Segunda-feira, Janeiro 31, 2005
Emotional landscapes*
Ouço Björk no volume máximo permitido por minhas caixas de som, do som que é amplificado no corpo, e no computador. Ela "Joga" harmonias dentro de mim, gritando agudos que me fazem paz. Porque me emociona esta música, como quando quase tudo me emocionava e me inspirava. Enquanto ela canta: "I feel emotional landscapes", eu escapo, eu sinto, roço paisagens emocionais, enfrento as armadilhas que me privariam de escrever pensamentos, como antes. Eis a hora em que se ensaia a liberdade e se grita pela expressão, como se eu precisasse de todos os meus exageros para me conter, de todos os meus dramas e dicotomias. Como se eu precisasse. De cada uma de minhas confusões para me entender, de toda a renovação dos meus absurdos, dos meus atalhos pra alma, que ora são gritos, ora são odes, ora são carinhos mudos da vontade, da potência, do espírito em chamas. Há muito ele não me arde, e é por isso que me secam as palavras, embaçam-me os sentidos, arranha-me a voz, que só quer ninar sonhos, que quer se enganar de medos e desejos, que faz de você, o meu alvo, sem o saber.
Fujo dos mesmos egos, e é por isso que eu vou, volto, degredada de mim, entregue ao mundo. Eu não crio, pairo. Eu não falo, confesso. Sou brinquedo das manhãs, das mesmas novidades de cada dia, mas sempre frescas como a primeira brisa da alvorada. Convido poucos para cearem comigo. Serem fiéis na delicadeza densa. Apossarem-se de mim, me acordarem sinfonias, cânticos de emergência e paixão. Deixem-me delirar, é o que peço. Ser cotidiana, chinfrim, laica ou eclesiástica. Deixem-me fazer um atalho de minh'alma, abertura para que o sol escorra os raios que a última febre me negou.
*trecho da música "Joga" [ Björk ] ♪
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:
Terça-feira, Janeiro 18, 2005
Este blog permanecerá em suspenso, enquanto as entressafras durarem. Meu silêncio é mondadeiro, e pressente que é tempo de plantio. Novos elementos combinam-se em minha raiz. Há silêncio no mato das palavras, que por ora assumem estado de semente. Minhas mãos repensam o lavradio, ao passo que eu busco saber de que sou feita, que seivas me alimentam, e qual o sol de minha resistência. Enquanto houver hiato, vocês encontram-me neste endereço: www.fotolog.net/betamania. Quem quiser ou precisar trocar quaisquer palavras, mas for acanhado de deixar recado por lá, mande-me um e-mail. Eu deixo um abraço.
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:
Quarta-feira, Janeiro 12, 2005
EU ME APROFUNDEI MAS NÃO ACREDITO EM MIM. PORQUE MEU PENSAMENTO É INVENTADO. (Clarice Lispector)
Eu me ocupo das pequenas sensações. Andar de rua em rua procurando a criança suja que me rouba no sinal, carregar nos olhos a poeira daquela criança. Pegar um ônibus em que a trocadora me diz o olá mais doce da minha vida. Empurro a memória coração adentro, ardendo, pulsando no batimento de ser. Quando eu saio de casa para ver os olhos dos outros, eu vejo a mim mesma. Carrego um sem número de idéias e eus retirados de sombras interiores, desejos possuídos, emoções que me adestram na loucura do pensar. Eu penso, penso, penso! Penso que penso. Sou um elefante de circo. Só que magro. Desengonçado. Não caibo em lugar algum. Cansada de repetir noite após noite o mesmo ritual que o domador de cérebros, esse Deus das sensações, imputou-me ao pensar, eu virei uma mente num corpo. Esguio de uma tristeza longínqua e profunda. Eu penso a respiração. Eu penso o piscar dos olhos. Eu penso o toque, o beijo. Eu penso o que como. Penso e mastigo. Rumino a batata, a infância, e o amor. Eu olho para dentro dos meus olhos e vejo um castanho velho, uma retina de história não vivida. Lanço a semente ao orvalho da única flor que em mim germinou: a poesia! Acaricio a terra do meu corpo, procurando algum vestígio de mim. Eis que encontro um soneto e uma rima de umbigo. Despetalo o lírio inútil pousado nas linhas das minhas mãos. Palavra de um gesto que se calou. Torneira inquieta escorrendo mentiras, mentiras e ilusões. O afastamento e a sobrevivência. Pensar-se só para sempre. Não querer ser dois já sendo infinita. Subir na árvore mais frondosa que a minha covardia permitiu ousar. Daqui de cima eu vejo o alto da sensação. Ando mesmo achando que as minhas pequenas sensações são de uma covardia que quase me alegram. Porque eu sou o medo, eu sou a dúvida, e toda espécie de deliberação. Quando saio de casa para ver a mim mesma nos olhos tristes do outro, diviso o mendigo que disputa comigo uma existência no mundo. Eu também me refestelo da indigência que aquela alma angariou pra si. Sujo minha vida com a limpeza do meu ego. Com a minha ternura. Com o doce do meu mel. Enquanto que a criança suja do sinal disputa comigo uma existência no mundo. É de uma feiúra das mais belas que já vi! Não traz amargores ou dúvidas. Não se decepciona. Porque já não sonha mais. Será que um dia chegou a sonhar, como eu? Será que um dia ela já se vendeu? O que será que ela pensa quando me olha assim? Quando me machuca e me rouba assim? Por que me olha com um olhar divino e abençoado? Por que não me julga e não teme? Me recorta, me despedaça. Me lava na sujeira do seu olhar. Me destila do veneno da vida, decrépita, sem o veneno de que se imerge. É feia, é pura, é a coisa mais intensamente verdadeira que já vi. A feiúra daquela criança. A sujeira do seu olhar. O veneno da vida. A tristeza e a alegria de sonhar. Desistir, por fim. Resistir? Se for capaz. Aquela criança ensaia o recomeço do meu fim. Me sorri e me afaga. Mas me rouba o tênis, o relógio...e o coração.

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Quinta-feira, Janeiro 06, 2005
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Sabe qual a minha vontade? Tomar um sorvete com você, numa rua bem bonita, pode ser uma praça! A gente senta num banco qualquer, deixo-a escolher o banco, porque, afinal, você parece ter uma boa visão para imagens e uns ângulos bem bacanas - além do que, eu sou míope, posso querer sentar num tronco de árvore, pensando ser banco! Quem sabe dali, de onde estamos, eu não encontre um poema? Ou um poema encontre a gente? Quem sabe a cena das crianças brincando, abram as portas da intimidade ainda entreaberta, tão acanhada, e feche possíveis lacunas da timidez? Enquanto tudo isso acontece, vemos as crianças se arriscando naqueles brinquedos antigos que eu adorava brincar quando era criança, e quando sabia como era brincar em praças (como são mesmo os nomes daqueles brinquedos? gangorra? balanço? escorrega?). E, então, arriscaríamos nós um papo: um "oi, tudo bem?" - simples assim, ou "olá, essa borboleta é sua?" - quando a vontade de dizer sonho fosse maior. Valeria também: "você vem sempre aqui?", seguido da risada óbvia pela certeza do clichê. Eu poderia dizer: "toque aquela canção, aquela que eu ainda não sei qual é, mas que tocada por ti, certamente tocará em mim". Palavras confusas da emoção e do burburinho de risos infantis maiores do que a gente. O sorvete seria devorado sem pressa, embora eu não saiba como se devore algo sem pressa, mas sei que passaríamos alguns minutos a desfrutar do sabor da convivência uma da outra, do afeto cúmplice que escorrega por entre sentimentos no banco de areia, onde crianças arteiras depositam bundas e cotovelos ralados. Com um gosto marcante - que poderia ser um beijo - mais marcante que o sabor de creme no sorvete, voltaríamos para casa, lembrando que crianças, em seus brinquedos de praça, são metáforas de adultos da vida contemporânea, arriscando saltos de vida e morte, balançando a vida, vivendo a vida, brincando de tentar felicidade. E então, FINALMENTE, a vida que sorriu o dia inteiro o sol sobre nossas cabeças, desenharia nos olhos, a saudade; na pele, melanina; e no corpo inteiro a satisfação do carinho dividido. Como uma dança, diviria com vc meus passos e meus abraços. Daria até um soninho, que poderia ou não ser sonhado, porque o sonho, por ora, teria sido vivido.
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Quarta-feira, Janeiro 05, 2005
O cenário da minha vida começa a ganhar novos ares, diretrizes de movimento. É o primeiro de um longo ato; aberto, paulatino, embora eu sinta a navalha fina da dor de coisa consumida pelo medo do ontem, mesclada ao desgaste prévio que é a coragem do hoje. Mas é de uma coragem robusta a minha (ou quase). Eu reparei que o vento sopra diferente quando a gente plaina só com a imaginação. A altitude das realizações faz toda a diferença, mesmo que não se queira medir tudo a partir do nível do mar. Na hora de contar a história, tem gente que começa pelo meio dela. E dá certo. Mas na hora de vivê-la, não há jeito, existe um ponto de partida, que é sempre a transição do que existia antes para o que começa a existir depois. E tem meios materiais essa transição. Muita gente prefere alinhar o parlamento íntimo ao status quo. É uma opção razoável, claro, sobretudo quando se é permitido optar por alguma coisa nessa vida. Mas há um establishment aqui dentro que não se alinha a nada, que guerreia o tempo todo com a heterogenia do de dentro, que brinca com qualquer mecanismo auto-sustentável e que nunca referenda a palavra eterno. Há caminhos demais nesse mundo para que algum pregoeiro soturno anuncie uma forma que se aplique a todas as formas. Aceitar uma única norma é normatizar a norma, fazer de uma possibilidade, todas as possibilidades. É dormir com a falsa sensação de ter feito a escolha certa, fazer da vulnerabilidade a que as oscilações da vida nos submetem, um álibi perpétuo para nossa própria inflexibilidade. Vestir um padrão como se veste uma roupa, na pressa de ter de escolher a combinação mais perfeita, é correr o risco de sair de casa tão esbaforido pela vaidade que, quando finalmente se chega ao local pretendido, nota-se que a melhor vestimenta, tão rigorosamente selecionada, para nada serve, pois está rasgada. Ou ainda, é correr o risco de aparecer de terno e gravata numa festa à fantasia. Acreditar numa resposta só, para a mesma pergunta, pode derrubar as dúvidas, sanar muitas das nossas inseguranças. Só que dormir sem elas, sem as nossas interrogações de cabeceira, é que não é nada seguro. Perde-se a chance de fazer outra pergunta, e assim esvai-se o ensejo de aprender algo novo. Conforto vencido é ação, mesmo que a ação consista em subir dez andares para sentir que se subiu um. Ou se vai de elevador, ou mete-se os pés nas rampas da auto-superação e, crescendo, aprende-se de vez a subir.
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Segunda-feira, Janeiro 03, 2005
Deu hoje no Globo:
Menina de 10 anos salvou 100 pessoas da tsunami
LONDRES - A presença de espírito e os conhecimentos de geografia de Tilly Smith acabou salvando sua família e a vida de outros 100 turistas na praia de Maikhao, em Pukhet, na Tailândia.
Ao ver o rápido recuo da água do mar, a menina de 10 anos alertou seus pais, que avisaram a todos para deixarem a praia. Minutos depois, uma forte onda varria o local, mas sem deixar vítimas. Detalhe: ela havia estudado o fenômeno das tsunamis nas aulas de geografia apenas duas semanas antes da tragédia na Ásia.
Humilde, a pequena heroína deu crédito pelo salvamento ao seu professor:
- O Sr. (Andrew) Kearney nos ensinou sobre terremotos e como eles podem causar tsunamis.
Apesar de ter salvo diversas vidas, Tilly explica tudo com a simplicidade de seus 10 anos:
- Eu estava na praia quando a água começou a ficar engraçada. Tinham bolhas e as ondas sumiram de repente. Eu percebi o que estava acontecendo e achei que era uma tsunami. Aí eu avisei à mamãe - disse.
(...)
E eu fico pensando na força da natureza. Da natureza humana. Na simplicidade da sabedoria, que comunga com os pequenos grandes desafios da vida.
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Sábado, Janeiro 01, 2005
"Tente o que é bom
Permita o que é bom
Descubra o que é bom
Bom pra você..."
Zélia Duncan
O ano terminou flertando com o acaso. Trinta de Dezembro fez questão de me surpreender. E teve música, teve mesa de bar. Teve sino de igreja, acordes de loucura, danças no meio da rua. Trinta de Dezembro foi bebido a vinho e estalou nos risos que fizeram eco, na frouxidão de cerimônias esvaziando copos e preocupações. Degelando o iceberg da vontade cristalizada, já morna, condensada no vapor das bocas que se dizem sim. O centro do RJ no centro sem centro da aventura, dos desejos de felicidade. Foi preciso fazer jus ao acaso que soube planejar tudo isso. Atravessar a Presidente Vargas cantando folias e requebras, sentindo a brisa urbana cheirando a concreto e a perfume barato, vislumbrar os seres da noite que eu nunca veria se não estivesse ali. Depois sentar no meio fio, jogar conversa fora, esperar o ônibus que não viria, e ver amanhecer o não planejado dentro de uma van tão vã quanto as incertezas da hora. Agora era o último dia do ano que eu devorava com sanduíche natural. Natural que fosse divertido. A poeira dos meus pés eu lavei, a alma não. Eu fiz questão de permanecer incensada na utopia, insensata como qualquer utopia, e virar tinta de um quadro de Dali. A manhã foi amena, amada e amável com os sobreviventes. Só pediu água e os braços de um sofá macio. A tv me pareceu ainda mais absurda do que eu. Loiras, programas de auditório e mais um monte de clichês. A tarde foi serelepe até o final, riu, dançou, fez carinho. Entardeceu um pouco da euforia, e houve só risos de olhos, que é a maneira de querer bem e ser grata ao destino. Corri até a rodoviária para me despedir do ano que terminou tão bem. Entreguei a bagagem pra Deus, o grande condutor. Fazendo troça de mim e do destino, voltei pra casa, antes que os fogos da surpresa estourassem na praia os 2005 mistérios do mundo e do coração.
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Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente em áries. Filha de Marisa e Guilherme, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito...e que faleceu em 1987. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo, que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Vê a vida com cores de sertão. Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros. Ama os pássaros, as borboletas, e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia em que tatuá-la na pele. Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias.Metade dela é corpo, a outra, é palavra. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas. Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de suas finalidades óbvias. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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