Terça-feira, Junho 21, 2005
Guerra de Guarda-Cores
Ontem, insinuava-se o frio. Hoje, o ventilador já não venta, desnecessário se tornou. Mas hoje não é só o frio. É a chuva, das que acordam a madrugada, invadem o dia, não descansam à tarde, e com sorte cessam quando a noite vem; desabrida, negra, como toda noite é. Por não ser tão desabrida, hoje calou-se em mim o que ontem eu também não disse. Não obstante tanta água, segue o seco por dentro, e eu torço para que não seja no peito - quero vê-lo escorrendo sentimentos de menina assustada. Hoje, eu vi guerra de guarda-chuvas na rua, que na chuva, guardam cores. A mulher empunhou o seu como se empunha uma espada, e pra servir de escudo, eu disse "Oi". Também carregava minha arma sobre a cabeça, com medo de cegar os passantes, e pensando nisso, achei que eu era louca. Meu maior temor era de o sono vir e eu não saber como nem por quê. Porque às vezes eu não sei, num milésimo de segundo minha consciência passeia. O medo era de eu ir e não voltar a tempo pra prova. E dizem que é branco que dá na gente, que é lapso. Mas pra mim é vertigem de vida no olho. Muito pra ver. Pra pensar. Ou é sono mesmo. Ou stress. Nunca sai de moda. Enquanto eu molhava a barra da calça, ia brincando de malabarista no trajeto pra onde eu ia, rindo-me de me achar no circo, o da vida. E quando chove todo mundo sobe no picadeiro. É menino de um lado pulando poça, é o velho numa manobra arriscada. Pensando nisso, quis um monociclo. Minhas pernas quase me desseguraram, e por pouco, não caí. Se eu não tivesse me lembrado da clássica foto de Bresson, eu caía mesmo. Mas reassumi meu equilíbrio a tempo, pra brincar de ser elegante. E porque hoje eu não podia faltar, nem molhar o papel e o professor de lama. Hoje tive de escrever sobre a moral Aristotélica. Porque eu não podia falar de chuva, de guarda-cores, tampouco falar da guerra de espadas entre senhoras elegantes, empunhando mau-humor. Agora é a segunda condução que eu perco, aqui na estação. Achei por bem descansar depois da prova, depois da guerra que enfrentei, do trânsito que eu só vi, congestionado do Maracanã até não se sabe onde, e do dia a dia de matar. Nesse relato alucinado, eu não mato a fome de almoço mas a de dizer: guarda-chuva, guarda-cores, guarda-menino. E por falar em menino, esse é o quinto que senta ao meu lado, indagando com o olhar: "Cê não pára de pensar escrito, não, moça?". Não, menino, eu só páro se você sorrir.
Saciai-vos:
Domingo, Junho 19, 2005
Solidão à tarde. Acompanho pensamentos num passeio à beira-mar. Da janela, diviso a vizinhança, também solitária em seus hábitos de domingo. Da mente, é maré que vejo, é a boca que eu salgo na brisa deste quase-inverno. Repito lembranças, repito dizeres, sou a mesma na paisagem: a que na infância fez do seu melhor amigo - e pior inimigo - o avô; a que na juventude pôs os pés nas areias das descobertas, e correu de amar nessas praias que não voltam mais, senão na memória; a mulher em fase de duna, subindo desfiladeiros, escalando dores, catando conchas, palavras, pérolas, paixões. Catando caminhos. Hoje os pincéis da saudade redesenharam todas as minhas pegadas nesta praia que para sempre será minha. E cada criança que hoje passeia por aqui, que é protegida pelos seus, ou ameaçada pelos que deveriam amá-la; cada rapariga que anda descalça nestas areias, nua nos pés e nos sentimentos; cada mulher que refaz estas trilhas, permitindo-se um novo mergulho, sou eu, revivida no sol, no vento, nas nuvens que não esquecem dias nublados.
♪ Con el ocaso detenido
♪ el mar es menos que un rumor,
♪ y da paso a cada sonido,
♪ a cada cambio de color.
♪ Me tiré solo hasta las dunas
♪ con la primera oscuridad
♪ a verla andar sobre la espuma,
♪ toda mentira y de verdad...
(J. Drexler)
Saciai-vos:
Sábado, Junho 18, 2005
Fui dormir com a sensação de quem acorda de um sonho, ou de um espanto. A cama me recebeu, como uma mãe que recebe de volta um filho perdido de si mesmo, e que em seu regaço, deixa que repousem o filho, e seus medos. Na mãe-cama, aconcheguei meu desmaio, sono pesado de esgotamento e incompreensão.
A cortina do quarto estava aberta, perturbando o sono, parindo o dia que eu não queria ver. Fechei os olhos. E esse meu gesto não era apenas a resistência do corpo ao dia que nascia, mas um enfrentamento simbólico com a luz que eu via, dentro de mim; capaz de com sua intensidade, ainda não mensurada, clarear meus abismos, ou de me cegar.
Eis minha aflição, ainda agora, passado o maremoto, mas mantido o poder da correnteza. E é por não saber para onde me levam tais águas, a nascente e desembocadura destes rios, que eu estaco, temo, e me arrepio..
Saciai-vos:
Quinta-feira, Junho 16, 2005
Fechando os olhos, assim, eu não durmo,
Fermento idéias,
Dou caldo à intuição.
Surpreendente como no escuro,
No silêncio, no regaço,
Germina-me a vida pensante.
Não me engano, sou semente,
A inveja do vôo,
Sua mental transposição;
Conduzo-me cega, asas na cabeça,
Tudo alcanço, porque tudo vejo,
Com os olhos da criação.
Saciai-vos:
Terça-feira, Junho 14, 2005
Sigo -->. Movida pela impossibilidade de seguir adiante com a rotina. Fissurada nas fissuras, nas interseções de um real emoldurado por desejos que acordam na superfície do papel, sêmen germinado de poesia, feito para o tato e o paladar, para as horas que passam grão a grão na ampulheta da monotonia, dentro de obrigações minúsculas. E um mundo de sensações por descrever, eco do corpo na alma. Medo de acordar do sonho, envolvida pela inspiração de mágicas brisas, que só me rumam de volta pra vida, pra realidade que é essa mesma, a de cada um.
Movida por histórias quiçá nunca vividas, por possibilidades afetivas, por carências muito bem resolvidas pela imaginação. Por buscas mais sentidas que pensadas, por regras violadas porque são regras, pela dor da decepção, alegria da novidade, pela benção temporária de um erro. Vou -->. Pensando em parar de pensar, sentindo o percurso de um outro corpo no meu, medindo a sutileza do primeiro toque, violentamente febril; despida das intenções que não se julga, resolve-se na cama. Ser e não-ser, entrelaçados no faz de conta que ama.
Será então este o rumo? O da busca? Mover-se infatigavelmente pelo corpo, pelo mundo, acertar ao acaso, amar mais por circunstância, optar pelo que já optaram? Que certezas me calarão? Que presentes se me apresentam? Onde o fim e o início? Por que? Por quem? Chegando a quando como quero posso, ao que me faz feliz.
♪ When the wind turns on the shores lies another day
♪ I cannot ask for more...
(Beth Gibbons)
Saciai-vos:

Esta obra está licenciada sob uma Licença
Creative Commons.
Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente em áries. Filha de Marisa e Guilherme, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito...e que faleceu em 1987. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo, que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Vê a vida com cores de sertão. Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros. Ama os pássaros, as borboletas, e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia em que tatuá-la na pele. Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias.Metade dela é corpo, a outra, é palavra. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas. Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de suas finalidades óbvias. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
Arquivos em frente ao mar:
* clique aqui *
Mares virtuais:
diversos-afins
ortografia do olhar
corpoestranho
incediario
meu paredro
palavra e destino
romério rômulo
inscries
baile de mascaras
coffee and dreams
pedaços de pessoa
por quimeras
poesiaquemdiria
alexandre beanes
teofilo tostes
agrestino
curvas concretos quadris
solta no mundo
ipsislitteris
líria porto
nectar da flor
diários de uma educadora
douxdiabolique
doca soares
literatus
tempos breves
fina flor
doida de marluquices
quase poema
lemniscata
volperine
nadas e noves
a menina no espelho
flor no deserto
do que fica
resto de mim
Também estou aqui:
atalhospraalma
betamania.multiply
betamania.blog-se
beta-mania.blogger
E-mail

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.
