Domingo, Outubro 31, 2004


Prescrição para os poetas

declarar-se santo, ou louco;
desposar a insanidade;
expatriar-se, derribado em sensatez;
aninhar-se ao ventre úmido da Quimera-Mãe;
ser moderadamente excessivo, exagerado, desmedido;
habitar pedras;
ter fome da fome;
chegar a lugar algum.

Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:



Sexta-feira, Outubro 29, 2004


Três breves constatações



I.

O perfume das paredes é oco.
(fragrância pra cupim)


II.

O mar é que nada no menino.
(é terapêutico porque tira o peso das costas)


III.

Fotografia é máquina do tempo.
(por isso é que velhinhos de memória saem tão bem nas fotos)

Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:



Quinta-feira, Outubro 28, 2004


Estações



Meninas (de mini-saias) borrifam primaveras;
Verões se bronzeiam esperando Outonos -
que tossem suas folhas secas;
Velhos (de sobrecasaca) vestem invernos
Enquanto suas nobres senhoras,
Sentadas na varanda,
Esperam as flores chegar..

Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:



Terça-feira, Outubro 26, 2004


(..1..)

Acordei morna hoje, rendida pela vida; preparei até uma vitamina de mamão (isso não parece, mas é relevante para conduzir-te ao modo particular como penetro nas sensações, degustadas ou não, e conduzo-me - deixo-me conduzir por elas, a partir de um certo princípio de inspiração). Acordei inspirada, a textura cremosa da fruta me deixou toda encantada. Prossegui lendo Caio Fernando Abreu, embriagada pelo som das palavras dele na minha boca, até que vim me sentar a teu lado para uma conversa aconchegada. Daqui a pouco retorno para minha Iniciação. É o nome do conto do Caio. Ando com vontade de não-sei. O que? Quero me conhecer melhor. Quero entender por que eu não fumo, e você não passa uma hora sem pôr esse teu cigarro na boca. Entender porque inventei essa mentira agora se nenhum de nós nunca fumamos, nem quando devíamos. Talvez isso seja só conversa da manhã que não passei a teu lado, subterfúgio para continuar te escrevendo, procurando assuntos nesses teus olhos que eu suponho castanhos, mas quem sabe sejam verdes? Aquele dia na confeitaria fizeste-me ver o que eu jamais vi. Vai ver por isso eu não me lembre mais do que vi. Dormi mal nessa última noite. Como sempre, já deverias saber. Mas acordei depois de um sonho bom, o que deve representar um certo equilíbrio na balança final. Pode ser que eu durma antes de te encontrar de novo. Pode ser que eu morra. Tenho tantos pensamentos me enforcando na mente! Sinto o tédio dos dias ociosos, não o prazer bucólico dos campos. Sinto prazer corrompido por ócio, mesmo quando tenho obrigações a cumprir. Apego-me à esperança de ter esperança, e não tenho esperança. Quem sabe em Maio? Em Maio te encontrarei num bistrô, que não é francês, é onírico. No fundo sei que isso tudo é apenas mais uma forma de existir. Terei de aprender a existir? Terei de estimular meu tédio até o ponto correto que preceda à loucura. No limiar dela. Estou louca de vontade. Persigo vontades alucinadas. Estou tão depressa! que hoje nem saberia escrever um conto. Tive sonhos eróticos essa noite, acordei rindo. Ainda sorrio pra imaginação. Só que não estou suficientemente consistente - confiável hoje. Posso colocar tudo a perder. A vida é um risco. Sua presença nos meus pensamentos me inspirou, e se eu não tiver coisa mais interessante a fazer, pode ser que eu te ofereça, hoje, a minha vida inteira.

(..2..)

Notas de um diário que não escrevi:
Eu queria sentar perto daquele mendigo - redundante designá-lo sujo, enquanto escrevo as linhas deste meu diário invisível. Sentaria perto de ti, mendigo, não fosse o que deixas exalar das tuas entranhas e dos teus farrapos. O odor é de fracasso.// Todo abandono é um mendigo. Mendigo, portanto, é quem deixei boiando em minha cama de afeto puro-incolor. Como quando se abandona uma criança que não se teve tempo de amar.// Presto honra com fidelidade de cão vadio; de quando em vez escrevo a história do mendigo, e a minha, mesmo que eu pense várias versões para cada uma delas.// Ele dorme a poucos metros de mim. Seus pés já não são pés, são patas. Aquele casco um dia foi tão macio quanto os pés da menina linda que brinca no parque. Isso me faz entender que ninguém é mais puta na santidade que Santa Maria de Deus, que sempre se deu à humanidade. Tudo ou quase tem um mesmo início.// Nunca enxerguei diferença na água benta e no esperma, no fato de matar ou ser morto, amar um homem ou uma mulher.// Escrevendo isso eu não me contive! Gargalhei tão alto que a criança no colo daquela linda mãe negra chorou. Depois da noite de ontem, só poderia vir aqui me redimir.// Alguém ouve Rapsódia Húngara num volume ensurdecedor. Certamente algum vizinho que sobreviveu ou vai se matar. "Ninguém ouve Rapsódia se não estiver em seu momento definitivo", penso eu. De repente eu entendo porque certas mães atiram filhos contra os carros.// Comprei uma água de coco e vim assistir as meninas em suas cordas de pular. O sol emplacou e os óculos que eu trouxe finalmente ganham serventia de óculos. Ganham vida na minha cara descarada. De onde estou, já não vejo o mendigo, diviso o homem que ele não foi.// São nove e meia da manhã. A menina mais linda do mundo chuta uma bola muito maior que ela. Por um momento, o mundo todo é dela.// A menina mais linda do mundo, muito gananciosa, quer segurar o mundo com as mãos. Mas a bola é tão grande, que a menina cai. Bem feito, aprendiz de ditadora! de ditadora! Ela já sabe agora que nada é pra sempre, muito menos um desejo, uma pretensão. Caprichos de meninas vergam e o mundo escapa de pequenas mãos.// Eis a linha derradeira deste diário, vez última em que eu, a menina e o mendigo, habitamos um mesmo espaço.

Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:



Segunda-feira, Outubro 25, 2004

Um motivo, um poema. Têm sido vários os motivos, e diários os poemas. Vamos à eles (a esse recomeço que se textifica):

repasso meus deveres pra terceiros, já extintos
testas-de-ferro da minha insensatez.
confundo-me com ócio, descaso
casamento de burguês
interesses, vitrines, nomes a zelar,
e sem zelo a vida toda inibe o vento.
sangrando, sangrado martírio
na esperança do vento.
um tempo morto de desejos solenes
esquecidos num corredor, numa estante,
instante débil de aparições decimais.
suas frações são lábios perpassados de esquecimentos
que eu purgo com o tempo de um beijo
que não volta mais...

(o primeiro: sem nome, sem revisão, quase impaciente, quase mediúnico. concebido em 2 minutos. em 24/10).

---
pertenço à classe dos que
sonham rosas à beira do abismo,
cores me fazem delicadas selvas.
meus instantes são antropofagias que eu cometo
canibalismos à luz do dia, ou da vela.
a fome que trago
é de boca, orvalho e pedras.
devasto matos de homens
mais famintos que eu.

(o segundo: mesmo dia, mesma impaciência espontânea. muito embora outro o motivo).

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Vésperas de Otimismo
(ou: incitações ao otimismo de vésperas)

É dada a largada. Tenho ânsias de felicidade por todo o corpo. O coração é de vésperas, meu amor. Brinca com o descompasso do peito, antecipado, exultante na espera que empreende. A lembrança é do que virá, e os risos são pressuposições de tardes alegres que ainda terei. Mergulho no germe daquilo que desconheço: são rudimentos da boa fortuna e do destino próspero. Os inícios me atingem alegria adentro, feito um marco, e eu sou só aguardo. Arrisco starts na alma.

(terceiro e último, finalmente: geração espontânea, como os demais. possibilidade feliz da criação. existe desde hoje).

Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:



Sábado, Outubro 23, 2004

(..1..)

Uma vez as almas da noite ficaram todas nuas, e o dia nasceu. Numa outra vez aconteceu das estrelas ficarem bêbadas e se jogarem das nuvens. Nesse dia descobriram a estrela do mar. Um louco bem louco e um lúcido triste certa feita se beijaram acometidos de um impulso demoníaco de crer Deus. Dessa vez não inventaram nada, mas houve poesia no coração dos dois e eles foram felizes. Cortaram uma árvore do coração de um homem. Isso calou para sempre um poeta. Um surdo sepultou seu silêncio: renasceu música. Curaram uma doença e alguém morreu. Trapos de um velho pano remendaram-se a metros daqui, cobrindo as vergonhas de um lobo que passeava com seu homem. Fotografado, meu corpo virou rocha. Muitos milênios passaram-se até que as águas de uma pedra furassem olhos nela, pra fazer caverna. No dia em que o sol não nasceu, minhocas dominaram o mundo.

(..2..)

Chuvas de Virão
Sabe-se lá de onde escrevo estas linhas de deságua. Ausentei-me de ser, desvestindo-me de mim. Terminei não-sendo. Não me sucedi. Não me recriei. Desacostumei-me de me: achar, perder, somar e subtrair. Renunciei afetos e rancores. Abdiquei da condição de súdita do tempo. Parei presente. Formei vácuo. Desmaterializei-me. E daqui de onde não-estou, vejo-me, não vendo; antecipo nadas, espero o torpor passar...
Para daí a pouco: tragar cataclismas no meu sopro quente; cantar modinhas - de amor ou desespero; auscultar vida convalescendo, brotando em mim as chuvas de virão.

(..3..)



Não que não houvesse motivos para chorar. Eles abundavam. Havia tristeza no sangue russo, no terrorismo checheno, no frio dos mendigos brutalmente mortos da cidade de São Paulo. Até nos medos da menina, corria, consternada, uma lágrima de desalento e fel, que ela fazia questão de substituir por manhãs suntuosas de risos, entre prazeres solitários e pára-raios de magias indecisas, que eram os seus poemas enfrentando o pó dos dias o qual denominávamos reais.
Sim, eram reais as perturbações do corpo e da alma, as ânsias de vômito em meio a desmandos de atrozes governantes, democratas da dor e do desespero. A alegria era quase um crime naquele tempo. Por isso é que, cheia de pudor, a menina sorria, sem saber se sorria.
Solitária, sua alegria revogava tratados de consciência - que lhe rogavam prantos. Espécies raras da dor que ela nutria, germinavam prazeres que não se disfarçavam. Sorria com violência para a dor, seu perfume de avalanches, no que era gentilmente recompensada com gozo e graça, ainda que árida, inóspita, desertora.
Era possível que algum detalhe do código genético daquela criança, por ora mulher, houvesse escapado à fiscalização divina, e desse a ela prerrogativas de felicidade, perigosa regalia de loucos, de santos, e de parceiros seus, subversivos tímidos do desalento dominante. Era possível também que nutrisse esperanças, porque era jovem demais e trazia na bagagem as ventanias de um ideal. Talvez ela simplesmente sorrisse porque ainda era possível um mundo melhor. (set/04).

(..4..)



Então descubro pequenos prazeres
Em grandes dores
Brinco de desafiar a solidão
Com minha companhia
Me perco de me achar
Nas sombras que me iluminam
Desenhando carinhos sobre a pele
ainda não tatuada

(..5..)

Sei em mim de vazios e tormentas,
Ferimentos da vida que não tive.
Sangro de erros e de acertos
Sucumbida ao vivido-morto.
À deriva, não freio lembranças,
Eu as trapaço.
Vicissitudes me rosnam
Como a gata que queres comprar;
E eu não sei se gosto,
Ou se gozo.
Nada me é o bastante até depois de amanhã.
Sigo fervendo,
Pecados me condensam,
Até que eu escorra
Aben-Suada de imperfeição..

post scriptum: um recomeço? talvez.. a idéia é ir voltando aos poucos.

Não morra de sede, beba comigo mas também me sacie:



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