Quarta-feira, Abril 07, 2010
Wordpress
Como a maioria, estou saindo do Blogger Br. Mantenho o mesmo nome do blog mas o endereço agora é:
http://sedemfrenteaomar.wordpress.com
Depois de tantos blogs e endereços, quero ver se centralizo os meus arquivos lá.
Terça-feira, Abril 06, 2010
DILÚVICO
Certas situações me trazem a oportunidade de observar tipos esquisitos – entre os quais me incluo, vagando por aí, tornando insólitas as corriqueiras situações. Nada assombroso, apesar do adjetivo escolhido. Muito menos cinematográfico, na linha dos filmes de ação. Se cinema, intimista, com sua carga adensada de subjetividade, ângulos que insinuam, quando muito.
Destarte, o que há de insólito e peculiar nesse dizer sem ação é o olhar, ou o próprio desacontecimento das palavras que o guardam, um jeito agudo de ver o mundo, o gosto pelo banal a fim de escorar o profundo – canais que se abrem.
Decidi pôr o pé no mundo, por puro instinto de algo ainda não decifrado, nesse dia em que o Rio de Janeiro desabou. O mantra do Lula, de que nunca antes na história desse país blablabla, encontrou algum eco em São Pedro. E por isso talvez hoje seja verdadeira a reflexão que alguns já fazem de que nunca antes na história dessa cidade choveu tanto.
Não saí de casa motivada por sentimentos nobres ou belos. Nem pela urgência de abandonar a minha casa. Não salvei a vida de ninguém. Quis ver o mundo antes que ele acabasse. As ruas tomadas por águas e correntezas, agora amainadas. Quis também proteger uma menina do risco ínfimo de andar sozinha até o fim da rua. Estranhas razões me lançaram. E o único fato que eu narro é a sem-história de escolher um dia estranho para ir a uma papelaria.
Não fui trabalhar, como muitos cariocas no seis de abril. As ruas desertas e cheias de lama que eu vi pela tv, essas eram assombrosas, com seus vazios de fim de mundo. Vi muito e outro tanto imaginei. O pouco do que me pertenceu como testemunha ocular de fatos ou factóides foi um fim de dia invadido pelo mistério que envolve tipos esquisitos em situações inusitadas, sobre os quais depois se debruçar com imaginação.
Se eu fosse razoável pararia agora de escrever. Há muito que fazer. Sempre há. Há ruas pra limpar, quartos pra arrumar, muitas coisas esperam ser recolhidas, organizadas. E assim se limpa, se cata, se arruma. Assim se leva uma vida. A falta de sentido e o tempero que fornece o desajuste são bem visto por poucos.
Mas o que restaria de mim se eu abortasse aqui a fecundação dessas palavras? Um buraco aberto, do tamanho das crateras fendidas nas encostas pelas chuvas. Nisso não o exagero, mas lúcida e calma constatação. Por isso eu continuo, motivada pela cadência da própria chuva que também não se interrompe de chover. E porque eu de certa forma chovo, porque esse dizer se infunde do espírito da observação ou mesmo delira, é preciso que eu siga.
Chegando à papelaria, após pular poças, sentir o viço de ventar com a chuva, gritar por quem não me ouviu, finalmente alcancei aquela a quem ofereci a frágil proteção de meu ser molhado, atordoado com o barulho de um alarme acionado a cada entrada ou saída de clientes, fugitivos da chuva.
Fiquei ali, inquieta, querendo o acontecer das coisas, não a dança enfadonha de mãos passando as páginas dos livros, a luz da máquina copiadora, a camisa molhada do dono da loja; um obstinado, único a abrir o comércio nesse trecho da rua.
Acentuada a chuva depois da breve trégua, entra o tipo esquisito, meu subterfúgio da vontade de escrever, um homem improvável pela sorte de coisas levadas na sacola. Leva consigo livros e café, uma carteira encharcada, moedas. Jaqueta de couro, um tipo perdido, como eu. Retira da carteira o documento, faz o que deve ser feito, diz o que deve ser dito, sai do estabelecimento com a sua cópia. Vai embora do mesmo jeito que entrou, envolto em mistério.
Que travessias o levam? Por quem a loucura de livros e café na sacola úmida? Não é um insone. Também não foi trabalhar. Me parece que vagou nas horas desse dia pela cidade, colhendo impressões de percurso para depois emaná-las na fumaça do cigarro que eu não vi com ele. Não me responderia com "passei a noite acordado, abandonei o carro por aí". Talvez dissesse: "eu andei muito, mas muito pouco eu vi".
Não é bandido, não é moço, nem se assemelha a um vizinho. Algo me diz que vagou muito até chegar aqui, nessa loja que exibiu durante muito tempo a placa de "vende-se”. Não foi vendida. Os donos se mantiveram os mesmos: secos, educados, calados donos que abrem a sua loja no dilúvio. Tão chovidos que somos, dilúvicos. Eu, o tipo estranho, os donos da loja, a menina por quem gritei. Todos sem saber de si os destinos.
Muito de invenção? E se eu capturo o sumo do que não se diz? E se o homem, estranho tipo que inventei, mora por aqui mesmo, e compra livros no dilúvio para inspirar seus filhos e depois mantê-los acordados com café para as muitas histórias que virão?
“E se...?” E se não há “se...”?
Ele vai embora e me leva a história. Eu vou embora e o levo comigo. A chuva não lava a cidade, a chuva a maltrata. As sirenes já esparsas invadem a rua com o som do desespero que elas têm. Muito há nos transbordamentos que não escorrem como as chuvas.
Gotas do mar
Quinta-feira, Abril 01, 2010
Pequeno manifesto
Não compactuo com toda sorte de pessoas que renegam seus martírios para auferirem a leveza como status. Leves é que não são os seus acordos com a consciência. Incongruente como um ateu a entregar ex-votos, quem não lima o coração não reconhece o próprio sangue que lhe é seiva da vida.
Complicada a paz de quem se expropria de si, exibindo o verniz nos sorrisos, alienado de suas funduras, por temor de esquadrinhar labirintos. Que não esqueçam: do abismo vê-se o céu!
E se a vida, assim como a alma, não se afiguram só tensão e densidade, também não se definem pela inabalável paz de espírito.
Há grilhões perfazendo voos, furúnculos nas carnes tenras, prazer aterrado à dor, obsessão travestida de certeza, uma tonitroante infinidade de gemidos ecoando em quem diz são.
Não aceito que escorracem os temores, as doenças, a virulência dos possuídos. Há que se ter paz mas também que se aceitar perdido, sem desfecho, desfalecido.
Não por um modo poético e portanto fugidio de remetar às loucuras. Preserva-se de algum modo quem se abisma, encara seus bichos arredios antes que eles lhe abjurem. Pode não ter volta. No entanto, muito mais fácil retornar quando se conhece o caminho.
Necessário devolver aos muros o seu lugar. Porque em algum momento estivemos todos em cima deles. Há que se respeitá-los como também promover-lhes a derrubada, impregná-los do bálsamo satânico da discórdia.
Encerrar-se num cômodo vendo-se mundo, apequenar-se no infinito das massas, sofrer o vazio e a imensidão de Deus, dogmatizar-se. Ser acometido de razão.
Não corroboro a idéia de que viver seja fácil. Nem por isso morreremos aos 20. Também não é simples, mesmo sendo a simplicidade um atributo da sabedoria de viver. Viver tem muito do flagelo da paixão.
Eu peço coragem. E a coragem de ter medo. Que ninguém me diga que é preciso sempre acreditar, ser contente full-time. Esse tipo de harmonia obscena, constrange, porque é qualquer coisa de invenção, que não artística. A harmonia tem de vir como música, encadear acordes. Ser um acordo íntimo, não uma imposição.
Ela costuma acontecer com quem se particulariza, depois se funde como humano ser. Com quem se busca com obstinação, e com nuances. Amigo não complacente das próprias fronteiras.
Gotas do mar
Sexta-feira, Março 26, 2010
Travessia
Ecoam lentos certos cantos, não obstante a ânsia por ouvi-los. Devoram. Devem ser decantados. Em nome do que? Do tom, do som, do prazer.Eu sigo riscando o que digo. Demolindo frases, encurtando sentenças. Só assim têm reverberado. Tudo áspero, imediato. Mas o desejo é de enchente. Continuidades que não chegam. Contiguidades que eu ataco. E se eu escrevo "eu te infinito tortuosa", isso é uma travessia. Folhas que se consomem. Flores fósseis que despertam. "Azucrina o teu cabelo de égua". Ecoa, lento ecoa o canto. Demora maré que me sangra.Acontecendo na vida os meus sussurros. Pra me livrar do tormento, pela salvação, pelo fetiche. Jogo de azar. Mormente o pranto. Esgarço a teia do dizer movendo brisas enfurecidas.
Gotas do mar
Segunda-feira, Março 15, 2010
Renascimento
Olha-me, em estertor, uma mulher: ardente, vital, um rasgo de entranhas. Como se, numa selvageria, arrancasse do peito um coração, e no lugar da mulher soçobrasse o vermelho delirante, pulsando de temor o divino em si. Eu lhe digo latejâncias, e com o vigor de quem ama, comunico-lhe os limites violentos da vida e da criação. Sôfrego, dum fundo de abismo, um coração quase me mata à queima-roupa. Pálida a mulher, fenda de mim, respira-me, até que poeta, renasce do sumidouro da morte simbólica, aturdida e fertilizada por seu próprio encanto. A ponto de proceder lirismos, ela me abraça. Por fim entende que o seu nome ressuscita.
(PARA RENATA NASCIMENTO)
Gotas do mar
Sexta-feira, Março 05, 2010
Tola, no espelho. Devotada aos cabelos que as mãos anelam. Salva de me perder, de me dilatar no imponderável. Tola. Nunca tola. Um ser anônimo se pertence, pálido martírio.
A figura que eu sou, no espelho, louvando os cabelos, vê a si, de dentro. Mansidão. Estrela. Depois o grito escuro: mais que ave assustada, sagrada ao manto do vôo, enfrente a alma! O amor me assevera doce, da neblina dos tempos.
Rubra de mim, arrepio e me cego pra vaidade cativa de mulher nas mãos de Narciso. Rica de nudez, o alvéolo do peito repousa o veneno à boca do sonhador. Que ondas? Que ciclos? Circunvoluções. Ao redor de quê? Corpo de aparições, revoadas. A mania de evocar os santos, de morrer nas paisagens.
Ancorada na noite, à beira de um mundo, suave na tormenta das palavras. Lavada pela chuva que rega minhas preces. Varrida da imagem de menina, transfigurada na mulher que lanceia seus anzóis. Deus me cabe ser há muitas mortes.
Cálidas torrentes de impossíveis deleites. O canto pastor me leva à paixão por cumes, arvoredos. Sonho que traduzo com o feitiço, com a sinestesia das palavras. A que preço? A que negrume de céu?
Secreto de mim o pranto, pendor de viver à sina de nuvens. Vivo à sorte de amar, à tradição de ter amado, ao brilho ousado de me desreconhecer perante o espelho.
Me encontro em desencontros vastos, chuva faminta depois da prece. A flor derrubada de Outono. Úmida, não apodreço, porque já outra sou.
Não me cega o que me espera com seus sóis. Me invade o cheiro salino e quente da aurora. Verdade atestada pelas águas do mar. Meus olhos dizem.
Gotas do mar
Domingo, Fevereiro 28, 2010
Poemas para serem encenados
Dia 11 de março, na Livraria Martins Fontes, da Paulista, lançamento do livro "Poemas para serem encenados".
POEMAS PARA SEREM ENCENADOS
Teofilo Tostes Daniel
poesia
Casa do Novo Autor Editora
76 p.
R$ 20,00
ISBN: 978-85-7712-054-3
Sinopse:
Em sua estreia na literatura, Teofilo Tostes desmancha com seus versos a fronteira entre a poesia e a arte dramática. Em seu livro Poemas para serem encenados, encontram-se versos feitos para o palco e, paradoxalmente, para a intimidade, para o diálogo com as diversas personas do autor, à espera dos também múltiplos olhares dos leitores.
Teofilo transita entre o verso livre e a métrica, e propõe um híbrido dos gêneros lírico e dramático, numa conversa com as palavras, sempre renovadas, que adensam suas primeiras tentativas poéticas.
Todos os poemas do livro são escritos em primeira pessoa, mas apresentam um caráter ficcional, flagrando fragmentos de histórias. O autor admite que "dentre os personagens presentes neste grande amálgama de pseudo-indivíduos", também ele se encontra. "Este 'eu' que me encontro em alguns poemas quase confecionais, entretanto, é um eu todo retorcido pelo hábito de fingir", adverte o autor, revelando a influência e o diálogo que sua poética estabelece com a de Fernando Pessoa.
Poemas para serem encenados é dividido em cinco partes: "Prólo(n)go", em que o poeta se apresenta da forma mais indireta e evasiva possível. "Fragmenta a ação de diálogos", onde o autor escreve aos seus como se com eles conversasse. "De clarações" canta o amor, "verdadeiros uns, outros não". Em "Personas", o eu lírico veste muitas máscaras e assume os vários discursos possíveis a um dramaturgo. E "Memorial dos quatro cantos", quinta e última parte, que é uma completa dramaturgia. O poema que a compõe, que já foi levado ao palco duas vezes, apresenta uma ação dramática completa que se desenvolve aos olhos do leitor.
Teofilo Tostes Daniel é um carioca nascido em 1979 e radicado em São Paulo há quatro anos. Formado em comunicação social pela UFRJ, trabalha numa assessoria de comunicação e mantém diversas atividades artísticas paralelas, como a literatura, a música e o teatro. Seu livro de estreia trata-se de uma obra que desnuda os volúveis significados das palavras.
Alguns Poemas:
Genealógico
Sou filho dos burgos,
mas não sou burguês.
Meus cantos são lusos,
não sou português.
Meu povo me aponta
safáris no corpo,
contrastes, afrontas
e um velho índio morto.
Entre hóstias e hostes
cravaram-me um Tostes
de algum povo ao léu.
Fugindo com fome,
meu último nome
chamou Daniel.
O poema de hoje
Tua presença fez-se em minha mente;
Rompeu, inexorável, a barreira
Que arquitetara para que o afluente
De mim não desaguasse em cachoeira.
Meu olhar te mirara descontente
Porquanto te encontrou, bem verdadeira,
Negando um parco olhar a mim, doente,
Que, aflito, te buscara à Terra inteira.
Lugentes olhos cercam teu olhar;
Constantes eles são ao reclamar
A migalha do céu que tu ofertas.
Desisto vagamente de utopias,
De reter os risos que sorrias.
Eu sou daquelas almas já desertas.
Alice Através do Espelho
(ao Armazém Companhia de Teatro)
mote
Eu escrevo este poema
que me imortalizará
por um dia tê-la visto.
Ser o público e a cena
de seus sonhos me será
doce gozo que conquisto.
glosa
Em pensaventos lesmos e espelhares,
Alice alopra os alcalóides anos
nadinocentes, vivos, sempre insanos,
latentes como o brilho dos pulsares.
Volupiadas velhas, sorrateiras
aquecem a epiderme da menina,
da infante nada infântica que nina
os desejos matreiros das soleiras.
Nosso primeiro e estranho anfitrião,
Chapeluco Maleiro e já caduco,
pregado num relógio feito um cuco
ri o riso dos loucos com razão.
Tomo um xeque, um chá-mate e enfim adentro
no espelho-tobogã atrás de Alice,
alicerce dos sonhos, do que eu visse
neste mundo fantástico e epicentro.
Eu vejo um labirinto no armazém,
num impudico, lúdico vestido
em que, no olhar mais lúcido, elucido
todas transparessências que ele tem.
Um gato trapezista, num sorrir,
instaura nos sentidos todo absurdo
comportável no meu sentir já surdo,
pois os seus lábios deixam o rosto ir!
No tabuleiro, a injusticeira manda,
a Rainha das copas e das taras.
Ela corta cabeças pouco caras
nas horas que a demência faz-se branda.
No justíbulo faz-se o julgamento
que desnuda as segundas intenções.
No júri vejo os condes e os barões
feitos nobres num doido desmomento.
No final desta noite ou deste dia,
saciado de amor, eu durmo cedo
neste hospício que espalha todo o medo
da certeza que o mundo o imitaria.
(Aplausos!)
Gotas do mar
Quarta-feira, Dezembro 30, 2009
Trajeto da agonia
Largas passadas de quase correr:
O instinto do medo abocanha o bicho de si.
No trajeto da agonia
Esconde a espessa camada de pânico,
Rasga os rincões da paz.
Suor serve de mar
A um rosto crivado de tonturas:
Nauseia-lhe o beijo que não deu.
Águias lhe palpitam
Fervidas no delito das artérias.
Os olhos não valem doçura tanta.
Afeito ao brumoso da vida,
O ar não lhe chega, não lhe basta.
Bafeja o deus da guerra, sem oferenda
Do sonho vaza para um real cortante.
Gotas do mar
Segunda-feira, Novembro 30, 2009
n o t a s
meu olhar perante o espelho, rodeado de sombras, desvanece a vivacidade do ontem. pura e livre, aconteci. aí veio segunda feira.
o de sempre. rota, rota, rotina. o silêncio, que é quase sempre um deleite, agoniza em dias assim, desmerece gemidos, estrelas.
afoita, incinerei os véus da tarde. havia o tempo. o tempo eu comi. por afronta. varri o incômodo pro enigma das palavras, que me abraçam com seu corpo de relva.
esqueci as que não dizem desmesuras, viés da paixão. despertenci, sorrindo, aos olhos dos outros.
então ontem, que era mar e suas latências ventando, estive, pura e livre, acontecida entre ecos de olhos que se disseram. paixões de ventar versos. ventarei mais, e sempre.
trouxe para mim uns livros bons, de sol e lua. esses franceses.. ah, os que queimam! noir ardidos. éluard: seus últimos poemas de amor devoraram meu corpo de caçadora e presa.
caço, prendo. a inquietude hoje me altera os nervos de um jeito que, inclinando pra onde correm as cascatas, abrigo as fontes.
descobri que já rejeito o silício nos olhos. e que, brancas, as pernas povoam o mundo, ao sol das quatro. lânguidas, gratas.
o suor nos cabelos não mente: ardente o ouro da primavera. aqui, inventam que é bom a brisa de um ventilador.
por hoje: rejeito o que não é rocio.
persiste, se não o roçar morno que se entende por flor, a morada de claro-escuros vivendo nos olhos que clamam.
cintilâncias: rápido tempo de pertencer. protesto e parto.
desatinada, a léguas daqui, onde me querem branda.
Gotas do mar
Quinta-feira, Outubro 29, 2009
Quando me faltam asas
Sinto que me morre um pássaro
Quando me faltam asas:
As serpentes estão lá
Se esgueirando pelo chão.
Nos rincões da morte
Nudez, mornos vapores
Não voaram.
Não me cabe contestar o vento
Nem amputar o espanto
De brecar a decolagem.
De repente, a palavra empalha,
Empilha nos túmulos
E nos estilingues.
Passaredo engano,
Tão só palavra
Paliativa.
Gotas do mar
Quinta-feira, Outubro 15, 2009
Amava
Foi o aspecto das mãos? Ou o verde dos olhos, inesgotável, aclarando a vista pra mulher à sombra da menina?
Ardia, silenciado em espanto. Era dor, ambígua e inaugural, abrindo caminhos pelo sal de lágrimas. Mãos tremiam abandonos, quase em prece, ensinavam o adeus.
Os olhos marejavam mergulhos num mar que derramava. Intacta verdade: amava! Num ventre de menino, nuns olhos verdes e doces, as águas de si cresciam a despeito da dor, do espanto. Crescia, sem remorso pela dor, no que era compensado pela pureza de primeira vez. Outrossim, encanto.
Acenava o adeus. Era um ato solitário, contemplativo, revelador. Havia o prenúncio das delícias que estavam por vir. Mas a pressa em vivê-las atrasava a felicidade. Sentia um nó na garganta, dificultando a respiração. E o tremor das mãos, que não terminavam de dizer: adeus!
Despedia-se. As mãos doíam de um jeito, e os olhos eram mares de furor e delícia. Que torpores!
Dava adeus a um tipo de inocência, certo dom de ignorar que as crianças têm. (Elas ignoram nossa menção ao romance, sempre árduo. No coração de uma criança o amor é matéria prima irmã de suas brincadeiras preferidas. Criança não sabe dos abandonos que a sucederão).
Bem há pouco vivia o panteísmo das crianças, graça de um tudo. Colava seus ouvidos no ouvido do tempo, e escutava a anunciação da vida. Brotava a vida, toda nova. Pouco se lhe dava a solidão de existir: um mundo em si!
Dor pela criança que se ia. Meninice gaiata dava lugar a um sôfrego coração de moço. Contaria as horas pelo descompasso ritmado do peito.
Escreveria depois: os mistérios do amor são mais dogmáticos que quaisquer religiosos dogmas.
Muitas vezes mais doeria, imensa e mansamente, reconhecendo os sintomas dessa dor. Ela não sacia.
Gotas do mar
Terça-feira, Setembro 29, 2009
Meus símbolos são insígnias que recorrem:
flores, selvas, febres, águas.
A coisa nunca é só e mora na pluralização.
Como estertores.
Ou violinos que enlouquecem
cordas do meu canto.
Isso costuma se dar em bosques, poentes.
Até pontes! Geralmente à beira de algum abismo.
Essas palavras, essas que aviltam o novo,
moram no mistério suspenso de signos ciclotímicos.
Marcham aliteradas, assonantes.
Vivem a disfasia do enredo.
Não há aparte que se faça no pacto da significação.
Também não há fuga.
De praxe, vêm. Polinizam os mesmos mistérios brancos.
Caem à maneira de chuva, de pétalas: atemporais.
Docemente, nadam, nadam.
Pra morrerem no mar de Caymmi.
Gotas do mar
Sexta-feira, Setembro 25, 2009
Estivesses aqui
Eu olharia fundo para as águas todas
Dos teus olhos e dos meus
Entre não calar a fonte e orvalhar
Apenas o beijo que tarda os aromas
Colhendo flores, manhãs
Da tua presença de ninho em minha pele
Unguentos pra dor que pedes que eu cale
Que amanse a égua, a nevralgia
Que rasgue as horas em que tateias
Os relógios mudos, chumbo cravado
O teu peito ressaca limites
Destronando sonhos, marés nossas
Amortizadas por dívidas que não se pagam
No teu ventre as mesmas águas famintas
Concavidade das chuvas, dos ontens
Por onde eu mergulhava a minha fé
Obstinada por teu corpo desvelado e branco
Arremetia as quimeras, fera adentro
Estivesses aqui
Por bosques do amor que derramo
Na taça da tua boca, vermelha e árdua
A desarmar precipícios
Gotas do mar
Quinta-feira, Setembro 24, 2009
Só para registrar que há vestígios de algum recomeço lá.
Aqui também continua, porque essa sede não sacia.
Gotas do mar
Terça-feira, Setembro 15, 2009
O som da nossa infância
Não inaugurou três anos antes que eu também nascesse para velar sua harmonia de menino. Como em todos os processos irreversíveis de entropia, crescemos irmanados, sistêmicos, no seguro calor que nos mantinha intrincados, unidos, desde pouco mais que o berço. Mesmo mais velho, pôs seus olhos de ânsia brandura sobre mim. O olhar que cavamos em criança, eu arguta na sua melancolia, determinou o fado de estar sempre ao seu lado. Não era necessário que disséssemos, ainda muito cedo, da estranha necessidade de permanecermos imbricados, parelhos no tempo-espaço, afeiçoados. Assim estivemos, ano após ano desse princípio, que trouxe sua fé pelos enigmas, pela natureza, e a veemente brandura do seu olhar. Juntos, só que santos, enquanto eu aguardava que fraternos morrêssemos para nascermos amantes. Inexaurível promessa que depositei em nossos senões. Se não era eu que sonhava com o que você haveria de me dar, fermentada na idéia me salvar do desterro e viver o nosso talvez atávico caso de amor! Se não era você que me usurpava do seu leito, talvez mais brando do que conviesse... Éramos nós que nem sequer no auge de nossas urdidas tramas de cegos encontros, promovemos os abraços. Nem movemos os corpos na sagrada dança de ocasos, plenilúnios, e outras mitologias densamente sonhadas. Eu me bordei de expectativas por nosso glorioso futuro, menino, glorioso. Sabido que era pra sermos um par, e costurarmos juntos nossos destinos. Deixamos escapar a palavra que se inventasse no correr da pena, até formar o contorno duma história. Que era isso e hoje é poeira e pesar? Distanciados do acordo que velamos em velhos mares, o já remoto da infância e com ela outros muitos fatos aleatórios que precipitaram o aparte, saídos das dobras de uma vida fundante pra uma vida infundada, afundamos nós dois. Nós dois, mais ninguém. Falar da nau louca que nos leva, já adultos, já sóbrios, já dormentes pra onde não há farol, não há porto: nisso testemunhar os percursos da memória e tirar dos anos esse gosto perpetuado do silêncio que era a arma da delicadeza, perigosa contradição de termos. Eu não percebi que não dizendo, eu não viveria, porque você, já bem posto na vida, largaria meus pequenos implícitos gestos de amor para arriscar sua guerra particular. Como não percebesse que eu sumia para amainar o lamento, parti então bem mais velha que você, acumulada das histórias da mulher e mãe que eu não fui. Você me deve isso, meu menino, que me olhava com a pureza colorida dos primeiros anos, ali nas brincadeiras de mulher e moça que eu sonhava ser. Era tanta a certeza, tamanho o bem viver dos olhos, verde ou mel impregnados da suprema poesia. Deve a alegria que eu senti e sua robusta pressa me tirou, por se delinear bonito e moço antes que eu. Logo ali pouco mais de um, dois anos, no máximo, eu alcançaria a mesma mocidade e engenho para os beijos, as armadilhas, para vivermos a enchente, a selvageria. E fruir os frutos. Você me deve a dor do parto, que não tive, o espanto de amar, me deve a lembrança que já se perde no fundo de um móvel, onde, recostados à sombra do suor dos outros, arriscávamos que nos vissem ali e interpretassem errado o que era certo, abrasado. A gente ali repousava do cansaço de correr com pedras nas mãos e ria de não entender porque corríamos com as mãos nas pedras, para depois depositá-las, numerosas de salgada aventura, num velho armário carcomido de cupim, oco de lembranças subtraídas para melhor se esquecer. As formas múltiplas-mundanas-minerais do meu coração. Conjecturávamos que nos tardar de anos, muitos anos, revistaríamos o mesmo móvel para receber as pedras que eram o testemunho da passagem do tempo, e a um dado ponto, da nossa necessidade de permanecer. Antes dos livros, pedras. Ao fim se revelaram inúteis, primárias pro que intencionávamos. Avancei das pedras aos livros que guardavam o mesmo cheiro da espera. Abri caminhos na solidão, largas cicatrizes. Porque o ideal não se cumpriu, inventei histórias, reviravoltas de calar martírio, longas marchas rumo ao canto que libertasse essa voz sempre guardada, esse silêncio, fastígio das duras constatações. Antes, doce limite do que mora dentro. É possível que ele triunfe, ainda e sempre, gentil e mortal entre nós. Mas, quem sabe, eu possa revê-lo com os olhos pueris que não temem os anos, momento épico retorcido da ilusão que ambos alimentamos com o som da nossa infância. Não leve embora da minha memória, meu menino, a sua risada jamais corroída pelo tempo, mas me diga, de uma vez por todas, que você não vem.
Gotas do mar
Quarta-feira, Setembro 09, 2009
L Â M I N A S
Dardeja a chuva
Granizos do meu grito
Pastos, ruínas, bauxita
Antigas odisseias de menina
O vão metal resfria
Inerte na têmpera do sagrado
Morre o mar
Que choro em Minas
Fundo desejo da paisagem.
Gotas do mar
Sexta-feira, Agosto 14, 2009
Céu de Agosto
“Cai a tarde
como sempre
como sempre diferente.
Cai a tarde
de onde não se sabe...”
(Adriana Calcanhotto)
Eu, que nunca me acostumo ao azul de Agosto, não me acostumo a azul nenhum, precisava vir me despedir do céu, especialmente hoje, grata por seu turquesa matinal, tão inspirador.
A beleza viva da manhã, ainda viva na memória, de um limpo esplêndido azul, já não mais repousa a promessa de Setembros em flor. O horizonte é agora um fim de dia.
Recebo o negro blues da noite, que já vem. A tarde é cálida, de crianças, cachorros, e os velhos de banco de praça, com suas pombas famintas. Sempre os vejo por aqui, a caminho do trabalho, ou de íntimas paragens, quando deito sentimentos num papel, saboreando cachorros-quentes, epifanias.
As pombas quase me engoliram. Foi o banco que eu sentei ou quem sentou aqui, antes de mim, com seus sortilégios, seus restos de pão. Como que numa emboscada. Mal sentei, vieram tomar seu posto, de prontidão que estavam, voando raso, ameaçadoras, em minha direção. Muitas, furiosas. Por pouco, e não haveria escapatória.
Sabe-se que a estas horas o local é disputado, sobretudo os bancos e os brinquedos. Só que tamanha fúria desconcerta quem chega assim, querendo a paz e o limpo de um céu azul, turquesa lembrança. Por serem quem são, pombas de velhos que lhes dão de comer, ávidos pela pureza da fome, perdoo a suja versão do Espírito Santo.
Afinal, uma tarde de muitos jogos e pernas. Bolas voam, dos pés meninos para o gol, e de novo para os pés, sôfregos, ardentes da disputa infantil. São muitas cruzando minha vista: brancas, azuis, amarelas. Aos risos e berros deslizam, maníacas ou doces, por mãos quem ensaiam o saque, o chute certeiro.
Árvores testemunham travessuras, voleios, e pombas assassinas que engolem moças, pela sanha das letras de seus cadernos. Sacolas levam meu olhar para casas de família, bares, puteiros. Homens vestem improváveis paletós. Testemunho as árvores, e a mão que, imperiosa, ensaia o apego à fria tarde, enquanto espero as pombas voltarem, para um revide, talvez.
Na graça de um charme, a menina, com sua boneca, sentou no banco mesmo em que me expulsaram, e não havia pombas, apenas expectantes voadoras, que pararam para observá-la, transtornadas, enternecidas. Depois um bebê, e seu balde. Inútil, sem água, sem areia.
Com a mesma solenidade sem propósito, um homem ao meu lado senta-se para apurar seu visual. Ele ajeita a gravata, que retirou de uma sacola imunda, para depois vestir o terno, enquanto eu me pergunto - ao vento, a noite já nascida - por que sempre o surreal acontece quando estou aqui.
Atiço de rir com o que me frustra, quando o homem tira de sua sacola de mistérios só uma alaranjada conta de luz. Não diviso números, mas conjecturas: acaso ele espera por seu advogado? Pobre e sujo como a pomba, absurdo como eu, não mais que um personagem da história solidão.
Ato contínuo de surpresas vastas, muitos caminham, juntos, separados; para suas casas, seus poentes, para debaixo de suas pontes. Vão felizes; desesperados. Emaranhados na teia de seus passos, recolhem da paisagem algum remoto pensamento, que é possível entrever pela maneira como olham o nada, por um breve instante, transfigurados.
Carrego, além do perfume do céu de Agosto, a cor do sangue preso no casulo de ampolas de laboratório, onde máquinas averiguam doenças, onde tossem e não há cores. Presa dentro de um frasco como esses, acumulada de sangue e papéis, passei a parte maior do dia. De um dia em que o céu me gritou veementes e enlouquecidos azuis, entre matizes outros que eu não pude ver.
Talvez por isso, ou pelo olhar mancebo que flagro nesse mesmo instante, entendendo pela primeira vez um corpo de mulher; porque a poesia não cessa de acontecer com o adeus do sol, procedo ao rito de minha despedida, vermelho na noite fria, enquanto os postes inauguram a era das luzes artificiais.
A meio caminho de um choro, uma risada estridente, à noite ratifico o que leio pela manhã a respeito dos homens e seus sonhos. Inquietações, perguntas que se formulam e desvanecem.
A gravata e seu homem chutam a bola, vorazmente, aflitos, querendo brincar. Mais e mais alto, balançam as meninas, rosas anunciadas, sem mãe por perto. Carrosséis não tardam a girar.
A fim de colorir a noite, escorrego; da luz congelada de um poste às ondas irisadas dos sonhos: mansa, dolentemente. Pombas voam para a Primavera.
Gotas do mar
Segunda-feira, Agosto 03, 2009
Perfume de Ódio
Então ela se virou para quem lhe revolvia seu perfume de ódio, entre a mágoa e o amor sentenciou:
- Eu não sou uma vadiazinha que leu um, dois livros badalados, julgou ali encontrar seu autor preferido, seguindo uma new trend de vazios existenciais. Uma gente moderninha, underground, uma gente metida a besta, cheia dos estigmas de uma arte de boutique: roupas de grife, com palavras de ordem, filmes cult, literatura souvenir. Eu só fui até a esquina. Provinciana sim, de pai e mãe. Entre o fim do mundo e o começo dele. Pelo menos, eu não desperdicei meu olhar fazendo o v da vitória em pontos turísticos. Não frequentei faculdade de shopping, onde cuidava que não escrevesse com s o que se escreve com c de carne, carne crua e você nunca comeu. Eu aticei minha brasa no incêndio da angústia, cumpri meu destino, cantei o meu fado, minha má sorte, as muitas mortes. Ressurgi o que em mim mataram, essa mania de blues quando nem é noite. Minha geografia é sangue, mapa dos sem volta, possesso e trágico vôo que não se faz com ácido, mas com tormento, com algo chamado vida interior. Há quem aprenda a ponderação. Há quem reverencie Dionísio. E há quem reze em todos os altares só pra ver onde dá mais onda cuspir na cara de Deus, o que é mais triste. Eu reverencio o meu deus, respeito a primitiva essência, faço seita até pro meu ateísmo. Sei o quanto vale o que se ritualiza e se entrega. Vivo os meus vilões, descortino o meu verbo em ternura ou doença viva, eu não desisto, não me entrego. Faço um jeito de contar bonito o fim de uma ilusão. Não importa a carestia, de sexo, de pão, de amor. Eu conto moeda e na alma esbanjo a fortuna de quem sente em si a cicatriz do mundo. Abraço a causa, eu não visto a causa e saio por aí, um logotipo ridículo, um outdoor de clichês. E não venha falar de falta de referências, de excesso de informação, do neoliberalismo, de pais que competem com filhos, da estrutura falida de um projeto coletivo, do cacete a quatro. Esses bichos que somos comemos uns aos outros. A história se repete, talvez, sempre. É preciso que saiba disso, e ainda assim, que beba o sumo, o cruel da vida, delicadamente. O que grassa ao sagrado frutifica o tosco. Um monte de circunstâncias aleatórias, ou vaticináveis por um pré-determinismo de esperança, de fé. É uma questão de olhar ou de falta de visão. E vocês desperdiçam tudo isso, até o erro, virando nicho de mercado. Essa sua risadinha morna, sempre tão civilizado, tão humanizado, sempre tão na moda; isso amarga ainda mais minha decepção. Você não sabe onde dói a sua selva, sua serpente não enfeitiçou seu canto com o veneno de verões perdidos, nunca vomitou na vala infecta dos passionais. Eu exibo minha peçonha, violo querubins, faço correr a valsa atônita que sou. Sua paixão, a sua paixão se tatua.
Tão logo laçou a sua sorte, mergulhada em desengano, fechou com urgência a porta do carro, num pranto não menor que o trânsito de São Paulo, ardida num Corsa 97, comprado em mil prestações. Para nunca mais ver aquele que lhe doeria recorrentemente n’alma, até o fim de sua vida. No livro que não leu, também não aprendeu o que vida dá, nem o que a vida tira. Consciente de seu talento, pleno ou plano, era como se ofertasse ao mundo o viés de um gênio, estilo inconfundível de seu melhor momento. Para os críticos, era hermética. O público não a entendia. Nem ela, a heterogênea massa de leitores. Nem a si. Escreveu, entre outros, um livro de memórias, mais para calar a dor do coração. Vivia a lucidez, como também o auto-engano. Reconhecimento, só no mesmo circuito alternativo onde lhe roubaram o melhor do sorriso, o brilho de seu coração.
Gotas do mar
Quinta-feira, Julho 09, 2009
Dos sentidos e das recordações
Parte do que se vive, inventa-se. Interpretam-se dor e alegria. O que a gente lembra, ressignifica. Transforma em matéria-prima da transcendência.
Eu excedo meus calendários, nele ensejo imaginações. Enredada no tumulto de horas já extintas, minutos por contar, contradito a angústia e o prazer da lembrança. No labirinto da memória, no sorvedouro da imaginação: o tempo depura na ampulheta a finíssima areia.
Vivo no meu tempo e no de meu sonho. Devir de mesmos novos instantes, lançados ao fosso dos sentidos e das recordações. É lá que persistem as cores das muitas épocas, senil aquarela de tons vazados para o âmbar.
A atmosfera, barroca, adivinha sombras dos lugares em que estive e que inventei. Anacrônica existência. Ocasiões difusas desenham-se na mente.
O saudosismo não move essa marcha, é o vento que espalha em todas as direções, perfumes, gozos, poentes. Descostura caminhos, força eólica de invernos cedidos a vagas melancolias. E no meu lençol, hoje, o cheiro de velhas rotinas.
À minha frente, o futuro, moço devassado de premonições. Dilata o que é conhecido e mágico. Metaforiza-se em natureza.
Porque o tempo, se não é vento, é rio, seus muitos afluentes, descendo, subindo corredeiras, ganhando novos e imprevistos contornos. A cada ano, margeia coisas queridas, que vêm e vão. E a gente, com esse rio dentro, vive, saúda, e diz adeus.
Quanto mais se vive, mais se quer viver, quase que sempre. Teme-se pelo muito [pouco, sempre pouco] que se já viveu. Nascer nos desabilita a eternidade. Precários, aprendemos a notar fatalismos, despedidas. Mais por não sabê-los.
Precoce o sentimento que desde menina se entrevia na avó, sem que em ambas se ousasse ensaiar a partida. Convergidas essas filhas de Cronos, castigadas por grossa camada de rugas, infâncias mortas e ressurreições. Até breve, quem sabe -- arrisco uma tardia separação. Se o ocaso não suscitar a cadência das estrelas, e a poesia da fé não acontecer, talvez até nunca.
Ainda jovem e já tanta partida, quando o sol nem invadiu o fim da manhã. Meu destino, arder nas três gradações de um dia.
Se não houver despedida, porque a vida é soma de ineditismos e reencontros, os olhos, virgens ou cansados, continuarão a destilar nascimentos, divisando imagens antigas, e o deslumbramento das coisas vindas.
Gotas do mar
Quarta-feira, Junho 24, 2009
ESPIRAIS
- Eu gosto da sua voz.
- Mas eu não sei cantar.
- Eu gosto dos recônditos dela. De como ecoam os plurais, a maneira como a língua toca...
- O silêncio, o céu da boca? Não brinque com isso.
- Como sabe o que eu ia dizer?
- Não ia dizer. Eu que me antecipei porque senti vontade de me ouvir pra derrubar suas convicções.
- Só as agravou.
- Confesso: quanto mais baixo falo, mais me alcanço. E gosto.
- Alcança uma mística voragem, posso presumir. Liberdade morna, que se perde cotidianamente, convencionando modulações tolas.
- Exato, meu bem. Meu tom é de profundis, sem o qual eu sou só...
- Uma criança assustada.
- Como sabe?
- O que você é agora, fingindo surpresa.
- Eu gosto dessa intimidade forjada entre nós.
- Não é forjada a comunhão de nossos timbres.
- Ah, mas você tem voz de Outono, arrastando o dourado nas folhas, toda maviosa.
- Falou isso como um lamento, bonito, doce.
- E quando ri, faz rir o mar.
- Continue...
- O que sai da sua boca tem ritmo, atabaque, é ancestral. Cheio de desvãos, inflexões harmônicas.
- Gostou do jogo.
- Não é jogo, é música. Eu, sim, criança assustada, lembra? Sinfonia pálida. Sob o vinho ou sob a chuva, muito profana, a minha voz enverga pra puta, sem escalas. Por isso não levo a sério o que diz sobre ela.
- Mas eu gosto, já disse. Dos subentendidos imperando, como que medo, como que espanto. Incerta e silente, ela não se revela.
- É só jogo de palavras. Metalinguagem pra me levar pra cama.
- Não é jogo, é música, você disse. E não é metalinguagem, é metafísica. A metafísica da sua voz me interessa mais do que levá-la pra cama.
- Não nega?
- Não nego. O desejo. Como não nego a música. Nem o silêncio.
- E o que há entre música e silêncio? Entre desejo e cama?
- Sua voz.
- Minha voz testemunha a relva molhada onde recosto meu corpo sob a chuva.
- Chuva de novo. Onde leu isso?
- Eu inventei.
- Por que a chuva?
- Por que a minha voz?
Gotas do mar
Sexta-feira, Maio 29, 2009
Convalescente
Eu estava deitada, convalescendo; uma gripe muito esquisita, meio amidalite, meio gripe mesmo. Pensava na morte da bezerra, e na minha própria, que há dias tento respirar decentemente - quase sem sucesso - com o nariz que Deus me deu.
Deus também me deu um jeito melancólico e um ar torturado. Mania de enunciar muito estranhamente os meus prazeres, minhas aflições, como se não soubesse diferenciá-los. Acaso nem sei se sei. (Anseio que sim para o bem de minha sanidade. Ainda não me atrevi pelos pantanosos terrenos do masoquismo. Tanto melhor).
Estava deitada convalescendo com o ar torturado e melancólico de sempre, quando, fazendo a primeira coisa útil ou definitivamente inútil do dia estiquei-me longamente que sou em direção ao caderno verde para umas retorcidas e familiares palavras de evasão, despejadas, por ora, sem menor pudor, nesse inverossímil relato – livre, mas escabroso exercício do dizer.
Sem reservas, só com o resto da febre do corpo, nada metafórica, ditei o de mim, sentido e possesso: “Quando nada basta! O amor, o sonho, esse pranto da noite, a infância abstrata na memória, descosturando teus dramas... É que a vida...”.
Estaquei nesse ponto, desordenada como de costume, pensando no caráter desolador de ter no meu corpo vestígios não metafóricos de febre, além de sintomas nada poéticos que o vernáculo também não poetizou: coriza, tosse, dor de garganta.
Afoita que sou! Tão célere escrevi, rabisquei minhas linhas, afrontada com meu afrontamento. Elencar assim, num só e irresponsável jacto, num dia de insólita convalescença, meus termos essenciais: amor, sonho, infância, memória, drama, vida.
Martirizada pela audácia, desacorçoada pela incompletude de palavras que não pensei, mas senti, e assim quase sempre, pela febre sem metáforas, retorci foi o meu lírico pescoço: Tão urdida na trama da vida! Por que assim: tão funda, tão ferida? Quem você pensa que é? Quem foi que te feriu assim para aos vinte e poucos dizer: ’quando nada basta!’? Que afrontamento! Tão penosamente o pranto!
Quem deslocou meus moinhos de vento? Não sei. Quem os inaugurou à moda quixotesca? Tampouco a resposta. “Toda palavra é propícia. Se tem chama, ou se tem drama”, devolvi com a caneta desenhando as letras no papel. Ou seriam os moinhos?
Sabia e sei o fundo disso tudo. Lançada elas vêm, acesas desde o nascedouro. Mas não hoje, num dia vago de doença, não assim: “É que a vida...”. A vida o que? À vida os seus montantes mais vultosos que a sentença não dada! A vida por viver!
Não há possível equilíbrio na relação que estabeleço com meu texto. E às vezes cansa ou assusta a urgência adolescente com que as gaivotas aos meus pés pedem céu. Assusta e cansa sim, dar-lhes sempre e incondicionalmente o pouso mais fundo, partidas para marés nunca exatas.
Porque há dias em que certas palavras devem dormir o seu sonho fecundo, sem urgência. Dormir e convalescer, sem pressa a sua febre menor. Se não vira um pendor que me move a perder o chão. O mesmo chão em que pouso sem motivos esses meus pés de gaivota faminta. Eles partem para tantas vidas, não é? “É que a vida...”.
Não há tolerância para meus desregramentos poéticos. Motivados por enunciações, metalinguagens, dizem-se, à luz do dia, da noite, da morte. Assim eles são. Alucinados relatos das veias, que tossem as minhas falas pouco lúcidas, exasperadas da poesia incauta e virótica que lanço às febres de mim. Em mim.
E sem mais, convalesço. Eu convalesço de existir.
Gotas do mar
Segunda-feira, Maio 25, 2009
Fronteiras
Toco tua matéria com o pudor de um asceta. Obsceno afrontamento. Não obstante diametralmente oposta, persigo-te, musa dos pragmáticos, dos cartesianos. Prolíficos resultados guiam tuas estratégias. Eu abrevio minha selva. Desbasto a rocha, esculpida em nervos lassos. Mas meu cinzel é o grito. Remodelar essa pedra é matar vertigens, auroras que calo pelo abandono de desejos que não me evocas. Teus calendários, justa proporção de números, de estimativas, aturdem o atemporal que há em mim. Ainda assim te busco, desarvorada, mas reverente, talhada em raiva - a raiva que eu te tenho pela não consagração de nossos incompatíveis símbolos -, e mesmo autômata de tua perfeição, faço ritos para te alcançar. Sou das nuvens, dos cios. Carnes me vestem. Por isso, sonho. Não concebo retas; escorro, sinuosa, por arestas que talvez sejam nunca polidas. Inconforme, imprecisa. Avanço a ti, determinada em meu silêncio, mistificada pelo medo, lânguida, aflita. E o que me provocas é o que tateio em tua amorfa matéria: nadas sem rosto. Enquadramentos, perfilhações sem parentesco com o amor. Sinto que também me torno ora indefinida pela vital fronteira que ultrapasso, ferida. Tecnocrática, sangro. Só até que haja escândalo. Colore meu sangue impossíveis promessas.
Gotas do mar
Quinta-feira, Maio 14, 2009
Amálgama
A vida me persegue com seus timbres
Roucas vozes do acontecimento;
Nada me amedronta mais
Que a face intacta das coisas.
Tomo de açoite o banquete das rosas
Oásis de brancura estendem-se
Em escarlates ensandecidos
De-lírios à veia acesa.
Restam desertos
Que o sol, tresloucado
Chama de poemas.
A areia arranha o silêncio do pêlo e sua
Mistura de sal no sentido da pele
Perduram águas.
À sina de mim
Amálgamas vertem suas misturas
Que a pureza dos olhos
Chama pássaros
Circundam o mel do corpo
Venta, na eriçada
Flor do ventre.
Gotas do mar
Sexta-feira, Março 20, 2009
Tenho muitas ternuras pra contar. Palavras de sonho e sensações. Enchi uma pasta de euforias líricas, sóis desgarrados do ventre da poesia. Impressões brancas, douradas, carrego dentro em mim. E tenho, por cúmplice, a poeira das ruas, seus faróis, gente de todo lado, apressando passos, sujando muros, labirintos onde cabem faunas, melancolias.
Minhas ternuras, elas não me cabem. Cabem na noite, nos meus hinos. À cova da razão, minh’alma lavada em selva escava desejos na ventania. Dona de uns leopardos olhos, acesos na noite, fundo as raízes do meu sonho.
Tenho vilipendiado meus ardores. E, por isso, acumulado numa burocrática pasta a pressa d'alma insone, cheia de rubor. Ternuras muitas, recendendo chamas antigas, vastas dádivas da fome.
Sagrada ao rito, logro observar encantos na mão que pousa, feroz, letras foragidas da minha promessa de música.
Deus me quis aturdida e terna, repousada em versos bravios, maré alta; coisa acontecida em becos, açoitada pelo tempo.
Funda a incompreensão do meu discurso. Sentidos de abismos, versos, vertigens. Que víscera no visgo desse timbre? Modulo mansa nunca nula as minhas vísceras. Carrego o dizer como o destino infindável que abarrota meus muitos armários psíquicos, pastas da mente ecoando: abram alas, é vulcão.
Ternuras insondáveis. Teço, farejo na poeira das ruas, nos olhos desgarrados do ventre da poesia: sóis, leopardos, apressando passos na noite. Enchi uma pasta de ventanias.
Gotas do mar
Segunda-feira, Março 02, 2009
A fim de versos
Em Setembro do ano passado fui convidada pela Leila Andrade para participar com um texto na edição da revista cultural eletrônica Diversos Afins, da qual ela e Fabrício Brandão são os editores, ou "leveiros" como mais inspiradamente definiram. Não conhecia a revista, que me encantou pelo esmero de ambos na seleção dos autores, enfaticamente poéticos, mesmo em prosa. A densidade e qualidade dos textos me impressionaram e continuam impressionando a cada mês. Contos, crônicas e poemas abraçam-se num maravilhoso exercício de desarrumação de gêneros e fruição estética. Também destaco a abrangência cultural do e-zine, reunindo críticas musicais, resenhas sobre cinema, ótimas entrevistas literárias, trabalhos fotográficos comoventes e sensíveis pinturas de inspirados artistas. Nessa última edição tenho a honra de fazer parte uma vez mais desse trabalho. Aproveito para mencionar o fato e divulgar a revista. Vale a visita.
Gotas do mar
Terça-feira, Fevereiro 17, 2009
Daise gentilmente me convidou a participar do meme seis coisas sobre mim. Seguindo as regras, conto seis fatos e/ou confissões aleatórias sobre mim. Feito isso, indico ainda seis blogueiros para participarem, publicando eles também o selo que identifica a brincadeira.
Seis fatos e/ou confissões:
1. Não há dúvida de que minha ternura provém das Minas Gerais de meus avós. A delicadeza comovente dos olhos verdes da dona Olga, o amor com que ela executava cada pequena tarefa – cortando couve, falando dos mistérios de Deus –, transformou-me num coração ávido de beleza e poesia.
2. Nos últimos tempos meu domingo ganhou novas cores, delineando abraços que não antes. Domingo costumava simbolizar sólida solidão. Virou agora aquilo que se vive junto. Resume a semana, representa o amor.
3. Eu tinha uns seis anos quando escrevi: “E foi infeliz para sempre”. Infeliz é a história do passarinho que cai do ninho assim que nasce e é levado pra longe dos pais pássaros. O destino de toda a vida passa a ser a busca pelos genitores. Quando finalmente consegue voltar ao seu local de origem, descobre que eles já estão mortos. Dramática desde o berço, comparti veementemente a tristeza inexorável da avezinha. Senti-me vulnerável e mortal, talvez pela primeira vez.
4. Ainda de posse da Thalía que sempre me habitou, vivi dor profunda quando descobri que a história do miserável bom velhinho dos sonhos de Natal era só uma fabulazinha para aguçar a imaginação principiante de fedelhos – ou traumatizar infantes como eu. E como as crianças às vezes são cruéis, um amiguinho de escola me revelou a verdade com um tom de superioridade condizente a uma criança ferida em sua boa fé, e uma autoridade incontestável que sentencia: “foi meu pai que me contou”. Mas foi a minha mãe quem teve que ouvir: “Por que você me enganou todos esses anos?”.
5. Calada e curiosa como sempre fui, fiz do meu instinto de observação um hobby, uma necessidade. Escolhi observar velhinhos passantes, especialmente em praças. Encantam-me olhares, mesuras, sabedorias. Enternece-me a maneira obstinada com que, frágeis, agarram-se à vida, amando-a vigorosamente. A elegância de muitos me leva a um tipo diverso de saudade, genuína como as demais, só que diferente: saudades do que não vivi.
6. Tenho uma memória esquisita. Ela é arbitrária e não caminha no sentido das minhas reais necessidades. Sei que a memória é emocional, mas até minhas emoções me extraviam de mim. Numa época de abundância de informações e tempo escasso, recordo muitas vezes irrelevâncias. Mas o que verdadeiramente me aguça o sentido de lembrar é certa facilidade – hobby novamente – para a memorização de rostos. São variadas, numerosas as fisionomias que eu gravo, quase sempre sem me esquecer. Rostos sucedidos por eles mesmos no acréscimo dos anos. Em filmes, em ruas, em fotografias, álbuns, blogs... Tornou-se um desafio pessoal buscá-los na memória, projetar no tempo as feições, reconhecê-las ao limite da exaustão – e da graça da brincadeira.
Seis blogueiros que convido a continuarem o meme:
Adelaide, Angel, Guto, Juli, Lany, Mônica Montone.
Gotas do mar
Terça-feira, Janeiro 13, 2009
ARPOADOR
Lembro de tantos poentes
E todos doces
Melancólicos azuis de meu pai
Despedindo-se na explosão laranja da tarde
Lembro de tantos
Lembro tudo, sempre
Olhos pregados no ocaso
Absurdam vastos
Coloridos, cinzas, lágrimas
Comezinhas aves
Infância entre porvires
Livres matizes
Pôres-do-sol
Magnífico declínio do tempo
Aquarela lenta, generosa
Até o último feixe-luz
Lembro devotamente
Tantos
Todos doces
Poentes
Gotas do mar
Quarta-feira, Dezembro 24, 2008
Na tarde de verão
Caminho pela praça, cotidiano cenário. Quão dourada! Absurda, bela. O tom grandiloqüente revela o momento raro. Pombas sujas aturdidas de sol, céu de um azul arrebatador, algazarra feliz de infância, pula-pula, gangorra. Clichês. Não há clichês. Meus olhos têm a pureza ávida dos de um cego. Eu sou o espanto que ele sente se logra enxergar.
Surpreendida com tanto sol, dou-me conta de que finalmente é verão no Rio de Janeiro. Depois do castigo de muitas chuvas, e um cinza recorrente que desagrada cariocas, que tarde magnífica! Sorvete à boca e menos roupa: a alegria é geral, e há alívio que harmoniza todos ao redor.
A poética dos espaços públicos me enternece nesse fim de tarde, pós-trabalho. Nada exaurida porque não é pra tanto, eu me sento num banco verde, para mais minutos de encantamento. Meu companheiro de banco, um velho de olhar delicado e pele áspera, nem se dá conta de que cheguei. Eu não sei se ele tosse ou o quê, faz um barulho atípico, que por mais atípico que possa vir a ser, nunca ouvi ninguém fazer. Meio que tosse, enquanto acena pros seus conhecidos de praça e tarde, pras crianças que o olham com curiosidade. Quase sorriem. O sol parece ser tudo que lhe sobrou na vida. Não há nisso melancolia ou amargura.
Sob o mesmo sol, tudo o que sobrou da poesia desacontecida em meus dedos. Escrevo uma saudade com palavras de pássaros e meninos, uns versos quase belos, como em: sei da pele que goza o delírio do sol. Saudade misturada à ausência e à falta de tempo, ao pragmatismo de viver que inviabiliza a minha inspiração. Eu deixo pra depois e vou seguindo a jornada dos dias.
Hoje eu não deixo. O calor acorda os instintos, e é com instinto que eu escrevo. O azul do céu diz coisas impossíveis, que eu entendo. Ponho nos olhos a mesma ternura silente dos velhos que eu vejo daqui. Viveram muito, saúdam a quase partida, como quem acaba de chegar. Lambem a vida, vagarosamente, com sorvete e delícia. Tossem, sorriem. Viveram tanto! E têm uns olhos de criança.
Há pouco, tentei dizer tudo quanto foi verso, mas parei. Disse da euforia calada de viver sob o calor de quase quarenta graus, no fim de um ano em que tudo deu certo, e eu me rendi aos perigos da vida. Depois misturei com palavras sentidas e anunciei: acontece o gorjeio da ave na minha emoção. Desisti de dizer porque quis sentir o instante, não o dito, o vivido. As palavras, elas intensificam, mas também escondem.
Amanhã eu faço vinte e sete anos. Escrito assim, por extenso, quase me assusta. Eu sou uma menina ainda! Acho. Eu sou uma mulher crescendo, tímida e feliz. Vinte e sete anos: Isso dá quase dez mil dias. Dez mil dias! Eu não sei o que são dez mil dias. Eu não sei nem o que é um dia!
Amanhã vão me abraçar e dizer coisas bonitas. Eu vou me lembrar dessa tarde, e da Dona Menininha, que assim eu chamo por ausência de nome.
É que Dona Menininha faz aniversário amanhã, como eu. Eu faço vinte e sete, e ela, oitenta e quatro. Isso dá... Desisto de contar. Isso dá uma porção de dias.
Dona Menininha chega com sua roupa de verão, passos de quem não se agüenta. Minha nova companheira de banco de praça vem escoltada por duas moças que não parecem suas filhas. Muito atenciosas, pedem o lado mais à sombra do banco para que tão frágil ser possa se recostar. Mas com esse sol, ninguém escapa.
As moças, que devem ser empregadas da senhora menina, compram-lhe sorvete. Eu ouço música, porque desisti de escrever, capturada pela cena.
Dona Menininha toma um sorvete rosa, e olha o mundo com olhos castanhos e meigos. A imagem é tão bonita quanto o azulzinho do céu, limpo e pregnante. Ela olha o mundo, frágil, dolorida. Chegou aqui dizendo: aaaaaai.
Os instantes passam, percebo que ela já não dói. Distraída da vida, nem se dá conta de que a pele arde. É que a alma, purificada de sol, regozija-se no doce da boca, no encanto dos olhos.
Ainda entremeio uns versos na cabeça, costurando poeira e ternura. Eu olho o amarelo-metáfora-de-sol na camisa de uma criança, e esqueço, por instantes, dos que me ladeiam.
Eis que ouço: amanhã é o aniversário dela. O vendedor de sorvete, igualmente velho e poético, diz alguma coisa com um sotaque não identificado, depois sorri. Olho pro quarteto, sem acreditar muito. Com mesurado espanto, escapa-me: é o meu também!
Adentro à cena, sou personagem. E para o meu espanto, ninguém se espanta, sorriem pra mim, alegremente, como se soubessem o que eu ia dizer. O clima de filme do Almodóvar dá mais cor à tarde: absurdos acontecem, é natural.
No breve desenrolar que se segue, perguntam minha idade e me dão parabéns. Com alegria natural e sincera comentam dos quase oitenta e quatro anos da patroa ou mãe. Capricorniana como eu, Dona Menininha frui seu sorvete com vento, alheia e misteriosa.
Poucos minutos se passam, mas logo me despeço. Carrego ternura até não poder mais. Ela atinge seu ápice cá dentro do peito. Preciso do esforço das pernas, pra sustentarem minha estranha doçura. A travessia pelas ruas de todo dia é lenta, apresso meu passo, não chego. Há um mar que atravesso: encontros, coincidências, passagens.
Minha imaginação, brincalhona e volátil, vem logo acrescentar que há quase três décadas eu e a menina dona nos encontramos numa praça como essa, lá no céu. Combinamos esse breve encontro, e assim como hoje, sorrimos uma pra outra, felizes, e desgovernadas.
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Escrito no final da tarde de ontem, com o despudor da inspiração que anseia tomar corpo. Tomou corpo, um corpo quente, suado, amoroso. Verão que se abriu infinito, sorrindo pra mim. Dedico essas linhas a Dona Menininha, que nunca as lerá, e foi fonte temporária da minha inspiração. Dedico, principalmente, a todos que eu amo, e que me ajudaram a transformar o ano de 2008 num período muito especial da minha vida, cheio de realizações. Obrigada por cada sorriso e cada aposta de felicidade. Brindo a tudo que virá.
Gotas do mar
Sexta-feira, Setembro 05, 2008
Eu sou aquela que, aflita de estrelas, carrega silêncios na pele; morena ou pálida, pequenos sóis, dignos de nota, ou de poesia. Tenho sabedoriazinhas, palavras, lágrimas que alimentam o mar, quando mergulho. Indiferenças, não muito diversas, obscurecem as noites minhas. Mas a noite não traduz as indiferenças que carrego, porque ela é crua e densa, funda e fecunda, cheia de honra. O que eu tenho quando assim é uma sombra de pequenos detalhes, que passam. Meu sorriso de beira de estrada é desabrido, doido, colhido da vertigem de um pássaro. Meu riso, tímido e nu, menina-moça que enrubesce, se obscena. Minha voz é a face apagada da lua num amanhecer, que reflete certo brilho, longínquo. No fosso escuro da noite, flerto com o abismo, e muito lúcida, alucino. Carrego sentidos de elementos primários: minha tarefa desde há muito é sentir o fogo na dança das palavras, a terra, na lavoura do texto. A brisa de correr insufla o ar no mar das letras. Sofro de selva, de doer, de sorrir, de me iludir, de viver: por isso eu vivo. E os meus olhos, esses faróis castanhos de ver mundo, brilham, silenciosamente, nas minhas aflições. Por isso seis bilhões de solidões, aflitas e humanas estrelas, conversam, existem comigo, por isso alimentam meu mar; eu, que sou aquela que, sem saber muito bem por que, ou até quando.
Gotas do mar
Terça-feira, Agosto 19, 2008
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Na dança rendeira da agulha, meus dedos cingem, ornam. São fios. E sangram. A costura no branco da folha. Virgens, meus dedos bordam. Desabotoam, e por isso desabrocham. Desenham a lápis, contornos, dobras.
Sangram, num retângulo cheio de vincos: páginas perdidas. Rematam, retalham, fiam. Porque é tempo de fiarem. Porque é tempo que dá liga, é tempo.
Meus dedos, que souberam, que fiaram outras histórias, desenvolveram, outrossim, o árido trabalho da espera. E esperaram. E fiaram - dessemelhantes tecidos. E cortaram. Meus dedos sangraram.
Cada légua de tecido que cosi - coser é o meu dom, desvesti-me de mim. Só em parte - as anáguas eram minhas.
Eu, que sou todas, mas sou só eu mesma, vesti metros do mundo que quase nunca me coube. Somos nós dois, hoje, a linha, a fibra.
Eu, que sempre vesti o meu dentro, vesti o meu fora.
“Tudo está vestido de solenidade e nudez”¹. É, Sophia, eu me vesti para poder ficar nua. Revesti-me das tessituras férteis das planícies, já que abismos sempre me cobriram.
Vestida de mundo, ciosa do desejo dos meus dedos, não fui, não voltei. Estive. Liguei. Uma bainha, um fecho.
E o meu coração, sem desfecho, ritmo do meu sangue, extensão dos meus dedos - que sangram -, o meu coração rajado de fusões está aqui, peça principal, modista da minha poesia.
(A poesia me conserta, e desconcertada, eu conserto a poesia.)
¹ Sophia de Mello Breyner, As Grutas.
Fotografia de Mira J., extraído deste blog.
Gotas do mar
Quarta-feira, Janeiro 03, 2007
O infinito a minha frente pede
Olhos mareados de horizontes,
Meus limites não diviso
Senão no que concebo da vastidão de mim.
Contenho extremos de estrelas de céu mar
Faz mistério de leste a oeste.
Gigantesca, aposso-me da brisa,
Do sol derramado,
Das peles que queimam verões.
Antes de chegar o amor e arrasar
Com toda simbologia marítima,
E me fazer crer que a imensidão vagante de mim
É você, que gira gira o sol,
Perfuma minha pele,
Gira gira o amor por dentro,
Do que contemplo nessa tarde já ida
De pássaros e de meninos.
Saciai-vos:
Sexta-feira, Dezembro 22, 2006
Do meu pai herdei os olhos de poeta e a imaginação de sonhador. Do meu pai os cabelos, pernas, pés e melancolia. Esta ausência de tudo, distraída, e o sorriso maroto. Do meu pai herdei o amor de minha mãe.
Da minha mãe herdei a postura, o falar manso, a voz pausada e a maneira de vestir. Da minha mãe a ansiedade, o amor fecundo, o carinho imenso.
Síntese dos dois, surgi assim, meio poeta, meio menina. Tímida e sacana. Delicada, intensa. Carioca e mineira. Mar e montanha.
Dos dois o amor ainda adolescente, um medo avivado no olhar. Refreio, sublimidade, profanação. Uma ousadia tímida, mas ousada. Uma forma inaudita inaugurando a imensidão.
Por causa dessa mistura quis o destino ou Deus que eu fosse abstrata, metafórica, notícia velha, desde menina, memória. E grata eu sou pela confluência destes rios azuis que são meus pais, um meio anjo, outro pássaro. Este, coisa aturdida, aquele, flor em rubro instante.
A minha história é um pouco da trajetória deles. O meu ponto de partida é um ato de criação. Por isso invento meus dias, meus sóis de Van Gogh, por isso o meu arrebatamento ante as coisas que não existem, senão na imaginação. Amo o que foi, e o que está por vir. Meu presente é invenção dos dois.
Saciai-vos:
Quarta-feira, Dezembro 20, 2006
Sei que um dia quis ser ave. E que de menina trago os olhos cheios de espanto. Perplexa ante o mundo que sinto pelas pontas dos dedos e pela profundidade do coração. Sei que essa ave, símbolo da liberdade, voou por aí. E que vem me buscar nas noites de sonho sereno, nas noites de lua, nas noites negras como o negro dos olhos que ostenta esse bicho lindo. É mais que um símbolo, mais que paixão, é a identidade de uma alma aprisionada a um símbolo, a um rudimento de alma, que é o que os bichos têm. Rudimentos cá e lá. Porque é inegável a afinidade que sinto com as coisas nascidas num silêncio de instante, de instinto. E o que se ouve da morte? O que se ouve da vida? O que se ouve dentro do homem, do bicho, dentro do mistério de Deus? Olhos cheios de espanto, olhos de perplexidade pelo mundo acometido. Olhos de acometimento. Escrevo o mistério da ave, e ela é o meu mistério, o mistério de um amor.
Saciai-vos:
Segunda-feira, Dezembro 18, 2006
Sono em suspenso, madrugada quente. Suor nas idéias, pensamento insone. Lembranças remotas, semi-vividas, que não me trazem nenhum tipo de saudade, mas o desconforto de não terem tido desfecho. Nem materialidade, quantas vezes. Saudades tenho do meu ardor juvenil, confesso, desse suor que hoje sua novamente a face, acelerando as sensações, oferecendo-lhes textura, cheiro, semântica. Oferecendo-lhes poesia. Sim, saudades do gosto, do rosto, de antigos trejeitos, transeuntes das minhas ruas, ou bichos das selvas de mim. Ainda assim, sei que não trocaria de instante. Este o mais belo... Encontro no meu presente tudo aquilo com que sempre sonhei. Beleza, reciprocidade, afeto. A história outrora aguardada. Construo o que há de mais sublime na existência. Sou fiel a tudo isso, a eternidade desses sentimentos, ao tanto que me renovam, e também resgatam a verdade de menina, que sonhava o amor. Carrego um sem número de reticências, mas também vou fechando lacunas, acrescendo pontos finais. Abrindo parágrafos, preenchendo páginas de um branco tão pálido como eu, com o sol do amor que faz em mim. É (pra sempre) Verão.
Saciai-vos:
Domingo, Novembro 26, 2006
E de repente me lembrei. Assim, subitamente. O coração quis o beijo devorado pelo tempo das coisas tardias. A alma ficou mansa, grávida de um desejo bonito. Perigoso querer, na alvura destes instantes. Galopes e saltos das emoções ferinas. É que cabe acontecer deste jeito, perdidamente iludida de amor. Principio na descida de mim, e é tanto sol! Queimo, ardo, às vezes sufoco com tanto lirismo. Tenho medo de ser ferida, porque o meu instante é o das coisas breves, eternizadas pelo momento poético. É tão fácil que pareça leviano, mas é trágico porque não há rendição, muito menos modo de escolher.
Saciai-vos:
Segunda-feira, Outubro 16, 2006
Hoje o dia está lindo. Eu olho pro sol e acho que ele quer me trazer alegria. Me mostra o poder do dourado na pele, as flores que vicejam por sua graça. Eu o enfrento de igual pra igual, em minha soturna palidez. Mas o sol escapa ao meu entendimento, e eu ardo. Simplesmente. Sou agora uma de suas presas, me visto de amarelo. Só imagino o mar que daqui eu não vejo, um azul profundo como os olhos da minha bisavó. O tempo não está para saudades, mas para ações. Ainda assim, uma e outra saudade latejam no meu ser. Queria poder brincar de encantos. Minha magia seria assegurar poesia para as próximas gerações. Eu cuidaria das sementes e das primeiras safras. Uma plantação de vernáculos líricos, estrofes fertilizadas, versos bem nascidos. Todos os dias, poemas seriam concebidos. Meu ofício, comum a outros, continuar a sonhar. Sem medo de arriscar universos fantásticos, e de fugir à verossimilhança. Hoje sonhei com livros sagrados escritos por homens comuns. Sonhei com uma nação justa, com diferenças que eram somadas, mãos que ajudavam outras mãos. Delirei de esperança. Acordei e o dia estava assim, lindo, sorrindo pra mim. Torço para que seja um sinal.
Saciai-vos:
Quinta-feira, Outubro 05, 2006
Sorrio pra manhã nascedoura. Tenho no rosto o resultado da noite sem sonho. E há tantas chagas nessa olheira secular. Há histórias de caminhos perdidos, de outonos sem testemunhas, e de primaveras só há pouco germinadas. É mistério este doer imaculado, sereno, quase uma conseqüência de viver. É um doer manso, dor de parto, porque cada instante é a vida. E não se traz ao mundo sem dor. É isto, portanto. Estou sempre trazendo ao mundo este eu mesma cheia de emoção. Vivo às vísceras, às vésperas de mim. Sou o que está pra acontecer e o que não serve mais. Sirvo pra sonho, pra paisagem, pra ventania. Sirvo pra poesia. "A poesia é o presente", versejou Ferreira Gullar. A poesia é a minha inteira, de cada sorriso matinal abrindo as cortinas do mundo ao negrume da vaguidão insone. Sou esse eterno metaforizar-me. Sinto esteticamente. Consisto em criar. Minha existência é verbal, os caminhos do meu mundo são flores feitas de palavras. Meus jardins são frases inteiras. E a cada letra que nasce, revivo em mim a certeza etérea que justifica meu viver.
Saciai-vos:
Quarta-feira, Julho 19, 2006
Meu rosto relembra suas mãos na distância do contato. Ele é a terra para o seu plantio. É a promessa da flor que você colherá. Colhe, pois, flores de mim, nas faces encharcadas de poesia e lágrima. Colhe esse viver cheio de pranto e medo indócil. Vele por mim, pelo meus ventos, que remexem crinas, destrançam cabelos, espalham as sementes que sonham com pétalas. Me ensina a fertilidade do sorriso. Vem sazonar meus frutos, cultivar minhas plagas, chover sobre mim. Vem pra me fazer sua. Vem que eu preciso tanto. Vem que há relâmpagos, e os granizos ferem. Há um assombro na menina dos meus olhos. Há um rio nascendo nesse castanho cheio de amor. Transbordando a alma, nutrindo meu amanhã. A vida me arremessa frágil sobre os campos do mundo. Sem grãos, sem sementes, sem terra. Só com o sonho da flor. E com o sonho da flor eu faço um jardim na sua alma. O sonho e a flor você colhe com suas mãos de ternura. E o impacto de tudo o que não sei e sinto fortemente nas artérias e no incorpóreo ser, faz na minha alma uma paisagem a mais.
Saciai-vos:

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Carioca de nascimento, mineira de paixão, cabofriense por uns nove anos. Nascida em 24/12/1981, sob o signo de capricórnio, lua não sei de que, e ascendente em áries. Filha de Marisa e Guilherme, carrega nas veias menos o sangue de filha que a herança emocional dos pais. Sabe-se que Guilherme foi poeta, radialista e homem bonito...e que faleceu em 1987. À mãe, coube a tarefa de cuidar de seus dois filhos e amá-los de maneira incondicional. Ah, sim! a menina Roberta, cognominada desde cedo Beta, tem um irmão mais velho que adora rir bem alto e fazer poesia: Teofilo, que como o próprio nome indica, deve ser amigo íntimo de Deus. Sabe-se ainda que Roberta nasceu fadada às letras, e que delas retira seu frescor, e também seu pranto. Vê a vida com cores de sertão. Adora longos passeios de bicicleta, fim de tarde, declarações de amor, pipoca, só com cinema, e, claro, os poemas de Manoel de Barros. Seus livros preferidos são os de Clarice Lispector, Raduan Nassar, Caio Fernando Abreu, Fernando Pessoa, Drummond, Quintana, entre tantos outros. Ama os pássaros, as borboletas, e os velhos. A uma borboleta (ou a um pássaro) ela dará vida, no dia em que tatuá-la na pele. Anda querendo ampliar sua bagagem literária porque sabe que leu muito pouco até hoje. Vive pelas letras. Suas e alheias.Metade dela é corpo, a outra, é palavra. Tem nas mãos todo tempo do mundo; quer um segundo apenas. Sua música preferida é a do momento. Quer aprender todas as línguas; ser passarinho, pelo menos por um dia; ver seu rosto sem precisar de espelho; ler tudo o que já foi escrito até hoje; conhecer Maria Madalena, e outras personalidades bíblicas. Se tiver um filho dará a ele o nome do pai. Se for mulher, será bailarina. Não pretende se casar. Tem intenções artísticas não moldadas, como suas palavras, que não se emolduram em ornato algum. Gosta do fascínio que o cinema lhe exerce. Não sabe dançar. Mas dança. Não sabe cantar. Mas canta, ainda que no chuveiro. Exerce uma espiritualidade própria, mas não tem religião. Foi fortemente influenciada pelo espiritismo. Conhecer Paris é uma de suas finalidades óbvias. É propensa à solidão e à melancolia. É propensa ao amor.
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