Terça-feira, Agosto 19, 2008


Na dança rendeira da agulha, meus dedos cingem, ornam. São fios. E sangram. A costura no branco da folha. Virgens, meus dedos bordam. Desabotoam, e por isso desabrocham. Desenham a lápis, contornos, dobras.
Sangram, num retângulo cheio de vincos: páginas perdidas. Rematam, retalham, fiam. Porque é tempo de fiarem. Porque é tempo que dá liga, é tempo.
Meus dedos, que souberam, que fiaram outras histórias, desenvolveram, outrossim, o árido trabalho da espera. E esperaram. E fiaram - dessemelhantes tecidos. E cortaram. Meus dedos sangraram.
Cada légua de tecido que cosi - coser é o meu dom, desvesti-me de mim. Só em parte - as anáguas eram minhas.
Eu, que sou todas, mas sou só eu mesma, vesti metros do mundo que quase nunca me coube. Somos nós dois, hoje, a linha, a fibra.
Eu, que sempre vesti o meu dentro, vesti o meu fora.
“Tudo está vestido de solenidade e nudez”¹. É, Sophia, eu me vesti para poder ficar nua. Revesti-me das tessituras férteis das planícies, já que abismos sempre me cobriram.
Vestida de mundo, ciosa do desejo dos meus dedos, não fui, não voltei. Estive. Liguei. Uma bainha, um fecho.
E o meu coração, sem desfecho, ritmo do meu sangue, extensão dos meus dedos - que sangram -, o meu coração rajado de fusões está aqui, peça principal, modista da minha poesia.


(A poesia me conserta, e desconcertada, eu conserto a poesia.)


¹ Sophia de Mello Breyner, As Grutas.
Fotografia de Mira J., extraído deste blog.



Gotas do mar



Quarta-feira, Janeiro 03, 2007


O infinito a minha frente pede
Olhos mareados de horizontes,
Meus limites não diviso
Senão no que concebo da vastidão de mim.
Contenho extremos de estrelas de céu mar
Faz mistério de leste a oeste.
Gigantesca, aposso-me da brisa,
Do sol derramado,
Das peles que queimam verões.
Antes de chegar o amor e arrasar
Com toda simbologia marítima,
E me fazer crer que a imensidão vagante de mim
É você, que gira gira o sol,
Perfuma minha pele,
Gira gira o amor por dentro,
Do que contemplo nessa tarde já ida
De pássaros e de meninos.

Saciai-vos:



Sexta-feira, Dezembro 22, 2006


Do meu pai herdei os olhos de poeta e a imaginação de sonhador. Do meu pai os cabelos, pernas, pés e melancolia. Esta ausência de tudo, distraída, e o sorriso maroto. Do meu pai herdei o amor de minha mãe.
Da minha mãe herdei a postura, o falar manso, a voz pausada e a maneira de vestir. Da minha mãe a ansiedade, o amor fecundo, o carinho imenso.
Síntese dos dois, surgi assim, meio poeta, meio menina. Tímida e sacana. Delicada, intensa. Carioca e mineira. Mar e montanha.
Dos dois o amor ainda adolescente, um medo avivado no olhar. Refreio, sublimidade, profanação. Uma ousadia tímida, mas ousada. Uma forma inaudita inaugurando a imensidão.
Por causa dessa mistura quis o destino ou Deus que eu fosse abstrata, metafórica, notícia velha, desde menina, memória. E grata eu sou pela confluência destes rios azuis que são meus pais, um meio anjo, outro pássaro. Este, coisa aturdida, aquele, flor em rubro instante.
A minha história é um pouco da trajetória deles. O meu ponto de partida é um ato de criação. Por isso invento meus dias, meus sóis de Van Gogh, por isso o meu arrebatamento ante as coisas que não existem, senão na imaginação. Amo o que foi, e o que está por vir. Meu presente é invenção dos dois.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Dezembro 20, 2006


Sei que um dia quis ser ave. E que de menina trago os olhos cheios de espanto. Perplexa ante o mundo que sinto pelas pontas dos dedos e pela profundidade do coração. Sei que essa ave, símbolo da liberdade, voou por aí. E que vem me buscar nas noites de sonho sereno, nas noites de lua, nas noites negras como o negro dos olhos que ostenta esse bicho lindo. É mais que um símbolo, mais que paixão, é a identidade de uma alma aprisionada a um símbolo, a um rudimento de alma, que é o que os bichos têm. Rudimentos cá e lá. Porque é inegável a afinidade que sinto com as coisas nascidas num silêncio de instante, de instinto. E o que se ouve da morte? O que se ouve da vida? O que se ouve dentro do homem, do bicho, dentro do mistério de Deus? Olhos cheios de espanto, olhos de perplexidade pelo mundo acometido. Olhos de acometimento. Escrevo o mistério da ave, e ela é o meu mistério, o mistério de um amor.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Dezembro 18, 2006


Sono em suspenso, madrugada quente. Suor nas idéias, pensamento insone. Lembranças remotas, semi-vividas, que não me trazem nenhum tipo de saudade, mas o desconforto de não terem tido desfecho. Nem materialidade, quantas vezes. Saudades tenho do meu ardor juvenil, confesso, desse suor que hoje sua novamente a face, acelerando as sensações, oferecendo-lhes textura, cheiro, semântica. Oferecendo-lhes poesia. Sim, saudades do gosto, do rosto, de antigos trejeitos, transeuntes das minhas ruas, ou bichos das selvas de mim. Ainda assim, sei que não trocaria de instante. Este o mais belo... Encontro no meu presente tudo aquilo com que sempre sonhei. Beleza, reciprocidade, afeto. A história outrora aguardada. Construo o que há de mais sublime na existência. Sou fiel a tudo isso, a eternidade desses sentimentos, ao tanto que me renovam, e também resgatam a verdade de menina, que sonhava o amor. Carrego um sem número de reticências, mas também vou fechando lacunas, acrescendo pontos finais. Abrindo parágrafos, preenchendo páginas de um branco tão pálido como eu, com o sol do amor que faz em mim. É (pra sempre) Verão.

Saciai-vos:



Domingo, Novembro 26, 2006


E de repente me lembrei. Assim, subitamente. O coração quis o beijo devorado pelo tempo das coisas tardias. A alma ficou mansa, grávida de um desejo bonito. Perigoso querer, na alvura destes instantes. Galopes e saltos das emoções ferinas. É que cabe acontecer deste jeito, perdidamente iludida de amor. Principio na descida de mim, e é tanto sol! Queimo, ardo, às vezes sufoco com tanto lirismo. Tenho medo de ser ferida, porque o meu instante é o das coisas breves, eternizadas pelo momento poético. É tão fácil que pareça leviano, mas é trágico porque não há rendição, muito menos modo de escolher.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Outubro 16, 2006


Hoje o dia está lindo. Eu olho pro sol e acho que ele quer me trazer alegria. Me mostra o poder do dourado na pele, as flores que vicejam por sua graça. Eu o enfrento de igual pra igual, em minha soturna palidez. Mas o sol escapa ao meu entendimento, e eu ardo. Simplesmente. Sou agora uma de suas presas, me visto de amarelo. Só imagino o mar que daqui eu não vejo, um azul profundo como os olhos da minha bisavó. O tempo não está para saudades, mas para ações. Ainda assim, uma e outra saudade latejam no meu ser. Queria poder brincar de encantos. Minha magia seria assegurar poesia para as próximas gerações. Eu cuidaria das sementes e das primeiras safras. Uma plantação de vernáculos líricos, estrofes fertilizadas, versos bem nascidos. Todos os dias, poemas seriam concebidos. Meu ofício, comum a outros, continuar a sonhar. Sem medo de arriscar universos fantásticos, e de fugir à verossimilhança. Hoje sonhei com livros sagrados escritos por homens comuns. Sonhei com uma nação justa, com diferenças que eram somadas, mãos que ajudavam outras mãos. Delirei de esperança. Acordei e o dia estava assim, lindo, sorrindo pra mim. Torço para que seja um sinal.

Saciai-vos:



Quinta-feira, Outubro 05, 2006


Sorrio pra manhã nascedoura. Tenho no rosto o resultado da noite sem sonho. E há tantas chagas nessa olheira secular. Há histórias de caminhos perdidos, de outonos sem testemunhas, e de primaveras só há pouco germinadas. É mistério este doer imaculado, sereno, quase uma conseqüência de viver. É um doer manso, dor de parto, porque cada instante é a vida. E não se traz ao mundo sem dor. É isto, portanto. Estou sempre trazendo ao mundo este eu mesma cheia de emoção. Vivo às vísceras, às vésperas de mim. Sou o que está pra acontecer e o que não serve mais. Sirvo pra sonho, pra paisagem, pra ventania. Sirvo pra poesia. "A poesia é o presente", versejou Ferreira Gullar. A poesia é a minha inteira, de cada sorriso matinal abrindo as cortinas do mundo ao negrume da vaguidão insone. Sou esse eterno metaforizar-me. Sinto esteticamente. Consisto em criar. Minha existência é verbal, os caminhos do meu mundo são flores feitas de palavras. Meus jardins são frases inteiras. E a cada letra que nasce, revivo em mim a certeza etérea que justifica meu viver.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Julho 19, 2006


Meu rosto relembra suas mãos na distância do contato. Ele é a terra para o seu plantio. É a promessa da flor que você colherá. Colhe, pois, flores de mim, nas faces encharcadas de poesia e lágrima. Colhe esse viver cheio de pranto e medo indócil. Vele por mim, pelo meus ventos, que remexem crinas, destrançam cabelos, espalham as sementes que sonham com pétalas. Me ensina a fertilidade do sorriso. Vem sazonar meus frutos, cultivar minhas plagas, chover sobre mim. Vem pra me fazer sua. Vem que eu preciso tanto. Vem que há relâmpagos, e os granizos ferem. Há um assombro na menina dos meus olhos. Há um rio nascendo nesse castanho cheio de amor. Transbordando a alma, nutrindo meu amanhã. A vida me arremessa frágil sobre os campos do mundo. Sem grãos, sem sementes, sem terra. Só com o sonho da flor. E com o sonho da flor eu faço um jardim na sua alma. O sonho e a flor você colhe com suas mãos de ternura. E o impacto de tudo o que não sei e sinto fortemente nas artérias e no incorpóreo ser, faz na minha alma uma paisagem a mais.

Saciai-vos:



Terça-feira, Junho 20, 2006


Graça natural de quem possui uma delicadeza. O efeito dela sobre mim, compondo em meus dias sinfonias de acordes perfeitos. De acordo com o coração. Felicidade que inaugura com flores o presente, apruma o olhar para o futuro, quer para sempre, sabe dentro, mora onde há chama, deleita-se de bem querer. Quase consigo entender como uma grande alegria também dói. Devagar, surdamente, como ser humano e querer ser anjo. Como ser anjo e desejar ser terreno. É sublime e carnal. Depois dessa dor que não é bem dor, o corpo aquieta. E então, sorrisos. Apenas sorrisos. Dentes, olhos, duas bocas, alma presa à alma, e uma certeza milenar. E o que mais sei, se não que amo? Amo. Logo, sou dela. O que mais sei? - pergunto-me. Registro que sou esta, mulher atravessada de carinhos, de novos sóis, consagrada ao que restou de mim, nesta fusão de sentires, neste enroscar de pernas, no que nunca mais é abandono.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Junho 05, 2006


ALMA 1: um pensamento? um nome? uma lembrança? um desejo? qualquer coisa! e eu já terei mergulhado... basta um sinal seu, mínimo! não pode ser tão difícil... e eu não me sentirei tão só.

ALMA 2: é como se eu parasse por alguns instantes pra dar tempo da alma assimilar o mundo.

ALMA 1: mas assimila comigo!

ALMA 2: ...pra dar tempo da alma compreender...

ALMA 1: dê nome a uma sensação, apenas uma! me de a mão com a palavra, enquanto não posso mergulhar pelo mar dos seus olhos.

ALMA 2: é a alma apressada tendo que diminuir o ritmo pra poder acompanhar o corpo, os acontecimentos... eu acho que é isso, não sei tb. nunca pensei sobre isso.

ALMA 1: viu? é tão bonito quando se compartilha.

ALMA 2: mas eu não me nego a compartilhar.

ALMA 1: mas se negou a deixar eu ir com vc, qdo não me deu a passagem, não fez ponte comigo.

ALMA 2: como é que no meio de uma conversa vou te dizer: minha alma está parada.

ALMA 1: pq não diz? seria adorável! eu entenderia, e naõ ficaria mais agoniada.

ALMA 2: mas se em algum momento alguma coisa estiver errada, eu vou dizer.

ALMA 1: eu sei, mas não é por medo ou por insegurança que eu peço. é a vontade de embarcar junto, só isso.

ALMA 2: se é só vontade de desacelerar a alma tb por alguns instantes, seja bem-vinda.

...

vc é tanto aqui dentro, é só o q sei. sei tb que sangue faz parte. que lágrimas, que dores... mas eu queria que soubesse que se eu abrigo a virulência, eu abrigo também o amor mais suave, mais doce, mais sincero. ainda verei o dia em que todas as nossas lágrimas - de dor e de alegria, de revolta, de amor, de superação - irão florir. já estão florindo, aliás. viu como nosso jardim é lindo? :)

...

Saciai-vos:



Sábado, Março 25, 2006


Te escrevo com fome e silêncio. Fora das convenções, fora da lógica, te fazendo doer, porque não abro mão do que sou. Mas teu nome, não sabes, está pregado em minha boca. Até quando? Não importa. Quem sabe até sempre? Deliro-te. Deliro de ti. No meu refúgio de girassóis, no meu exílio voluntário, no cansaço, no recomeço, na esperança, na solidão das horas mais minhas, em que me revejo e renovo. Em que convoco enigmas, inexplicações, distancio-te para te ter mais perto no paroxismo do reencontro. Despejo e desejo. Carinhos e urgências. Oscilo extremos de agonia e gozo. Sou aquela que na ausência doce te ama até a morte. Até a morte do instante. Me preencho com a falta, adentro todos os labirintos, me perco pra te achar dentro de mim. Achar o mundo; e vou de mundo em mundo te achando e perdendo. Esta sou eu, meu bem, sem aviso prévio, improcedente, doce, mas tão doce, percebe? Afeita ao afeto, só que arredia também, tudo de sim, tudo de não, talvez quase os dois. Eu não sou só um jogo de palavras. Eu sou a afirmação da minha inconstância. Assumo, assumo meus contrastes. Esgoto em sombra e renovo em luz. Te quero com a minha cara amassada de sono, te quero da torre dos meus delírios, te quero no presente, te quero aqui, e na terra que é só minha, com a urgência dos verões, e na nostalgia dos invernos. Com um jeito de nunca, platonicamente, com um jeito de sempre, possuindo com força. Perto e longe, do jeito que eu puder e quiser. Não sou egoísta, vida minha, sou a que não termina. Transito, oscilo, alucinada, responsável, contente e suicida. Cabeça dura, eu sei, eu sei. Mas com tanto amor impregnado na distância, com um jeito de criança ardendo impulsos de presença, quando me dá na telha, quando estar perto é a finalidade a que me proponho. No seu colo, com medo, entre as estrelas que não tocamos, na poeira que acumula histórias, na cama dos nossos afagos. Nesta madrugada em que não houve. Não quero te fazer doer, mas esta sou eu, aprisionada à liberdade da busca. E te quero assim, toda minha, mas só quando tu mesma fores tua, e eu também. Então eu vou, volto, mas como quem nunca partiu. Porque há no meu rastro, toda a minha alma que ardeu por algo ou por alguém.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Fevereiro 13, 2006


Vida Canibal

Momento decisivo: a câmera dispara o presente, o coração dispara o amor. Me retrata em filtro azul, me espera dentro do mar, quer que eu mergulhe, que vá caçar a pérola. Mas hoje a saudade sangra, chora o existido. Hoje é ontem e amanhã. O que brilha no sorriso da primeira hora, turva na olheira lacrimejar da noite. É o esquecido que se ressente, porque toda novidade assassina. Mesmo que em legítima-defesa. Mesmo que por amor. É um jeito novo de fazer as mesmas coisas. Se olhar no espelho, pousar a mão no rosto enquanto reflete, se ajeitar na cama a espera do sono e da carícia do outro. E apesar de bela, a vida é um trator deslocando antigos caminhos, devorando algumas flores de percurso, sobreviventes, feridas. Porque afinal, é o replantio no solo do meu corpo, na terra de antigos abandonos, de amores esquecidos. Mas voltemos ao presente. Tudo caminha para o que sempre esperei. Então por que os olhos cheios de adeus? É que meu desatino virou discernimento. Meus gritos viraram afagos. Em tudo uma despedida. E eu me despeço. Eu ardo na fogueira do Tempo. Tragédias e devoradoras alegrias? De novo as viverei. Mas choro nesta estação, tanto quanto sorrio e encontro. A criança que pedia infinito, hoje é mulher que pondera, que não tem só utopias, tem metas. Ainda não sei se ela conserva os mesmos mitos, se se lembra de mim, se tem rimas, se fará poesia. Dormirá com a porta fechada ou aberta? Noto, pelo contrair da boca, que a sede de céu persiste. É um bom sinal. Noto, pelos seus olhos, que ainda conserva estados de chuva, que alaga, mas que ainda é sertão em seu nordeste. Sua lua ainda curva de mistérios, pálida e cristalina, num céu púrpuro. O estertor de lágrimas que só o silêncio escuta, permanece assim, indecifrado, surdo. A solidão é um bem e um mal-me-quer eternos. Mas a vida já não é uma ilha. Há pontes, mão com mão. E o coração renova sua batida. Tum. Feliz. Frágil, mas regozijado. Tum. Hoje que ninguém vê, eu beijo o ontem. Tum. O vento descobre lembranças atônitas. Tum. E o futuro me abduz em sua nave hi-tech. A cada passo, o descompasso de marchar pelas avenidas do tempo. Ruas nos meus pés, asas no coração. Uma saudade, um novo afeto. Toma lá, dá cá. Vida devoradora de presentes. Vida canibal. De passados ausentes, de futuros latentes.

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Quinta-feira, Fevereiro 02, 2006


Filamentos

Teço os caminhos em que eu mesma ando
Rasgam-se-me as vestes cerzidas pelo Tempo
Nua, detenho dos véus da Vida
Retalhos de minha cosedura.

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Sábado, Janeiro 28, 2006


Dos imperativos e do tempo dos desejos

A noite roga que as estrelas brilhem uma última vez. O clamor é tão intenso que a luz eterniza no universo o desejo de todos os poentes. E toda noite as estrelas brilham. Não há mais fim para essa promessa de estrela. Já não há começo. Não mais se pergunta quando ou até quando. (Sempre existiu, sempre existirá). O compromisso se renova a cada geração de astros que cintilam, com a mesma força do sem início. Qual lei divina. Qual arquétipo. Qual dado da natureza. Na obscuridade incognoscível dos céus, os sóis sempre alumiam. No mistério das noites, como nos mistérios do querer, nunca mais cessa de ser última vez.

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