Terça-feira, Novembro 30, 2004
L e i s
do corpo, da alma, da natureza, da sociedade?
Meia hora fingindo estudo, caneta à mão pinçando os sonhos que a Academia não me exigiu, e eu me pergunto porque é que tenho de refletir sobre a miscigenação, quando não é Varnhagen, mas você o tema das minhas teses emocionais.
"Sentimento novo será sempre primavera, mesmo se o tempo fecha, se chove, se o mar ressaca", é a única conclusão a que posso chegar. E o instinto será também, ora essa. Onde há brotação, há flor, há perfume, há o que se pode ver surgir dúzias de vezes como se surgisse uma primeira vez. É a lei da vida.
Sobre instintos é que, por ora, sou capaz de dissertar. E neles não cabem as normas da ABNT, nenhuma configuração possível ou linha metodológica recomendável. Os prazos que cumpro são com a fome, com a sede, com o devir, com o frio e com o calor.
O que nasce dentro de mim, o que cresce, o que me remexe, atinge-me, assombra-me: um instinto, uma perturbação a mais no corpo ou na alma. E se me chega assim, arranha-me, arrancando, raiz por raiz, a paz, os furacões, soprando terra, pêlo, nuca e capim.
Se brincas de formiga comigo, e afundas meus caminhos nas terras mornas do teu pensamento, se inventas trilhas, carregando as folhas do meu desejo, eu rio, porque sei que o tempo é sábio com as criaturas e com os seus sonhos. Nós é quem muitas vezes nos rebelamos contra regras, decretos, acreditando que pulsões e governos necessariamente se opõem. Queixosos que ficamos, assumimos tão só instintos, e sumimos no mundo, das idéias ou das vivências, como eu, hoje, aqui, nesse minuto escrito e sentido. Mas nós é quem muitas vezes pulamos etapas, queimamos a alma, e nos esquecemos de que também a natureza - e por que não nossos instintos? - regem-nos com a mesma autoridade com que nos regem as leis das mais severas instituições.
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:
Segunda-feira, Novembro 29, 2004
Sinto o silenciar das manhãs frias e consentidas
Onde o carrasco arrasa o herói.
Hoje os azuis escurecem meu dia...
Guilherme Daniel
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:
Sábado, Novembro 27, 2004
Não foi assim que aconteceu, e os nomes foram preservados. Contudo, não posso deixar de dizer que a história que se segue foi inspirada partindo-se da observação quase curiosa que todo morador nutre por seus vizinhos. Vizinho observa e ouve vizinho e isso é fato. São vidas que se interligam a vidas e estimulam a nossa imaginação. É o que apresento pra vocês. A história é um bocado grande, por isso, puxem a cadeira e se acomodem.
Desculpe o auê
A DJ Produções Marcas Licenciadas preparou a coleção Série Ouro só com sucessos das décadas de 80, 90, clássicos das discotecas, o melhor da MPB, Marvin Gaye, George Beenson; o melhor da música de todos os tempos na sua casa! São 12 cds por apenas R$120,00. Não perca essa coleção! Ligue: 31830377. Deixe que a DJ realize seus sonhos.
Atlântida FM, a rádio que toca saudade:
Desculpe o auê
Eu no queria magoar você
Foi ciúme , sim
Fiz greve de fome,
guerrilhas motins
perdi a cabeça
Esqueça..
Rita Lee abrira o dia na cozinha de Maria, a empregada. Quase como um agouro do dia que estava pra vir. Ainda era muito cedo para que se percebesse algo que não o cozido que prepararia, as unhas pintadas, entre uma atividade doméstica e outra - sentada, quase sempre sobre a máquina de lavar.
E por falar em lavar, oh não! Faltava era lavar o banheiro que estava imundo, das águas de um banho porco que dera em Laurinda, entre um vômito e outro, uivos de uma dor constante que fremia pela vizinhança 24 horas por dia, qual uma sirene, um tic-tac de relógio doido, uma bomba relógio... prestes a explodir.
- Aaaaaaaaaiiiiiiiii!!!
Rita já se desculpara pelo auê, e Lulu Santos, por sua vez, como uma onda no mar, profetizara que nada, simplesmente nada do que foi, será do jeito que já foi um dia, ambos, sintonizados que estavam, sem o saber, na Atlântida FM, e no coração cansado de Maria das Dores Neves da Silva.
Maria, ignorante de si, não tinha olhos de ver o que sucedia para além dos limites do apartamento 202: seu lar, seu ganha pão, céu, inferno, sua pátria de chinelos.
Mais que doméstica, era ela as mãos de Laurinda, ainda funcionando, o afago, o fogo da energia, o segundo cérebro, a pontualidade britânica dos remédios, a bronca por dar; espécie de bastarda vinda do interior, acolhida por um irmão indiferente, que lhe ordenara tarefas muito específicas: passar, cozinhar, cuidar da velha casa e da vida velha da velha, que já nem vida tinha.
Só não sabia, Maria, do peso que lhe pesaria nas costas, assim que lhe fosse entregue nos braços aquele bebê desproporcionalmente feio, grande e enrugado. Desproporcionalmente carente. Aquele bebê de fraldas enormes que atendia por Laurinda ou pelo nome que lhe dessem, e ela achasse justo.
Laurinda, de uns olhos puros e desmoronados, uns olhos pedindo, a boca pedindo, minuto a minuto:
-Pão, pão, pão! - talvez para aliviar-lhe a monstruosa fome de vida que ainda sentia.
-Eu já te dei pão Dona Laurina - era assim que Maria a chamava, sem se dar conta de que jamais aprendera corretamente o nome da patroa enferma.
- Maria, Maria...
-Tô almoçando, Dona Laurina! - gritava da cozinha para sua interlocutora no quarto. Já te entupi de pão. Já tomou banho, já comeu, já tomou remédio. Posso comer? Posso? Não me dá um minuto de sossego. Eu hein!
Que tanto queria Dona Laurinda?
- Maria, Maria, apaga a luz, Maria.
E Maria entrava em transe.
Atlântida FM: agora viaje no tempo! Prepare-se para grandes emoções. Você se lembra dessa música?
E tocava Marvin Gaye, Simply Red...
E dessa saudade?
Love of my life - you've hurt me,
You've broken my heart, and now you leave me,
Love of my life can't you see,
Bring it back, bring it back,
Don't take it away from me, because you don't know-,
what it means to me.
Eram momentos inesquecíveis os do arroz com feijão, os do inhame, ou do cozido. No almoço, isolada dos apelos de Laurinda, momento em que geralmente dormia, ou se habituara à indiferença transitória de Maria, que não durava mais de meia hora; momento em que, talvez, na sua insana sanidade, Laurinda, em respeito à colega de dor, deixava Maria sonhar.
O coração batia mais forte. Maria, que nunca deixara de ser Maria Das Dores Neves Da Silva, na hora do almoço, virava estrela de TV, cantora do rádio, mulher amada, mulher de encantos, mulher madame. Se o tempo ajudava, arriscava até uns passos de dança, no piso molhado que ela mesma lavara, detergente à mão, servindo de microfone, Josué, servindo de namorado.
Josué era o porteiro do prédio com quem trocava senão meias palavras, tímida que era, conspurcada da vergonha do sexo, que ela não conhecia, mas imaginava ser bom. E ria de si mesma, protegendo o rosto com as mãos cheias de dedos, quando Josué lhe abria a porta do elevador de serviço, 'como se eu fosse uma rainha', repetia ela, deslumbrada.
Muitos os sonhos que não nos damos conta de possuir, se não sonhamos. A vida passava depressa demais na cozinha de Maria, endurecia suas pernas e braços, mas nunca o coração.
Não se voltara contra o próprio destino, porque não lhe fora permitida qualquer escolha. Saíra muito cedo de casa, a família dando graças a Deus, não por falta de amor, o que faltava era comida pra todos.
Talvez por isso, se entendessem e desconhecessem tanto, Laurinda e ela. Esta, como aquela, também não teve escolha. Ficar entrevada por anos a fio numa cama dura, num quarto abafado nos confins da Tijuca.
E isso era vida? Era o que a vida?
A quem nunca foi dada a tarefa de pensar na vida, viver não significa propriamente uma preocupação, um problema metafísico, tampouco algo sobre o qual se precise voltar as atenções. A vida de Laurinda, como a de Maria não lhes era opção nem mesmo privilégio, era coisa que se fazia: ter filhos, passar, lavar, fazer comida...
As mulheres do tempo de Laurinda, eram quase todas como Maria, com a diferença de hoje serem remuneradas. Mal remuneradas. O rádio, contudo, nunca faltou a um momento sequer. Como ontem, havia o locutor de voz impostada, distraindo e fazendo sonhar, amenizando os dias mais difíceis. O rádio sempre habitou corações e cozinhas das mulheres do lar, viu crescerem os filhos, saírem de casa. Verdade é que foram trocados por modelos mais novos, e os conteúdos ficaram mais hodiernos, porém, estiveram sempre lá.
- Maria, Maria, tô com sede - e Maria corre com a água.
- Ô Maria, quero um pão. Maria, Maria...
Por mais que fosse dedicada e boa com Laurinda, momentos havia em que a paciência daquela mulher simples explodia em reclamação, e em pena, de si mesma e de Laurinda.
As tardes de Março na Tijuca tendem a ser quentes, sobretudo às quinze horas, quando o calor do desespero, berra raios de sol mais fortes que os berros de Laurinda, espichados de premência, loucura, desassossego, vítima e algoz.
Mas fôra preciso muito mais que berros para que Maria, a mulher das canções do rádio, se desesperasse. Foi preciso atingir seu frágil coração.
Às quinze e quinze, pontualmente, conforme anunciara o porteiro Josué, muito prestimoso por sinal, subiu com as sacolas da farmácia, em que continha as drogas necessárias para pôr Laurinda nos eixos, aliviar sua dor, e salvá-la, pouco a pouco, da vida sem vida que já não era sua.
Neste dia Laurinda estivera muito mais agitada do que em qualquer outro. Pedia, resmungava, repetia a mesma ladainha segundo a segundo, quase tão habilmente quanto um papagaio. Seu espírito era o de um amotinado, um revolucionário, um preso de guerra, lutando pela liberdade. Talvez pelo ciúme que sentisse de Maria e Josué, Maria e seu rádio, seu escudo contra os berros e a loucura iminente. Continuava com a pirraça:
- Maria, eu quero pão!
- Maria, apaga a luz!
- Maria, tô com sede.
- Tá doendo, Maria!
Josué chegara. Maria era a noiva que nunca pudera ser, com aquelas sacolas nas mãos, que segurava como um buquê. Confusa, desconjuntada, boca borrada de batom e cheirando a detergente de cozinha, ela lhe sorria com vergonha e esperança.
Ele mal interpretava dela os apelos de amor. Sem que soubesse como fugir dali, ia ficando, igualmente confuso e intrigado com a idéia de ter seus olhos pregados nos dela.
- Nos conhecemos há tanto tempo, né não Josué?
- Oxe! E bote tempo nisso. Já se vai anos.
- E nesse tempo todo eu nunca fui de ter muita prosa com cê, né verdade?
- E num é?
- Mas nem é porque eu te queria mal não, pelo contrário, acho é que...
- Maria!!! Vem cá, Maria! Tô com fome!
- Já voooooooou Dona Laurina. Mas que inferno! - e sua queixa era um jato de sangue e fogo apontado pra dentro de casa. E a sinhora já acabou de cumê..
- Dona Laurina tá impossível hoje - explicava-se para Josué.
Assustado, enfim Josué conseguiu se desvencilhar dos olhos de Maria, fazendo com que a conversa logo chegasse no fim:
- Deixa eu ir que tenho é muito serviço lá embaixo. E Dona Laurinda hoje tá que tá - risadinha sem graça.
- E num é? - concordava Maria, decepcionada com a partida de Josué.
Carlos, do Engenho de Dentro, oferece a música Desculpe o Auê, de Rita Lee, para sua esposa, Flávia Adriane, rainha do seu coração. A Atlântica FM toca de novo essa música pra vocês:
Desculpe o auê
Eu não queria magoar você
Foi ciúme , sim
Fiz greve de fome,
guerrilhas motins
perdi a cabeça
Esqueça..
Foi naquele momento, antes que a música terminasse, que Maria percebeu, desconsolada, o que significava não ter vida, sonhos, razão de viver. Soubera, por um átimo, por um clarão de desespero que, enquanto vivesse daquele jeito, presa à Laurinda, à vida de doméstica e mulher virtuosa, não seria de homem nenhum.
Enquanto não se visse livre do grilhão diário de berros e apelos, do amor desesperado que possuía pela patroa, a mãe a quem foi dada a certeza da morte, só não se sabia quando, enquanto ela não abandonasse tudo isso, jamais seria livre em sua vida.
Decidiu por si mesma - pela primeira vez na vida decidiu algo por si, que dissesse respeito a ela, pois sempre viveu para os outros - que assim que se visse livre de Dona Laurinda, ela e Josué fugiriam e ele lhe dedicaria, no rádio, uma canção de amor.
Era Rita Lee quem ainda cantava:
Da próxima vez eu mando
que se dane meu jeito inseguro
nosso amor vale tanto
por você vou roubar os anéis de Saturno..
Aproximando-se de Laurinda que, suplicante, pedia-lhe a droga diária que lhe amenizasse a dor nos ossos, Maria a olhou com olhos de mãe, aos quais Laurinda retribuiu, com gratidão, logo que a viu entrar.
- Ô Maria, como demorou! - e sorriu, como se visse um anjo.
- Eu nunca mais hei de demorar, Dona Laurina. Toma esses remédios aqui que a senhora dorme, e a dor passa num instante.
Trêmula, sem fúria nem mágoa, crente do que bem que fazia, ministrou a cartela inteira do remédio, que se bem advertiu o médico, não poderia passar de meio comprimido diário, visto que o coração de Laurinda não suportaria dose maior.
Vendo Laurinda assim tão sorridente, animada com as bolinhas coloridas que botava pra dentro do corpo, Maria foi capaz de chorar de saudades dos tempos em que sua patroa, ainda lúcida, a chamava de 'minha filha'.
- Obrigada, minha filha! - foi como respondeu.
Laurinda adormeceu.
Ardia o sol das cinco no Rio de Janeiro, breve como todo entardecer. Infinito, belo, poderoso. O sol se punha por detrás das montanhas além do horizonte, daí a pouco anoiteceria, sem que Maria soubesse o que fazer amanhã com o tamanho de sua liberdade.
- Agora sou livre? - perguntava Maria a si mesma, rindo-se em êxtase triste e transtornado.
Olhando pela janela da sala, que só contemplava quando limpava as vidraças, Maria reparou que a vista era bem mais bonita que pensava. Inebriada com as cores da cidade que era sua, mas que propriamente jamais conhecera, pôs-se a avistar certas flores num gramado próximo, que nem sequer imaginava ali existirem.
Havia uma vida toda que Maria não vivera. Laurinda, no quarto, não reclamava, não sorria, não berrava mais.
O sorriso de sombras se misturou ao fim do dia. E no rádio, alguém dedicou outra canção de amor.
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:
Terça-feira, Novembro 23, 2004
EU LHE SOU GRATA
Pelas noites não dormidas;
Pelas olheiras;
Pelo mau-humor da manhã;
Pelo bom-humor da tarde;
Pela vontade de tentar mais uma vez.
EU LHE SOU GRATA
Pelos risos avizinhados da loucura;
Pelas enchentes do corpo;
Pela certeza de ser feliz,
mesmo que sonhada.
EU LHE SOU GRATA
Por todas as utopias;
Pelas decepções futuras;
Erros, acertos;
Pelo sexo bom;
Pela falta de tesão.
EU LHE SOU GRATA
Pelo abraço amigo;
Pelo descompromisso absoluto com certezas,
Com a ordem,
Com verdades.
EU LHE SOU GRATA
Pela dor dos pés,
Calor das mãos,
Tremor das artérias.
Por esse sentimento meio pé-de-vento que a gente arrumou.
EU LHE SOU GRATA
até pelo cachorro que você não me deu...
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PS: Não sei, mas acredito ser de praxe escrever um post para essas ocasiões. Como não sei muito bem fazer isso, deixo cá apenas uma breve nota sobre o fato. Fato cuja apresentação prescinde dessas explícitas palavras, dada sua simultânea exposição em imagem, ao lado dessa nota de quase rodapé, que não vem dizer nada de essencialmente novo, tampouco interessante, posto que está tímido, e quando fica acanhado, faz que nem criança ante a presença de estranhos: sorri amarelo, protegendo o rosto atrás das pequenas mãos, para depois sair correndo, fugindo à cena, deixando seus pais entre constrangidos e risonhos. Quando a vergonha passar, as palavras brotam novamente, no chão das minhas idéias, e no céu das sensações.
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:
Sábado, Novembro 20, 2004
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Pego um pedaço de biscoito no chão e o devoro com a pressa de um somali. Depois me questiono se havia recheio naquilo que comi. Era um biscoito desses que divertem crianças, adultos deprimidos, e velhos felizes em seus pijamas de algodão; um biscoito que, definitivamente, não me diverte, ou eu não teria deixado seus restos jazendo, inertes, no chão do meu quarto. Levanto-me com pressa de fuga, envergonhada da porqueira do meu ato. Corro pra cozinha e lanço mão de mergulhar água pra dentro do meu corpo. Água com gosto estranho, sabe? Gosto de geladeira, gosto de água acabando, de vela suja, de paz morta, de tarde fria, gosto de solidão de sabá. Palavra muito propícia prum sábado também morto: 'sabá', do hebraico 'shabbath'. Coisa muito antiga, mas que soa bem nos ouvidos. Eu voltei pro quarto, sem querer, só pra conferir se ainda havia farelos, restos de chocolate em frangalhos, qualquer coisa que se assemelhasse ao corpo estranho que pus na boca minutos atrás: massa derretida, amarronzada, adocicada, repousando perto da cama, ao lado do pacote quase intacto, mas já sem biscoitos. Aquilo que comi, hoje, foi a sobra da insônia de ontem. O não-quis das horas noturnas, que amassei, devorei, que expeli dentro e fora de mim. Eu e o resto, por ora morrente em minha barriga, descendemos da mesma origem. Somos dejetos da madrugada abolida, prestes à deglutição, seres à beira do abismo, da boca que cobre o céu, e o céu da minha boca. Ele é o meu resto, e eu, o resto do biscoito divino, um farelo estelar, por ora vivente, às vezes morrente, de quando em quando feliz.
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:
Sexta-feira, Novembro 12, 2004
Livres Quereres
Quero encontrar no dicionário do meu destino, o significado da palavra arbítrio.. Quero depois libertar meu arbítrio. Quero que voe o meu poder de decisão! Eu quero defender, com minha covardia se preciso for, os deslimites dos meus rumos. Quero fazer da manhã uma estratégia pra te amar. À tarde, eu quero protestar contra a burocratização dos sentimentos, e contra nosso amor, se a maior parte de nós cair na rotina. Quero, à noite, partir contigo em lua de mel. Quero ter felicidade do teu lado, mas também quero ser minha melhor companhia. Quero lutar pelos meus moinhos de vento, alimentá-los com meus furacões - e com os dos outros; despir das ilusões os preconceitos, e mudar de idéia se a minha idéia mudar. Não quero trocar de idéia como quem troca de roupa, mas não trocar nunca, eu também não quero. Vai que eu emagreço, vai que eu engordo demais? Não quero ter a idéia de uma idéia me apertando. Eu quero o conforto, ainda que à boca do desconforto do caos...
Eu não quero tão simplesmente querer. Quero edificar meus desejos. Mas não quero podar vontades. Quero somar desequilíbrios até encontrar o equilíbrio perfeito de todas as minhas contradições - sobretudo as insustentáveis. Porque eu quero cair para me reerguer, me esvaziar de tanto me encher, aprender com o sim e com o não. Quero ter a casa cheia de talvez, e não perder a hora do sonho. Não quero ser pontual com o sofrimento, subserviente com a preguiça, amável com o desprazer. Não quero prazer que dá e passa, quero cultivar meu prazer. Quero cair em tentação todas às vezes que houver uma ditadura em jogo. Quero ser e não ser livre. Quero voltar pra casa e ter alguém me esperando, ou saber que me terei só pra mim. Quero mesmo, sempre que impossível, este querer limpo, livre... Por um triz.
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:
Segunda-feira, Novembro 08, 2004
Ócio Indócil
Meu ócio não é criativo,
Mas revelador indócil
Das minhas reflexões.
Porque ele referve os fluidos das minhas ilhas,
Sumos de pretéritas vontades,
Que reestréiam como novas
Nesse peito de geleira e fogo,
Nessa alma de mil brotações,
Na recorrência dos ocasos,
No faz-de-conta das horas,
Que nem Deus ousa parar
Porque são sagradas as rotinas,
E sangrados os martírios.
Porque a natureza contêm toda a matéria-prima do recriar-se,
Da morte-vida do que revive em mim.
Do que revisito em meu nascedouro,
Contemplo em lembrança inédita
A manjedoura ou o berço esplêndido?
Ócio indócil,
Então posso ou não crer
Na colheita próxima
De minhas extravagantes
Epifanias?
Em tempo: A natureza é revivida em cicatriz,
Ou renovada em mancha de nascença?
(Como se importasse a ordem destes descomeços!)
Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:

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Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente em áries. Filha de Marisa e Guilherme, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito...e que faleceu em 1987. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo, que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Vê a vida com cores de sertão. Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros. Ama os pássaros, as borboletas, e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia em que tatuá-la na pele. Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias.Metade dela é corpo, a outra, é palavra. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas. Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de suas finalidades óbvias. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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