Segunda-feira, Maio 23, 2005


Nem toda noite
precisa ser triste;

Nem toda solidão,
desacompanhada;

Nem todo céu
é faminto de estrelas;

Nem toda nuvem
quer dizer
chuva.

Corrida
pode ser
lenta;

Vôo
pode ser
mergulho;

Boca
pode
o beijo.

Sorrir
é também não saber
para quem;

Ser feliz
é também não saber
como;

Amar
é não saber
quanto.

Saciai-vos:



Domingo, Maio 22, 2005


Retornar à disciplina menos por gosto do que necessidade. É o que faço neste instante, debruçada em livros, em objetivos, em sonhos, que não sei bem se os meus. Tampouco sei se a realidade é a sonhada. A mania de brincar com retornos, sei que é minha, pois sempre administrei inconstância e dever. Leve ou densamente pressionada pela vida, é como quase sempre me encontro. À vida eu suplico apenas: traga-me felicidade, e algum êxito, se merecimento houver. Por enquanto, é diminuta a empreitada, por ser ainda menor a dona dela. Modesta e fundamental a conduta dos primeiros anos. O que faço parece tão pouco e tanto! Porque é tudo o que tenho e ainda sei: mais vontade que experiência. Desejos, ou um desgosto profundo. Por isso não me cabe vacilo; ou a consciência, mais que o futuro, vingar-se-á depois, também no prazer. Respondo como posso, sendo ou tentando eficiência. Anseio por quando a disciplina facultar-me-á mais que imediatos resultados: caminhos. Mais que regras temporais de conduta: aprendizados, perspectivas, e amadurecimento - também novos olhares, para uma vitalização constante. Então me perco nestes papéis, nestas promessas, na esperança de que um dia eu me ache, de que um dia encontre, de que me recompense. Eu ou a vida, ou ambos. O que faço não é bem adiar o deleite em virtude da necessidade, mas em parte não deixa de ser isso. Talvez porque toda troca seja um pouco injusta, quando o julgamento se depõe sobre o agora. Acho que mais próximos são os verbos investir e acreditar; não é isso o que fazemos todos os dias? Descobrimos vocações, optamos por ideais e trajetórias, moldamos e aprimoramos nossos gostos. Não necessariamente nessa ordem. Dizem - e torço para que seja verdade - que com sorte e alguma disciplina, chegamos a lugar que se assemelha onde gostaríamos de estar. Mas se hoje quero estar num lugar, amanhã posso querer estar em outro. Sob esse prisma, toda conquista é provisória, porque se o desejo nos move, também nos tira o rumo. O desejo que eu gostaria de eternizar é o que recompensa e justifica os esforços, mas sobretudo aquele que conserva nosso espanto e o nosso potencial de renovação.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Maio 09, 2005


A vontade de vontades faz labirintos em mim. Passeio por quereres, recuperando desejos, criando sensações. Razão e absurdos me explicam. Não distingo "quero!" de "não quero!". O que eu busco não é aquilo que eu busco. Sorrio, se sou lágrima, aparto o riso, se estou em festa. Pra depois rir de novo, embolada à alegria, e chorar, pedindo perdão à tristeza. Vir a ser é a minha obra.

Saciai-vos:



Domingo, Maio 08, 2005

Daise é o tipo de pessoa que sempre tem algo a nos oferecer. Daquelas que alegram e embelezam nosso dia. Quando tenho a oportunidade de ler algo escrito por ela, ou ver uma foto sua, fico grata. Pela beleza que evoca, pela sensibilidade e também pelo jeito afável. Se intimidade nos falta, a mim sobra a recompensa do carinho e da admiração.

Em seu blog, a menina Daise participou de uma interessante brincadeira, e coube - também a mim - dar prosseguimento a ela. Não é nada fácil responder a essas questões, justamente porque muitas poderiam ser as respostas, as combinações de livros e autores queridos. Mas, levando-se em conta a inviabilidade de uma brincadeira sem fim, arrolei alguns nomes de livros - e de personagens - que muito me emocionaram, e mudaram minha vida, por que não dizer?

E estou só no começo! Há tanto o que ler, descobrir! Por causa dessa ansiedade, tenho consciência, é que li tão pouco até hoje. Contudo, paulatinamente, vou aprendendo a fruir, e a extrair lições de cada página. Sem pressa, mas com a fiel e arrebatadora perseverança dos apaixonados.

...

Não podendo sair do Fahrenheit 451, que livro quererias ser?
O "Livro do Desassossego", do Fernando Pessoa.

Já alguma vez ficaste apanhadinha(o) por um personagem de ficção?
Muitas vezes, para não dizer todas, rs. Terminar um livro é sempre doído, mas muito bom; dá uma certa tristeza, pois é preciso despedir-se dos personagens, dos parágrafos, da história.. Mas quão bom é ver que se cresceu mais um pouco, que se descobriu algo mais a respeito do mundo e de nós mesmos! A Joana de Clarice Lispector, em "Perto do Coração Selvagem", desnudou-me inteiramente, dando-me muita dor de cabeça, mas também muito prazer, rs. Ela soube explicar muito do que eu era para mim, e por isso sou grata. Bernardo Soares do "Livro do Desassossego" - Fernando Pessoa - me reiventou. Numa fase em que eu precisava ser reinventada. Será minha eterna referência. Contudo, a Ana de "Lavoura Arcaica", do Raduan Nassar, é a minha musa maior, pelo potencial de loucura e de amor que ela é capaz de despertar no que ficou em mim do André.

Qual foi o último livro que compraste?
"Poemas Reunidos", do Dylan Thomas. Sua força expressiva é algo que assombra. Monumental!

Qual o último livro que leste?
"Ensaio sobre a Cegueira" - Saramago
"Poemas Escolhidos" - Sophia de Melo Breyner Andresen

Que livros estás a ler?
"Fragmentos de um Discurso Amoroso" - Roland Barthes
"Amor Poesia Sabedoria" - Edgar Morin
"Poemas Reunidos" - Dylan Thomas
"Poesia Completa" - Rimbaud
"Lolita" - Vladimir Nabokov
"Aprendendo a Viver" - Clarice Lispector

Que livros (5) levarias para uma ilha deserta?
"Lavoura Arcaica" - Raduan Nassar
"A Insustentável Leveza do Ser" - Milan Kundera
"Ensaio Sobre a Cegueira" - José Saramago
"Ovo Apunhalado" - Caio Fernando Abreu
"Felicidade Clandestina" - Clarice Lispector

A quem vais passar este testemunho (três pessoas) e por quê?
Escolho 5 pessoas que muito admiro. Admiro o que são, o que escrevem, e o gosto literário de cada uma delas.

Renata - Refragmentos
Daiane - Mistérios do Sem Fim
Tekka - Strange-Fruit
Bruna - Verde-Água
Marcela - Um Casebre de Prata

...

Quem mais quiser participar, esteja à vontade! :) Continue também brincadeira em seu blog.

Saciai-vos:



Sexta-feira, Maio 06, 2005


Exames. Exames médicos, acadêmicos. Uma ultrassonografia pélvica, uma prova de Estatística. A semana começa com números: Médias, Medianas, Desvio Padrão. Calculo a raiz dos meus cabelos. Multiplico Maquiavel. Somo Aristóteles. Subtraio professores picaretas. Sou igual a todo mundo. Elevo meu X ao quadrado (pra ver se ganho energia). Energéia, Dynamis. Potência e Forma. Sou Potência. A Potência é renovada pelo Ato. Potência é pura passividade. Aristóteles me diz que sou pura passividade. Espero pelo Ato da minha vida. Espero o sol vir. A semana avança. Cibernética, ruído. Animais simbólicos. Momoko Watanabe. "Momoko o que?"; "E por que veio para o Brasil?"; "Um dia quero aprender Japonês"; "Me diz como é no Japão?". Piso na quinta-feira, na cama. Pisoteio meu sono. Caio de pará-quedas na vida. Aceito o estágio na Web Rádio/UERJ. Aceito o que você quiser. De manhã vou pro metrô. Enquanto bocejo, uma mulher se joga ou cai nos trilhos. "Não sei o que aconteceu, meu senhor. Eu não vi". Mulher, trilhos... Ana Karenina? Vou embora com a dúvida. Vou de ônibus. Em sala o tema é: "a mulher nunca se organizou em confrarias, em organizações secretas"; "a sociedade atribuiu a mulher a função de ser vista, e ao homem, de ver". Mais adiante: "o imaginário tem cara de sedução"; "o simbólico é arbitrário". E o destino, é arbitrário? Mulher, trilhos. Ana Karenina. "Então segunda-feira a gente se vê". Na segunda, Ana Karenina vai ver? Atendo o celular. Atendo ao chamado do sono. Volto de metrô. Mulher, trilhos. Morta de cansada. Fim-de-semana. Fim de linha. Ponto final.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Maio 04, 2005


Semana tão corrida! A próxima promete o mesmo ritmo. O cotidiano, que ora alivia, ora traz ansiedade, tem me deixado um tanto distante de mim, de minhas (suspeitadas) buscas, e de tudo por aqui. Busco uma terceira via, um ponto de equilíbrio, onde possa conciliar a vida de dentro, dada à introspecção, com a de fora, dada ao frenesi. Mas minha terra está minada. Quando a explosão não me enterra, joga-me a quilômetros do objetivo. E fico tendo de voltar... e voltar... ao que já não é mais partida.

......

Mesmo com o nada feito, com a sala escura
Com um nó no peito, com a cara dura
Não tem mais jeito, a gente não tem cura
Mesmo com o todavia, com todo dia
Com todo ia, todo não ia
A gente vai levando, a gente vai levando, a gente vai levando...


(Chico Buarque)

......

Saciai-vos:



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