilúvio, e por isso brincam de inundar. De cascata, cachoeira. Fazem correnteza a partir dos olhos, atirando-se queixo abaixo, audazes, sem temores. Quando medrosas, alcançam pescoços, travesseiros, sem o enfrentamento de grandes altitudes. Então umedecem ombros, seios, pretensiosas outra vez. Pensam regar a flor do peito, rubra e desabrida rosa, conquanto o coração se faça borboleta, batendo suas asas mutantes; feita de músculos, sangue, e de ar-dor.

Saciai-vos:



Quinta-feira, Agosto 04, 2005


O presente mais bonito que recebi

Foi num evento, no mês de Fevereiro, ele não me conhecia. Sorrimos um pro outro, assim que nos vimos, dissemos-nos "oi", entre outras poucas palavras, polidas pelo dever social. Foi quando um delicado amor surgiu.
Ele era uma espécie de orientador naquilo a que eu me dispunha ser orientada. Rezávamos pela manhã, no auditório, eu, ele, e os demais jovens, potências biológicas que ansiavam por uma transcendência puramente anímica. Renunciar aos prazeres do corpo era o meio de se chegar às recompensas do espírito, nisso críamos, dicotomicamente. Nós, santos imolados na carne, deuses invertidos da luxúria. À tarde nos submetíamos a dinâmicas intermináveis, debates bem-humorados, inspiradas reflexões. Recolhíamos-nos cedo, poucas horas depois que o sol se punha. Música de cunho religioso sempre tocava, nas três gradações do dia. Era bonito, alegrava o ambiente, e cantando, nossa fé não nos desviava.
Naquele tempo, eu era o que se pode qualificar de menina obediente e educada. Fazendo-me de cega ante minha própria cegueira, a que me conduziria à navalha do instinto, cultivava virtudes a esmo, como quem planta e não sabe bem o quê. E não era por covardia, acho que era esperança.
No último entardecer, providenciamos bolos, cartões, despedidas. Abraços davam vez à euforia, que não se revelava por risos histriônicos, mas por lágrimas histéricas. Encharcávamos era de pesar pelo retorno. Voltar a um mundo de apelos, de liberalidades aturdidas, de euforias mais eufóricas que as nossas, de consumos rasos e artificialismos de todo jaez, doía-nos. A dor era por não querer abrir mão, inclusive do nosso egoísmo.
Na despedida em grupo, fizemos paródia de amigo-oculto, com nomes fictícios, regras locais, e procedimentos escusos. Fiéis até certo ponto à brincadeira original, não faltaram os performáticos, os tímidos eloqüentes, e os inexpressivos, sempre dóceis, sempre sorridentes, mesmo com a morte por dentro. Encaixava-me um pouco em cada categoria: ágil com os olhos, tímida com a boca, estúpida com as mãos. Pra falar a verdade, nem sou capaz de me lembrar de meu amigo incógnito. Talvez porque preferisse permanecer oculto.
Ele, o protagonista desta história, também participou de nossa confraternização, tendo sido o penúltimo cuja identidade foi revelada, e o último a se apresentar. Meu nome ainda não havia sido citado, e por óbvia que se tornou a brincadeira, vi-me alvo de risinhos e deboches. Desatento ao que se passava a sua volta, levantou-se, muito concentrado em si mesmo. Acariciou o presente, suspirou fundo e disse:
- Não vou proceder como os demais, que antes de dar a conhecer o nome de seus amigos, atribuíram-lhe características contrárias, a fim de dificultar a adivinhação. Por frustrado que sempre se torna esse jogo quando se encaminha pro final, dada a ausência de surpresa, acredito que cabe àquele que lhe dá a última voz, falar com o coração. Não sou poeta, tampouco orador, não sei atuar, por isso com uma frase defino minha amiga, finalmente revelada: ela mora em seus olhos, livre, apenas em seus olhos. Em parte alguma você a encontrará, senão no brilho meio ébrio que deles emana.
Nunca mais o vi. Nunca mais pousei meus olhos nele. Aceitei o presente, devotamente, como água que se oferta a um deserto, como verdade universal buscada por filósofos, enfim comprovada. Como todo o amor de Deus, dirigido a um único e dileto fiel.
Nunca vou me esquecer onde eu morava, também nos olhos dele. Vendo-me pela fresta da alma, ele me excluiu de generalizações, comparações, prerrogativas e preconceitos. Comezinhas insignificâncias, comparadas ao que nos dá sentido de existência, e nos imortaliza no tempo inapreensível de um segundo, tornado especial. Ele não apenas me viu, justificou-me enquanto ser, deu-me voz, motivo, identidade. Deu-me o outro de que eu precisava. Disse: "Ei! Eu te vejo, te abrigo, te explico, te causo", não por caracteres secundários, por deveres de ofício, por filhos que viesse a lhe dar. Fui vista através da chama, que se para os céticos não revela a alma, revela o homem, despido de sua humanidade, ferido de instinto, ardendo desentendimento e desejo. Ardendo loucura, uma certa poesia eternizada no olhar da vítima que perdoa seu algoz, porque lhe entrevê alguma inocência perdida, despercebida, arquetípica - um modo de dispor das mãos, levá-las ao calcanhar, um jeito de suspirar olhando pro horizonte, ou de passar manteiga no pão. Perdão que ele me proporcionou. Olhos que ele me deu, e que não foram só os meus, foram os da humanidade, que sobrevive ao caos, ao amor, à indiferença, sempre que se vê, mesmo que por um instante, refletida num outro que a unifica e eterniza.

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