Domingo, Julho 31, 2005


Tanto quanto, ou mais

Penso que seria mui vazio a vida sem vazios. Meus vazios me fertilizam tanto quanto me estancam. Ou mais. A falta pode levar à aquisição de um bem, como a grafite pode levar ao diamante, a concha à pérola, o sal ao mar. Minhas lacunas eu preencho continuamente com a força da possibilidade e da circunstância. Criar é improvisar tanto quanto planejar. Ou mais. O espaço que eu ocupo é o da tela em branco refletida no sonho em cromaqui, a partir do qual o azul leva a qualquer coisa que nele se projete em forma, conteúdo e ação. Será por isso que estamos, eu e a humanidade, em perpétua espera pelo novo? Será por isso que facilmente nos entendiamos, e inventamos novas formas para velhos conteúdos, tanto quanto novos conteúdos para velhas formas?

Penso que seria mais triste se eu nunca houvesse entristecido. Meus dramas me fecundam tanto quanto me esterilizam. Ou mais. A tristeza pode levar ao crescimento interior, como o aprendizado que se inicia com dor, a uma sólida alegria, como a natureza, a algum tipo de Deus. Minha melancolia eu alimento continuamente com a força das minhas imperfeições e autocríticas. Sofrer é se burilar tanto quanto se destruir. Ou mais. O espaço que a desgraça ocupa em mim é o da lágrima que se cristaliza na memória, a partir do qual a estrutura ocular faz refletir as emoções mais intensas. Será por isso que estamos, eu e a humanidade, em busca quase sempre de vibrantes emoções? Será por isso que rejeitamos com muita freqüência a atmosfera morna dos sentires, e inventamos amplitudes diferentes para uma mesma sensação, tanto quanto multiplicamos sensações de mesma amplitude?

Não sei, eu não sei. E esse não saber é que me inaugura.

Saciai-vos:



Sexta-feira, Julho 29, 2005




Olhou as mãos em concha e viu arredondar-se
um sonho dentro delas - um mundo
que ninguém podia adivinhar, pois dele
fariam também parte os magos e os profetas.
Maria do Rosário Pedreira


Disse adeus a um medo. Na despedida, tantos outros foram embora! Agora, com eles longe, fico sem saber se a passagem era de ida e volta. Mas que me importa, por ora? Cresci em segundos, ali, na plataforma da vida, embarcando os temores. Mergulhei na leveza de me desprender, salgando e azulando os sentidos. Como se tudo a partir de então fosse possível, mesmo não sendo. Certa inocência vi recuperada, reconduzida ao encanto de ignorar com sabedoria. Depois de séculos, livre, livre de novo...! Os mais chatos me dirão: "mas tal fato só pôde se dar porque é a resultância de um processo". E eu não sei, Doutor Racional? Só que me refiro ao aspecto mágico de uma conquista. Acordar no meio da noite, com a surpresa da paz, vinda não sei de onde, ciente de que tudo o que se tem é a momentânea existência (ainda que a reconfortemos com futuros ou passados gloriosos, ainda que a fustiguemos com esses mesmos pré e pós). E se alegrar com o nada que é a vida, senão sua recriação constante. Dia após dia, dor após dor, alegria depois de alegria. Olhar com bons olhos a marcha incessante de um incógnito tempo. Não temer tanto perdas, solidões; entregando-se apenas à brisa que sopra o presente, no máximo torcendo para que haja sorriso no próximo desjejum. Quem sabe três novas alegrias no almoço? Mas vem pra cá, brincar de montar o destino não é tão legal quanto aprender uma nova lição! Veja só, olhe como é que se faz. Não gosta? Ah, deve haver outras formas de se fazer. Não há? Invente-as, pois. Melhor reencarnar várias vezes numa mesma vida do que esperar que a Divina Providência o faça. Liberte o que há para viver, com coragem, parindo novas possibilidades. Só não dê nome, sobrenome, e uma única função para o existir. A vida tem muito mais sabor quando é ainda só barro e menino.

Saciai-vos:



Domingo, Julho 24, 2005


[ Por e-mail, ao coração ]

De repente uma saudade. De nossas palavras, outrora confessadas, de uma compreensão mútua das sutilezas que nos permeiam, e que nos movem num mesmo sentido - para dentro; de uma percepção intimista da vida, que sempre me emocionou, mas que infelizmente não impediu meu afastamento (de nenhuma maneira intencional, porém inevitável), dadas as fortes correntezas de meus desnorteios. Mas eu sempre volto para a costa segura de nossas confissões (líricas e loucas!). Não volto? Morrendo de sede, de saudade, de não saber por que, entre confusa e grata, no que antecede a dor, o medo, o mergulho abismal em mim. Resta, entretanto, aprender como que se faz para voltar à superfície, antes da isolada imersão, da ausência plena (ainda que temporária) de perspectivas. Eu sempre retorno, mesmo não partindo inteiramente (e não sabendo como). Em parte presente, em parte ausente, distante das relações objetivas entre comunicantes (não sabes como são impalpáveis as células do meu dizer?!), porém fiel ao ato da enunciação, dando-te pistas de mim, conquanto por palavras que se prestam muito mais à poesia das palavras que a qualquer outra coisa. Embora sumidiça, sou inegavelmente parte destes mares. De repente uma certeza. A de que isso tudo não termina, de que se fortalece, em reencontros eternos, em despedidas infindas.

Saciai-vos:



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