Terça-feira, Abril 19, 2005


Por que?

E o que me marca no dia hoje, mais que a força da violência, é o peso de tantas perguntas.



Há dias mais marcantes que outros, e a obviedade dessa minha afirmação prescinde maiores explicações. Todo mundo sabe disso por instinto e memória. Um dia alegre é sentido na pele, no coração, na boca, pela quantidade de risos que se deu, de silêncios compartilhados, de tímidas ou efusas demonstrações de felicidade. Há dias que marcam mais, e pronto. Às vezes pela tristeza, pela surpresa impactante, pelo potencial que um único fato pode ter de nos fazer voltar, em perspectiva, uma vida inteira.

Hoje, ao ser assaltada (pela 1ª vez - coisa rara, me dirão alguns), ao levarem minha câmera, eu reagi, para minha surpresa. Costumam dizer que nunca sabemos qual será nossa reação nesses episódios, e é verdade. Eu nunca supunha ter a reação que tive: enfrentar o perigo, mesmo sabendo que enfrentá-lo é que é mais perigoso. Por sorte, nada me aconteceu. Mas digo por sorte, ou por um conjunto de fatores outros que desconheço, mas que talvez tenham uma causa não propriamente racional, muito menos material, ou lógica. Mas não me cabe falar de destinos, de metafísicas, ou mesmo de crenças religiosas, embora recorramos a todas elas - ou à nossa descrença, se for o caso - para tentar entender o que nos acontece. Também não mensurei que pudesse, a despeito de tal agressão, manter-me tão serena, até mais humana, quase.

Digo mais humana porque muitas vezes nos fechamos em nosso viver hedonista, circunscritos que ficamos aos nossos desejos, à vida que levamos, e que para nós, por ser tudo o que temos, em parte limita o mais que poderíamos ser, ou mesmo ter, no que diz respeito às experiências que viríamos a acumular. Quando nada interfere, também pouca coisa muda. Quando só há ruídos, o silêncio não é um dado de realidade, porque já está tão internalizado em nós, que apenas o barulho aparenta ter força de verdade. Por sua vez, a violência, de mim felizmente sempre tão longe, hoje se fez presente, e por mais que me considerasse sensível as muitas dores que não testemunhei, mas me solidarizei, foi ela quem me trouxe mais para dentro de algo que não sei bem se é a realidade, talvez sua face enferma, talvez o sintoma de um mal que já carregue há tanto tempo, ou desde sempre; e que nos choca, pelo descaso, pela impunidade, mas muito mais pelos limites já atingidos.

Porque se pensarmos bem, vamos nos questinar, surpreendidos, indagando de que maneira ainda é possível conviver com tantas contradições, tão típicas, em nossa sociedade, cujos conflitos seculares aparecem mascarados, escamoteados; não entenderemos de que maneira uma pátria como esta, com todas as privações e injustiças, a que sempre estivemos sujeitos, ainda sobrevive. Será por permissividade, pelo viver hedonista, por individualismo, ou porque conflitos sociais existirão onde haja homens?

E o que me marca no dia hoje, mais que a força da violência, é o peso de tantas perguntas. Não creio respondê-las, por intuição, talvez, ou por esperança. Porque meu olhar vê beleza mesmo quando não quer, porque meus olhos querem. Simplesmente. Minha alma toda quer. A poesia me traz realidades, senão respostas, alternativas à realidade pungente. Minha natureza é de tal modo ordenada por esses belos artifícios que a linguagem me proporciona, que sobre agora poderia dizer assim: "sangrei uma página de perguntas e confissões".

Metaforizei-me para existir. É isso. E entre tantos marcos, veio-me também aquele que perpassa uma amizade. Guardo meus amigos com carinho, e agradeço aqueles que estavam comigo, guardo neste texto a lágrima que eles quase verteram, perante a violência que testemunharam, mas não me abandono de perguntar: "Por que?".

Saciai-vos:



Segunda-feira, Abril 18, 2005


Intuía que a felicidade era saber-se no mundo, reconhecendo-se nele - em algum ponto, ou em todos. Não seria a transcendência religiosa quem lhe arrumaria os argumentos da vida, mas a compreensão de um Deus íntimo, oriundo das próprias entranhas, das células, e da temperatura de seu corpo. A felicidade - entendia, não adviria do amor romântico, somente, mas do seu amor, por si mesma e pelo seu entorno; do seu horror, natural e fecundo - que também é amor. No ponto em que ela e seu medo se apaziguassem com o medo da vida, com sua cota de-razão-e-de-loucura-e-de-espanto, haveria espaço pra ela na existência. Enfim, não temendo mais a aventura da vida, haveria lugar para a ventura de viver...

Saciai-vos:






O sorriso é a notícia dos olhos
que publicam esperanças.

Liberdade é o jeito dos olhos
de dizer prazer,
dizer alma.

O prazer que escapa dos olhos,
intensifica o gozo das retinas.

[ Porque infinda é a luz que inaugura dentes
nas encostas de marfim.. ]


Saciai-vos:



Terça-feira, Abril 12, 2005


Saboreio incertezas, é quando rompo nos olhos mais uma contradição. Quero e não quero estabilidades. Convenço-me de querer mais; ateio fogo no mistério do que sou. Sei o quanto nada vale, ser antítese é uma convicção pessoal. Vocação é o nome que dou ao meu desejo de palavra. Minha alma anda armada de beijos, é por isso que eu sei rostos, mas me esqueço de nomes. Deduzo que minha distração é uma forma de resistência. Em mim, toda eloqüência faz miniaturas. A intensidade de minha natureza, é, portanto, de uma desmesura minimalista. Minha vontade de vôo é porque sonho com liberdades e desvios criativos. Testemunho instintos nas palavras, então confesso: sou desejo de infância crescida, que se refrea, brinquedo nas mãos do desejo, que se liberta. Sou criança sacudida pela vida. Busco plenitudes, medida exata de utopias.

(Sou ré confessa do Amor).

Saciai-vos:



Segunda-feira, Abril 11, 2005


Quando se está perdido, muito do que de melhor somos, anula-se, ainda que temporariamente. É porque grande parte de nossas matemáticas emocionais deixa de preencher a soma dos nossos risos, subtraídos que estão de algum elemento essencial: um amor - infelizmente não correspondido; um sonho - ameaçado de opostas realidades; uma promessa - em vias de não concretização. Nestes períodos, vislumbro a freqüência das cores com a mesma eficácia de um cão cego. Sou disciplicente com o prazer, mesquinha com o riso; prezo o cinza que neutraliza meus azuis, manchando-me de nadas e borriscos incógnitos. Quando toda a falta de norte (e de graça) dá ares de não ter mais fim, trabalho a ventania íntima, só pra que haja dança de cabelos.. e esperança de música. Com alguma sorte, volto da aventura inspirada de brisas, porque mergulho na essência dos furacões, que são meus instintos traduzidos em alma. Acontece então de toda dor sentida arrefecer; de a mágoa virar perdão, perfume; e de o presente embrulhado pra amor, desfolhar-se amizade.. Com compreensão de mais e sincero afeto pro futuro, que não tarda a chegar. Quase como uma alegria.

(Por essas e outras é que digo que sou grata à poesia, porque ela é minha recorrente redenção).

Saciai-vos:



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