Quarta-feira, Junho 24, 2009


ESPIRAIS

- Eu gosto da sua voz.

- Mas eu não sei cantar.

- Eu gosto dos recônditos dela. De como ecoam os plurais, a maneira como a língua toca...

- O silêncio, o céu da boca? Não brinque com isso.

- Como sabe o que eu ia dizer?

- Não ia dizer. Eu que me antecipei porque senti vontade de me ouvir pra derrubar suas convicções.

- Só as agravou.

- Confesso: quanto mais baixo falo, mais me alcanço. E gosto.

- Alcança uma mística voragem, posso presumir. Liberdade morna, que se perde cotidianamente, convencionando modulações tolas.

- Exato, meu bem. Meu tom é de profundis, sem o qual eu sou só...

- Uma criança assustada.

- Como sabe?

- O que você é agora, fingindo surpresa.

- Eu gosto dessa intimidade forjada entre nós.

- Não é forjada a comunhão de nossos timbres.

- Ah, mas você tem voz de Outono, arrastando o dourado nas folhas, toda maviosa.

- Falou isso como um lamento, bonito, doce.

- E quando ri, faz rir o mar.

- Continue...

- O que sai da sua boca tem ritmo, atabaque, é ancestral. Cheio de desvãos, inflexões harmônicas.

- Gostou do jogo.

- Não é jogo, é música. Eu, sim, criança assustada, lembra? Sinfonia pálida. Sob o vinho ou sob a chuva, muito profana, a minha voz enverga pra puta, sem escalas. Por isso não levo a sério o que diz sobre ela.

- Mas eu gosto, já disse. Dos subentendidos imperando, como que medo, como que espanto. Incerta e silente, ela não se revela.

- É só jogo de palavras. Metalinguagem pra me levar pra cama.

- Não é jogo, é música, você disse. E não é metalinguagem, é metafísica. A metafísica da sua voz me interessa mais do que levá-la pra cama.

- Não nega?

- Não nego. O desejo. Como não nego a música. Nem o silêncio.

- E o que há entre música e silêncio? Entre desejo e cama?

- Sua voz.

- Minha voz testemunha a relva molhada onde recosto meu corpo sob a chuva.

- Chuva de novo. Onde leu isso?

- Eu inventei.

- Por que a chuva?

- Por que a minha voz?


Gotas do mar



Sexta-feira, Maio 29, 2009


Convalescente

Eu estava deitada, convalescendo; uma gripe muito esquisita, meio amidalite, meio gripe mesmo. Pensava na morte da bezerra, e na minha própria, que há dias tento respirar decentemente - quase sem sucesso - com o nariz que Deus me deu.

Deus também me deu um jeito melancólico e um ar torturado. Mania de enunciar muito estranhamente os meus prazeres, minhas aflições, como se não soubesse diferenciá-los. Acaso nem sei se sei. (Anseio que sim para o bem de minha sanidade. Ainda não me atrevi pelos pantanosos terrenos do masoquismo. Tanto melhor).

Estava deitada convalescendo com o ar torturado e melancólico de sempre, quando, fazendo a primeira coisa útil ou definitivamente inútil do dia estiquei-me longamente que sou em direção ao caderno verde para umas retorcidas e familiares palavras de evasão, despejadas, por ora, sem menor pudor, nesse inverossímil relato – livre, mas escabroso exercício do dizer.

Sem reservas, só com o resto da febre do corpo, nada metafórica, ditei o de mim, sentido e possesso: “Quando nada basta! O amor, o sonho, esse pranto da noite, a infância abstrata na memória, descosturando teus dramas... É que a vida...”.

Estaquei nesse ponto, desordenada como de costume, pensando no caráter desolador de ter no meu corpo vestígios não metafóricos de febre, além de sintomas nada poéticos que o vernáculo também não poetizou: coriza, tosse, dor de garganta.

Afoita que sou! Tão célere escrevi, rabisquei minhas linhas, afrontada com meu afrontamento. Elencar assim, num só e irresponsável jacto, num dia de insólita convalescença, meus termos essenciais: amor, sonho, infância, memória, drama, vida.

Martirizada pela audácia, desacorçoada pela incompletude de palavras que não pensei, mas senti, e assim quase sempre, pela febre sem metáforas, retorci foi o meu lírico pescoço: Tão urdida na trama da vida! Por que assim: tão funda, tão ferida? Quem você pensa que é? Quem foi que te feriu assim para aos vinte e poucos dizer: ’quando nada basta!’? Que afrontamento! Tão penosamente o pranto!

Quem deslocou meus moinhos de vento? Não sei. Quem os inaugurou à moda quixotesca? Tampouco a resposta. “Toda palavra é propícia. Se tem chama, ou se tem drama”, devolvi com a caneta desenhando as letras no papel. Ou seriam os moinhos?

Sabia e sei o fundo disso tudo. Lançada elas vêm, acesas desde o nascedouro. Mas não hoje, num dia vago de doença, não assim: “É que a vida...”. A vida o que? À vida os seus montantes mais vultosos que a sentença não dada! A vida por viver!

Não há possível equilíbrio na relação que estabeleço com meu texto. E às vezes cansa ou assusta a urgência adolescente com que as gaivotas aos meus pés pedem céu. Assusta e cansa sim, dar-lhes sempre e incondicionalmente o pouso mais fundo, partidas para marés nunca exatas.

Porque há dias em que certas palavras devem dormir o seu sonho fecundo, sem urgência. Dormir e convalescer, sem pressa a sua febre menor. Se não vira um pendor que me move a perder o chão. O mesmo chão em que pouso sem motivos esses meus pés de gaivota faminta. Eles partem para tantas vidas, não é? “É que a vida...”.

Não há tolerância para meus desregramentos poéticos. Motivados por enunciações, metalinguagens, dizem-se, à luz do dia, da noite, da morte. Assim eles são. Alucinados relatos das veias, que tossem as minhas falas pouco lúcidas, exasperadas da poesia incauta e virótica que lanço às febres de mim. Em mim.

E sem mais, convalesço. Eu convalesço de existir.

Gotas do mar



Segunda-feira, Maio 25, 2009


Fronteiras

Toco tua matéria com o pudor de um asceta. Obsceno afrontamento. Não obstante diametralmente oposta, persigo-te, musa dos pragmáticos, dos cartesianos. Prolíficos resultados guiam tuas estratégias. Eu abrevio minha selva. Desbasto a rocha, esculpida em nervos lassos. Mas meu cinzel é o grito. Remodelar essa pedra é matar vertigens, auroras que calo pelo abandono de desejos que não me evocas. Teus calendários, justa proporção de números, de estimativas, aturdem o atemporal que há em mim. Ainda assim te busco, desarvorada, mas reverente, talhada em raiva - a raiva que eu te tenho pela não consagração de nossos incompatíveis símbolos -, e mesmo autômata de tua perfeição, faço ritos para te alcançar. Sou das nuvens, dos cios. Carnes me vestem. Por isso, sonho. Não concebo retas; escorro, sinuosa, por arestas que talvez sejam nunca polidas. Inconforme, imprecisa. Avanço a ti, determinada em meu silêncio, mistificada pelo medo, lânguida, aflita. E o que me provocas é o que tateio em tua amorfa matéria: nadas sem rosto. Enquadramentos, perfilhações sem parentesco com o amor. Sinto que também me torno ora indefinida pela vital fronteira que ultrapasso, ferida. Tecnocrática, sangro. Só até que haja escândalo. Colore meu sangue impossíveis promessas.

Gotas do mar



Quinta-feira, Maio 14, 2009


Amálgama

A vida me persegue com seus timbres
Roucas vozes do acontecimento;
Nada me amedronta mais
Que a face intacta das coisas.

Tomo de açoite o banquete das rosas
Oásis de brancura estendem-se
Em escarlates ensandecidos
De-lírios à veia acesa.

Restam desertos
Que o sol, tresloucado
Chama de poemas.

A areia arranha o silêncio do pêlo e sua
Mistura de sal no sentido da pele
Perduram águas.

À sina de mim
Amálgamas vertem suas misturas
Que a pureza dos olhos
Chama pássaros

Circundam o mel do corpo
Venta, na eriçada
Flor do ventre.


Gotas do mar



Sexta-feira, Março 20, 2009


Tenho muitas ternuras pra contar. Palavras de sonho e sensações. Enchi uma pasta de euforias líricas, sóis desgarrados do ventre da poesia. Impressões brancas, douradas, carrego dentro em mim. E tenho, por cúmplice, a poeira das ruas, seus faróis, gente de todo lado, apressando passos, sujando muros, labirintos onde cabem faunas, melancolias.
Minhas ternuras, elas não me cabem. Cabem na noite, nos meus hinos. À cova da razão, minh’alma lavada em selva escava desejos na ventania. Dona de uns leopardos olhos, acesos na noite, fundo as raízes do meu sonho.
Tenho vilipendiado meus ardores. E, por isso, acumulado numa burocrática pasta a pressa d'alma insone, cheia de rubor. Ternuras muitas, recendendo chamas antigas, vastas dádivas da fome.
Sagrada ao rito, logro observar encantos na mão que pousa, feroz, letras foragidas da minha promessa de música.
Deus me quis aturdida e terna, repousada em versos bravios, maré alta; coisa acontecida em becos, açoitada pelo tempo.
Funda a incompreensão do meu discurso. Sentidos de abismos, versos, vertigens. Que víscera no visgo desse timbre? Modulo mansa nunca nula as minhas vísceras. Carrego o dizer como o destino infindável que abarrota meus muitos armários psíquicos, pastas da mente ecoando: abram alas, é vulcão.
Ternuras insondáveis. Teço, farejo na poeira das ruas, nos olhos desgarrados do ventre da poesia: sóis, leopardos, apressando passos na noite. Enchi uma pasta de ventanias.

Gotas do mar



Segunda-feira, Março 02, 2009


A fim de versos

Em Setembro do ano passado fui convidada pela Leila Andrade para participar com um texto na edição da revista cultural eletrônica Diversos Afins, da qual ela e Fabrício Brandão são os editores, ou "leveiros" como mais inspiradamente definiram. Não conhecia a revista, que me encantou pelo esmero de ambos na seleção dos autores, enfaticamente poéticos, mesmo em prosa. A densidade e qualidade dos textos me impressionaram e continuam impressionando a cada mês. Contos, crônicas e poemas abraçam-se num maravilhoso exercício de desarrumação de gêneros e fruição estética. Também destaco a abrangência cultural do e-zine, reunindo críticas musicais, resenhas sobre cinema, ótimas entrevistas literárias, trabalhos fotográficos comoventes e sensíveis pinturas de inspirados artistas. Nessa última edição tenho a honra de fazer parte uma vez mais desse trabalho. Aproveito para mencionar o fato e divulgar a revista. Vale a visita.

Gotas do mar



Terça-feira, Fevereiro 17, 2009


Daise gentilmente me convidou a participar do meme seis coisas sobre mim. Seguindo as regras, conto seis fatos e/ou confissões aleatórias sobre mim. Feito isso, indico ainda seis blogueiros para participarem, publicando eles também o selo que identifica a brincadeira.


Seis fatos e/ou confissões:


1. Não há dúvida de que minha ternura provém das Minas Gerais de meus avós. A delicadeza comovente dos olhos verdes da dona Olga, o amor com que ela executava cada pequena tarefa – cortando couve, falando dos mistérios de Deus –, transformou-me num coração ávido de beleza e poesia.

2. Nos últimos tempos meu domingo ganhou novas cores, delineando abraços que não antes. Domingo costumava simbolizar sólida solidão. Virou agora aquilo que se vive junto. Resume a semana, representa o amor.

3. Eu tinha uns seis anos quando escrevi: “E foi infeliz para sempre”. Infeliz é a história do passarinho que cai do ninho assim que nasce e é levado pra longe dos pais pássaros. O destino de toda a vida passa a ser a busca pelos genitores. Quando finalmente consegue voltar ao seu local de origem, descobre que eles já estão mortos. Dramática desde o berço, comparti veementemente a tristeza inexorável da avezinha. Senti-me vulnerável e mortal, talvez pela primeira vez.

4. Ainda de posse da Thalía que sempre me habitou, vivi dor profunda quando descobri que a história do miserável bom velhinho dos sonhos de Natal era só uma fabulazinha para aguçar a imaginação principiante de fedelhos – ou traumatizar infantes como eu. E como as crianças às vezes são cruéis, um amiguinho de escola me revelou a verdade com um tom de superioridade condizente a uma criança ferida em sua boa fé, e uma autoridade incontestável que sentencia: “foi meu pai que me contou”. Mas foi a minha mãe quem teve que ouvir: “Por que você me enganou todos esses anos?”.

5. Calada e curiosa como sempre fui, fiz do meu instinto de observação um hobby, uma necessidade. Escolhi observar velhinhos passantes, especialmente em praças. Encantam-me olhares, mesuras, sabedorias. Enternece-me a maneira obstinada com que, frágeis, agarram-se à vida, amando-a vigorosamente. A elegância de muitos me leva a um tipo diverso de saudade, genuína como as demais, só que diferente: saudades do que não vivi.

6. Tenho uma memória esquisita. Ela é arbitrária e não caminha no sentido das minhas reais necessidades. Sei que a memória é emocional, mas até minhas emoções me extraviam de mim. Numa época de abundância de informações e tempo escasso, recordo muitas vezes irrelevâncias. Mas o que verdadeiramente me aguça o sentido de lembrar é certa facilidade – hobby novamente – para a memorização de rostos. São variadas, numerosas as fisionomias que eu gravo, quase sempre sem me esquecer. Rostos sucedidos por eles mesmos no acréscimo dos anos. Em filmes, em ruas, em fotografias, álbuns, blogs... Tornou-se um desafio pessoal buscá-los na memória, projetar no tempo as feições, reconhecê-las ao limite da exaustão – e da graça da brincadeira.


Seis blogueiros que convido a continuarem o meme:

Adelaide, Angel, Guto, Juli, Lany, Mônica Montone.


Gotas do mar



Terça-feira, Janeiro 13, 2009


ARPOADOR



Lembro de tantos poentes
E todos doces
Melancólicos azuis de meu pai
Despedindo-se na explosão laranja da tarde
Lembro de tantos
Lembro tudo, sempre
Olhos pregados no ocaso
Absurdam vastos
Coloridos, cinzas, lágrimas
Comezinhas aves
Infância entre porvires
Livres matizes
Pôres-do-sol
Magnífico declínio do tempo
Aquarela lenta, generosa
Até o último feixe-luz
Lembro devotamente
Tantos
Todos doces
Poentes


Gotas do mar



Quarta-feira, Dezembro 24, 2008


Na tarde de verão

Caminho pela praça, cotidiano cenário. Quão dourada! Absurda, bela. O tom grandiloqüente revela o momento raro. Pombas sujas aturdidas de sol, céu de um azul arrebatador, algazarra feliz de infância, pula-pula, gangorra. Clichês. Não há clichês. Meus olhos têm a pureza ávida dos de um cego. Eu sou o espanto que ele sente se logra enxergar.

Surpreendida com tanto sol, dou-me conta de que finalmente é verão no Rio de Janeiro. Depois do castigo de muitas chuvas, e um cinza recorrente que desagrada cariocas, que tarde magnífica! Sorvete à boca e menos roupa: a alegria é geral, e há alívio que harmoniza todos ao redor.

A poética dos espaços públicos me enternece nesse fim de tarde, pós-trabalho. Nada exaurida porque não é pra tanto, eu me sento num banco verde, para mais minutos de encantamento. Meu companheiro de banco, um velho de olhar delicado e pele áspera, nem se dá conta de que cheguei. Eu não sei se ele tosse ou o quê, faz um barulho atípico, que por mais atípico que possa vir a ser, nunca ouvi ninguém fazer. Meio que tosse, enquanto acena pros seus conhecidos de praça e tarde, pras crianças que o olham com curiosidade. Quase sorriem. O sol parece ser tudo que lhe sobrou na vida. Não há nisso melancolia ou amargura.

Sob o mesmo sol, tudo o que sobrou da poesia desacontecida em meus dedos. Escrevo uma saudade com palavras de pássaros e meninos, uns versos quase belos, como em: sei da pele que goza o delírio do sol. Saudade misturada à ausência e à falta de tempo, ao pragmatismo de viver que inviabiliza a minha inspiração. Eu deixo pra depois e vou seguindo a jornada dos dias.

Hoje eu não deixo. O calor acorda os instintos, e é com instinto que eu escrevo. O azul do céu diz coisas impossíveis, que eu entendo. Ponho nos olhos a mesma ternura silente dos velhos que eu vejo daqui. Viveram muito, saúdam a quase partida, como quem acaba de chegar. Lambem a vida, vagarosamente, com sorvete e delícia. Tossem, sorriem. Viveram tanto! E têm uns olhos de criança.

Há pouco, tentei dizer tudo quanto foi verso, mas parei. Disse da euforia calada de viver sob o calor de quase quarenta graus, no fim de um ano em que tudo deu certo, e eu me rendi aos perigos da vida. Depois misturei com palavras sentidas e anunciei: acontece o gorjeio da ave na minha emoção. Desisti de dizer porque quis sentir o instante, não o dito, o vivido. As palavras, elas intensificam, mas também escondem.

Amanhã eu faço vinte e sete anos. Escrito assim, por extenso, quase me assusta. Eu sou uma menina ainda! Acho. Eu sou uma mulher crescendo, tímida e feliz. Vinte e sete anos: Isso dá quase dez mil dias. Dez mil dias! Eu não sei o que são dez mil dias. Eu não sei nem o que é um dia!

Amanhã vão me abraçar e dizer coisas bonitas. Eu vou me lembrar dessa tarde, e da Dona Menininha, que assim eu chamo por ausência de nome.

É que Dona Menininha faz aniversário amanhã, como eu. Eu faço vinte e sete, e ela, oitenta e quatro. Isso dá... Desisto de contar. Isso dá uma porção de dias.

Dona Menininha chega com sua roupa de verão, passos de quem não se agüenta. Minha nova companheira de banco de praça vem escoltada por duas moças que não parecem suas filhas. Muito atenciosas, pedem o lado mais à sombra do banco para que tão frágil ser possa se recostar. Mas com esse sol, ninguém escapa.

As moças, que devem ser empregadas da senhora menina, compram-lhe sorvete. Eu ouço música, porque desisti de escrever, capturada pela cena.

Dona Menininha toma um sorvete rosa, e olha o mundo com olhos castanhos e meigos. A imagem é tão bonita quanto o azulzinho do céu, limpo e pregnante. Ela olha o mundo, frágil, dolorida. Chegou aqui dizendo: aaaaaai.

Os instantes passam, percebo que ela já não dói. Distraída da vida, nem se dá conta de que a pele arde. É que a alma, purificada de sol, regozija-se no doce da boca, no encanto dos olhos.

Ainda entremeio uns versos na cabeça, costurando poeira e ternura. Eu olho o amarelo-metáfora-de-sol na camisa de uma criança, e esqueço, por instantes, dos que me ladeiam.

Eis que ouço: amanhã é o aniversário dela. O vendedor de sorvete, igualmente velho e poético, diz alguma coisa com um sotaque não identificado, depois sorri. Olho pro quarteto, sem acreditar muito. Com mesurado espanto, escapa-me: é o meu também!

Adentro à cena, sou personagem. E para o meu espanto, ninguém se espanta, sorriem pra mim, alegremente, como se soubessem o que eu ia dizer. O clima de filme do Almodóvar dá mais cor à tarde: absurdos acontecem, é natural.

No breve desenrolar que se segue, perguntam minha idade e me dão parabéns. Com alegria natural e sincera comentam dos quase oitenta e quatro anos da patroa ou mãe. Capricorniana como eu, Dona Menininha frui seu sorvete com vento, alheia e misteriosa.

Poucos minutos se passam, mas logo me despeço. Carrego ternura até não poder mais. Ela atinge seu ápice cá dentro do peito. Preciso do esforço das pernas, pra sustentarem minha estranha doçura. A travessia pelas ruas de todo dia é lenta, apresso meu passo, não chego. Há um mar que atravesso: encontros, coincidências, passagens.

Minha imaginação, brincalhona e volátil, vem logo acrescentar que há quase três décadas eu e a menina dona nos encontramos numa praça como essa, lá no céu. Combinamos esse breve encontro, e assim como hoje, sorrimos uma pra outra, felizes, e desgovernadas.

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Escrito no final da tarde de ontem, com o despudor da inspiração que anseia tomar corpo. Tomou corpo, um corpo quente, suado, amoroso. Verão que se abriu infinito, sorrindo pra mim. Dedico essas linhas a Dona Menininha, que nunca as lerá, e foi fonte temporária da minha inspiração. Dedico, principalmente, a todos que eu amo, e que me ajudaram a transformar o ano de 2008 num período muito especial da minha vida, cheio de realizações. Obrigada por cada sorriso e cada aposta de felicidade. Brindo a tudo que virá.


Gotas do mar



Sexta-feira, Setembro 05, 2008


Eu sou aquela que, aflita de estrelas, carrega silêncios na pele; morena ou pálida, pequenos sóis, dignos de nota, ou de poesia. Tenho sabedoriazinhas, palavras, lágrimas que alimentam o mar, quando mergulho. Indiferenças, não muito diversas, obscurecem as noites minhas. Mas a noite não traduz as indiferenças que carrego, porque ela é crua e densa, funda e fecunda, cheia de honra. O que eu tenho quando assim é uma sombra de pequenos detalhes, que passam. Meu sorriso de beira de estrada é desabrido, doido, colhido da vertigem de um pássaro. Meu riso, tímido e nu, menina-moça que enrubesce, se obscena. Minha voz é a face apagada da lua num amanhecer, que reflete certo brilho, longínquo. No fosso escuro da noite, flerto com o abismo, e muito lúcida, alucino. Carrego sentidos de elementos primários: minha tarefa desde há muito é sentir o fogo na dança das palavras, a terra, na lavoura do texto. A brisa de correr insufla o ar no mar das letras. Sofro de selva, de doer, de sorrir, de me iludir, de viver: por isso eu vivo. E os meus olhos, esses faróis castanhos de ver mundo, brilham, silenciosamente, nas minhas aflições. Por isso seis bilhões de solidões, aflitas e humanas estrelas, conversam, existem comigo, por isso alimentam meu mar; eu, que sou aquela que, sem saber muito bem por que, ou até quando.

Gotas do mar



Terça-feira, Agosto 19, 2008


Na dança rendeira da agulha, meus dedos cingem, ornam. São fios. E sangram. A costura no branco da folha. Virgens, meus dedos bordam. Desabotoam, e por isso desabrocham. Desenham a lápis, contornos, dobras.
Sangram, num retângulo cheio de vincos: páginas perdidas. Rematam, retalham, fiam. Porque é tempo de fiarem. Porque é tempo que dá liga, é tempo.
Meus dedos, que souberam, que fiaram outras histórias, desenvolveram, outrossim, o árido trabalho da espera. E esperaram. E fiaram - dessemelhantes tecidos. E cortaram. Meus dedos sangraram.
Cada légua de tecido que cosi - coser é o meu dom, desvesti-me de mim. Só em parte - as anáguas eram minhas.
Eu, que sou todas, mas sou só eu mesma, vesti metros do mundo que quase nunca me coube. Somos nós dois, hoje, a linha, a fibra.
Eu, que sempre vesti o meu dentro, vesti o meu fora.
“Tudo está vestido de solenidade e nudez”¹. É, Sophia, eu me vesti para poder ficar nua. Revesti-me das tessituras férteis das planícies, já que abismos sempre me cobriram.
Vestida de mundo, ciosa do desejo dos meus dedos, não fui, não voltei. Estive. Liguei. Uma bainha, um fecho.
E o meu coração, sem desfecho, ritmo do meu sangue, extensão dos meus dedos - que sangram -, o meu coração rajado de fusões está aqui, peça principal, modista da minha poesia.


(A poesia me conserta, e desconcertada, eu conserto a poesia.)


¹ Sophia de Mello Breyner, As Grutas.
Fotografia de Mira J., extraído deste blog.



Gotas do mar



Quarta-feira, Janeiro 03, 2007


O infinito a minha frente pede
Olhos mareados de horizontes,
Meus limites não diviso
Senão no que concebo da vastidão de mim.
Contenho extremos de estrelas de céu mar
Faz mistério de leste a oeste.
Gigantesca, aposso-me da brisa,
Do sol derramado,
Das peles que queimam verões.
Antes de chegar o amor e arrasar
Com toda simbologia marítima,
E me fazer crer que a imensidão vagante de mim
É você, que gira gira o sol,
Perfuma minha pele,
Gira gira o amor por dentro,
Do que contemplo nessa tarde já ida
De pássaros e de meninos.

Saciai-vos:



Sexta-feira, Dezembro 22, 2006


Do meu pai herdei os olhos de poeta e a imaginação de sonhador. Do meu pai os cabelos, pernas, pés e melancolia. Esta ausência de tudo, distraída, e o sorriso maroto. Do meu pai herdei o amor de minha mãe.
Da minha mãe herdei a postura, o falar manso, a voz pausada e a maneira de vestir. Da minha mãe a ansiedade, o amor fecundo, o carinho imenso.
Síntese dos dois, surgi assim, meio poeta, meio menina. Tímida e sacana. Delicada, intensa. Carioca e mineira. Mar e montanha.
Dos dois o amor ainda adolescente, um medo avivado no olhar. Refreio, sublimidade, profanação. Uma ousadia tímida, mas ousada. Uma forma inaudita inaugurando a imensidão.
Por causa dessa mistura quis o destino ou Deus que eu fosse abstrata, metafórica, notícia velha, desde menina, memória. E grata eu sou pela confluência destes rios azuis que são meus pais, um meio anjo, outro pássaro. Este, coisa aturdida, aquele, flor em rubro instante.
A minha história é um pouco da trajetória deles. O meu ponto de partida é um ato de criação. Por isso invento meus dias, meus sóis de Van Gogh, por isso o meu arrebatamento ante as coisas que não existem, senão na imaginação. Amo o que foi, e o que está por vir. Meu presente é invenção dos dois.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Dezembro 20, 2006


Sei que um dia quis ser ave. E que de menina trago os olhos cheios de espanto. Perplexa ante o mundo que sinto pelas pontas dos dedos e pela profundidade do coração. Sei que essa ave, símbolo da liberdade, voou por aí. E que vem me buscar nas noites de sonho sereno, nas noites de lua, nas noites negras como o negro dos olhos que ostenta esse bicho lindo. É mais que um símbolo, mais que paixão, é a identidade de uma alma aprisionada a um símbolo, a um rudimento de alma, que é o que os bichos têm. Rudimentos cá e lá. Porque é inegável a afinidade que sinto com as coisas nascidas num silêncio de instante, de instinto. E o que se ouve da morte? O que se ouve da vida? O que se ouve dentro do homem, do bicho, dentro do mistério de Deus? Olhos cheios de espanto, olhos de perplexidade pelo mundo acometido. Olhos de acometimento. Escrevo o mistério da ave, e ela é o meu mistério, o mistério de um amor.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Dezembro 18, 2006


Sono em suspenso, madrugada quente. Suor nas idéias, pensamento insone. Lembranças remotas, semi-vividas, que não me trazem nenhum tipo de saudade, mas o desconforto de não terem tido desfecho. Nem materialidade, quantas vezes. Saudades tenho do meu ardor juvenil, confesso, desse suor que hoje sua novamente a face, acelerando as sensações, oferecendo-lhes textura, cheiro, semântica. Oferecendo-lhes poesia. Sim, saudades do gosto, do rosto, de antigos trejeitos, transeuntes das minhas ruas, ou bichos das selvas de mim. Ainda assim, sei que não trocaria de instante. Este o mais belo... Encontro no meu presente tudo aquilo com que sempre sonhei. Beleza, reciprocidade, afeto. A história outrora aguardada. Construo o que há de mais sublime na existência. Sou fiel a tudo isso, a eternidade desses sentimentos, ao tanto que me renovam, e também resgatam a verdade de menina, que sonhava o amor. Carrego um sem número de reticências, mas também vou fechando lacunas, acrescendo pontos finais. Abrindo parágrafos, preenchendo páginas de um branco tão pálido como eu, com o sol do amor que faz em mim. É (pra sempre) Verão.

Saciai-vos:



Domingo, Novembro 26, 2006


E de repente me lembrei. Assim, subitamente. O coração quis o beijo devorado pelo tempo das coisas tardias. A alma ficou mansa, grávida de um desejo bonito. Perigoso querer, na alvura destes instantes. Galopes e saltos das emoções ferinas. É que cabe acontecer deste jeito, perdidamente iludida de amor. Principio na descida de mim, e é tanto sol! Queimo, ardo, às vezes sufoco com tanto lirismo. Tenho medo de ser ferida, porque o meu instante é o das coisas breves, eternizadas pelo momento poético. É tão fácil que pareça leviano, mas é trágico porque não há rendição, muito menos modo de escolher.

Saciai-vos:



Segunda-feira, Outubro 16, 2006


Hoje o dia está lindo. Eu olho pro sol e acho que ele quer me trazer alegria. Me mostra o poder do dourado na pele, as flores que vicejam por sua graça. Eu o enfrento de igual pra igual, em minha soturna palidez. Mas o sol escapa ao meu entendimento, e eu ardo. Simplesmente. Sou agora uma de suas presas, me visto de amarelo. Só imagino o mar que daqui eu não vejo, um azul profundo como os olhos da minha bisavó. O tempo não está para saudades, mas para ações. Ainda assim, uma e outra saudade latejam no meu ser. Queria poder brincar de encantos. Minha magia seria assegurar poesia para as próximas gerações. Eu cuidaria das sementes e das primeiras safras. Uma plantação de vernáculos líricos, estrofes fertilizadas, versos bem nascidos. Todos os dias, poemas seriam concebidos. Meu ofício, comum a outros, continuar a sonhar. Sem medo de arriscar universos fantásticos, e de fugir à verossimilhança. Hoje sonhei com livros sagrados escritos por homens comuns. Sonhei com uma nação justa, com diferenças que eram somadas, mãos que ajudavam outras mãos. Delirei de esperança. Acordei e o dia estava assim, lindo, sorrindo pra mim. Torço para que seja um sinal.

Saciai-vos:



Quinta-feira, Outubro 05, 2006


Sorrio pra manhã nascedoura. Tenho no rosto o resultado da noite sem sonho. E há tantas chagas nessa olheira secular. Há histórias de caminhos perdidos, de outonos sem testemunhas, e de primaveras só há pouco germinadas. É mistério este doer imaculado, sereno, quase uma conseqüência de viver. É um doer manso, dor de parto, porque cada instante é a vida. E não se traz ao mundo sem dor. É isto, portanto. Estou sempre trazendo ao mundo este eu mesma cheia de emoção. Vivo às vísceras, às vésperas de mim. Sou o que está pra acontecer e o que não serve mais. Sirvo pra sonho, pra paisagem, pra ventania. Sirvo pra poesia. "A poesia é o presente", versejou Ferreira Gullar. A poesia é a minha inteira, de cada sorriso matinal abrindo as cortinas do mundo ao negrume da vaguidão insone. Sou esse eterno metaforizar-me. Sinto esteticamente. Consisto em criar. Minha existência é verbal, os caminhos do meu mundo são flores feitas de palavras. Meus jardins são frases inteiras. E a cada letra que nasce, revivo em mim a certeza etérea que justifica meu viver.

Saciai-vos:



Quarta-feira, Julho 19, 2006


Meu rosto relembra suas mãos na distância do contato. Ele é a terra para o seu plantio. É a promessa da flor que você colherá. Colhe, pois, flores de mim, nas faces encharcadas de poesia e lágrima. Colhe esse viver cheio de pranto e medo indócil. Vele por mim, pelo meus ventos, que remexem crinas, destrançam cabelos, espalham as sementes que sonham com pétalas. Me ensina a fertilidade do sorriso. Vem sazonar meus frutos, cultivar minhas plagas, chover sobre mim. Vem pra me fazer sua. Vem que eu preciso tanto. Vem que há relâmpagos, e os granizos ferem. Há um assombro na menina dos meus olhos. Há um rio nascendo nesse castanho cheio de amor. Transbordando a alma, nutrindo meu amanhã. A vida me arremessa frágil sobre os campos do mundo. Sem grãos, sem sementes, sem terra. Só com o sonho da flor. E com o sonho da flor eu faço um jardim na sua alma. O sonho e a flor você colhe com suas mãos de ternura. E o impacto de tudo o que não sei e sinto fortemente nas artérias e no incorpóreo ser, faz na minha alma uma paisagem a mais.

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Terça-feira, Junho 20, 2006


Graça natural de quem possui uma delicadeza. O efeito dela sobre mim, compondo em meus dias sinfonias de acordes perfeitos. De acordo com o coração. Felicidade que inaugura com flores o presente, apruma o olhar para o futuro, quer para sempre, sabe dentro, mora onde há chama, deleita-se de bem querer. Quase consigo entender como uma grande alegria também dói. Devagar, surdamente, como ser humano e querer ser anjo. Como ser anjo e desejar ser terreno. É sublime e carnal. Depois dessa dor que não é bem dor, o corpo aquieta. E então, sorrisos. Apenas sorrisos. Dentes, olhos, duas bocas, alma presa à alma, e uma certeza milenar. E o que mais sei, se não que amo? Amo. Logo, sou dela. O que mais sei? - pergunto-me. Registro que sou esta, mulher atravessada de carinhos, de novos sóis, consagrada ao que restou de mim, nesta fusão de sentires, neste enroscar de pernas, no que nunca mais é abandono.

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