Segunda-feira, Fevereiro 14, 2005


A beleza do 'didentro'

A diferença entre nada e alguma coisa está na força com que se duvida. A semelhança entre tudo e coisa alguma está na força com que se acredita. Os cegos do castelo são também surdos de nascença. E tudo o que não se pode dizer ou fazer por eles, pode-se dizer ou fazer por outro alguém. Desencastelar a dor, por exemplo. Se tu podes, então desencastela, desagrilhoa, liberta as pequenas serventias. Se possuíres uma inalterável rota, então te retira destas letras! A conversa não chegou na razão. Agora, se temes, se te escapam razões avulsas, se tanto faz renovares a melancolia de dentro, ou rires em festejos de fora, se ambas as sentenças equilibram a contradição da alegria, ou da tristeza que emblema, se encontras significados fortuitos em certezas permanentes, e perenidades em inopinados eventos, teu lugar é aqui, ao meu lado, na minha semente, no pântano de que chafurdo ascensões, nos meus sacrifícios. O amor incondicional por certas certezas também sofre de exaustão. O amor também sofre, já se sabe e não é de hoje. Nos instintos encontro a confissão do corpo. Mas onde a confissão da alma? Nos sentimentos? Sentimentos... que são? Certezas suspiradas? Selvas divinais? Ilusões de arlequim? Serão junções? Ou disjunções? A alegria é a pena de morte da dor, ou falcão e lobo, breve 'até mais' de claro-escuros que se quase tocam no Feitiço de Áquila? Pôr-se em diálogo com o mundo. Mergulhando naquilo que se crê mundo, ou fugindo dele. São opções. Se sustentáveis eu não sei. Tem o mundo do de dentro. Isso eu sei. O amor em primeira pessoa é o mundo de dentro, a dor vem de dentro, mesmo que possa ser vista de fora. Outras conexões eu não faço mais, porque hoje estou dentro. Então viver é assim, eu creio: involuntário como doer... Se nos quiséssemos mais! Criando-nos, recriando-nos, dando-nos de comer. Se nos permitíssemos mais expansões, mais extinções, como na natureza. Como nas certezas de incertezas, como nos furacões. Não me refiro só ao instinto. Nem só aos sentimentos. Isso já fazemos. Refiro-me a uma concessão mais plena de certas camadas em nós, a uma celebração, a uma visitação ao inominado que somos, à coisa sem forma, ao primeiro amor para conosco, que beira ao rito, à sobrevivência. Pertencimento-espécie, animismo, predisposição existencialista, talvez. Me refiro a um valer-se penetrado de inspirações! Profundo. De si para si. Sem doutrinas, sem gritos de socorro, sem salvação, sem santos, sem Arca de Noé, sem pecado, sem recompensa, sem clemência, sem certeza de retorno. Êxtase-ausência. Espreme a beleza do de dentro e saberás! Com a batata do almoço, com a carne crua da alma. Depois frita, apura esse molho com as especiarias do olhar! Que é tempo ardido esse, que é momento de fervura. Por último, serve esta bandeja rica, de mistério, de suculenta vida, e oferece à fome do mundo.. que não há de serem somente teus, meu caro, os banquetes e as belezas a te ofertarem respostas ou incompreensões.

Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:



Terça-feira, Fevereiro 01, 2005


Um improvável, porém feliz reencontro, fez-me, então, pousar os olhos sobre a ferida. Entre frases tais: "agora a vida segue outro rumo e a história não nos pertence mais", ou: "acho que a vida nos engoliu e nos mostrou que o tempo realmente não pára e não poupa nada", eu acedi a tudo aquilo que um dia, imprimiu-me dor. Apaziguei-me. Eu, que vivi o sertão por dentro, e achei que não mais fosse pisar numa terra úmida, cheirando a brisa, sofri; só até que os sentidos se aclarassem de novo, e o mar da vida reabrisse, só até que eu voltasse a navegar, outra e mesma, nas águas de mim!

Deixa eu falar desse reencontro, que é também uma despedida, daquilo que por ocasião remota, ainda fustigasse o meu ser. Cirandaram o pó das ampulhetas, para que eu pudesse, por anacronismo, reviver dias que já me deram adeus, amores que dobraram esquinas de ruas que não existem mais, ou ganharam outros nomes.

Deixa eu contar da insuspeita satisfação de saber-lhe filhos, cabelos brancos. E ver correr o tempo, e ver doer a vida. Em saudade pressentida, nem por isso, transformada em cobiça. Lembranças!, coleções que não se veste, contempla-se. Admira-se no particípio: doído, sentido.. redimido!

Acalentei no ventro estéril para revivências, os fluxos da última seminação. Refervi o sumo dos novos tempos, com o líquido do ontem, para que houvesse herança nas memórias do broto, recém-colhidas; para que a história de um momento novo ganhasse realce, e para que a tristeza, com o destempero do seu dissabor, nunca adulterasse pro amargo, o paladar dos sonhos que eu ainda viesse a ter.

Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:



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